Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 9 Flávio Josefo
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"TITO É RECEBIDO EM GISCALA, DE ONDE JOÃO, DEPOIS DE O TER ENGANADO, FOGE DE
NOITE, REFUGIANDO-SE EM JERUSALÉM.",
"297. Depois que Tito viu a cidade de Giscala, achou que era fácil tomá-la,
mas como o sangue derramado em Gamala tinha satisfeito plenamente à sua
vingança, ante as perdas sofridas pelos romanos naquele cerco e sua clemência
tinha horror ao tratamento que os soldados dispensariam sem dúvida aos de
Giscala, confundindo os inocentes com os culpados, se a tomasse de assalto,
resolveu procurar antes conquistá-la pelas boas maneiras. Assim, disse àquele
grande número de homens que lá estavam, dos quais a maior parte eram
revoltosos, que ele não compreendia por que razão, se todas as outras cidades
tomadas se tinham submetido, eles se julgavam os únicos que podiam resistir
ao poder dos romanos, depois de ter visto que as cidades muito mais fortes que
a deles tinham sido tomadas ao primeiro assalto e que as que lhes tinham
aberto as portas viviam tranqüilamente sob sua proteção. Se queriam fazer
como eles, não insistindo mais num intento que não poderiam absolutamente
conseguir, ele dava-lhes sua palavra de tratá-los do mesmo modo e esquecer as
insolência que haviam tido, em se revoltar, porque julgava dever perdoá-la, com
a esperança de que se iludiam de reconquistar a liberdade. Mas, se recusassem
ofertas tão vantajosas, ele os trataria com todo o rigor, e conheceriam então,
muito tarde, que aquelas muralhas, em cuja força confiavam, ser-lhes-iam
fraca defesa contra as máquinas dos romanos e que eles, embora os mais
corajosos de todos os galileus, por sua culpa, tornar-se-iam escravos.
Tito falou assim e nenhum dos habitantes lhe deu resposta, nem podia
responder-lhe, porque os sediciosos se haviam apoderado das muralhas e
tinham posto guardas em todas as portas, com a proibição de deixar entrar
quem quer que fosse. João tomou a palavra por todos e disse que aceitava o
oferecimento e persuadiria os outros a aceitá-la também ou a isso os obrigaria
pela força; mas rogava que lhe concedesse ainda aquele dia para a observância
de suas leis, que os obrigavam a santificar o sábado e não lhes permitia
outrossim fazer naquele dia tratados de paz, bem como tomar as armas para
fazer a guerra, ao que eles não se podiam opor, nem obrigá-los, sem impiedade;
que aquela demora em nada importaria, pois se alguém quisesse fugir, de noite,
era fácil a Tito impedi-lo, fazendo boa guarda e ele teria mesmo vantagem, pois
sendo sua intenção salvá-los não era uma ação menos digna ter consideração à
observância de suas leis, bem como a eles, o dever indispensável de não as
violar.
Tito não se contentou de lhes conceder o que lhe pediam, mas foi acampar
bem longe da cidade perto de uma aldeia chamada Cidessa, que pertencia aos
tírios e que sempre fora inimiga dos galileus. Mas não era por respeito ao dia de
sábado que João havia falado daquele modo. O temor de ser abandonado, se
fossem atacados, fazia-o pôr sua única esperança na fuga. Seu fim era enganar
Tito e fugir de noite; há motivo de se crer que Deus o quis preservar para a
ruína de Jerusalém.
Chegou a noite e os romanos não montaram guarda; ele, então, fugiu para
Jerusalém e não somente levou consigo o que tinha de soldados, mas também
alguns dos principais habitantes com suas famílias. Como o temor da morte ou
da escravidão lhes dava coragem e força, eles fizeram vinte estádios de
caminho; os velhos, as mulheres e as crianças não podendo mais, começaram a
clamar e a se queixar; mas os que ficavam viam os outros avançar e abandoná-
los, e eles imaginavam que os inimigos estavam perto e prestes a fazê-los
prisioneiros; o barulho que os mesmos faziam, caminhando, dava-lhes a
impressão de que os perseguiam e eles olhavam continuamente para trás, como
se os outros já estivessem perto. Apertavam-se de tal modo, na fuga, que caíam
uns sobre os outros e nada causava tanta piedade como ver as mulheres e as
crianças pisados na confusão. Algumas, às quais restava ainda um pouco de
força, clamavam com a voz entrecortada de gemidos a seus maridos e parentes
que as esperassem. Mas eles não as escutavam tanto a sua voz como a de João
que lhes dizia pensassem só em se salvar, para alcançarem um lugar de onde
se pudessem vingar dos romanos se os levassem prisioneiros. Aquela multidão,
reduzida aos extremos e em deplorável estado, andava de um lado para outro,
confirme se sentiam ou não, com força.
Quando raiou o dia, Tito aproximou-se da cidade para executar o tratado.
Os habitantes não somente abriram-lhe as portas, mas vieram-lhe à presença
com suas esposas, chamando-o de benfeitor e de libertador. Disseram-lhe que
os perdoasse e que se contentasse em castigar os revoltosos, que ainda estavam
entre eles. Tito mandou, então, uma parte da cavalaria perseguir João, mas ele
chegou a Jerusalém, antes que o pudessem apanhar. Mataram perto de seis mil
dos que tinham fugido com ele, e levaram cerca de três mil mulheres ou
crianças, que estavam espalhados por diversos lugares.
Tito ficou muito desgostoso por não ter podido prender João, para castigá-
lo como ele merecia; mas o grande número de mortos e de prisioneiros acalmou
a sua cólera. Assim, entrou na cidade com espírito de paz, mandou derrubar
apenas uma pequena parte dos muros, para mostrar seu domínio e usou mais
de ameaças do que de castigos com os que tinham sido causa da agitação, não,
porém, que ele não desejasse castigar os culpados, mas porque não duvidava de
que muitos para satisfazer à cólera e ao ódio particulares, acusariam mesmo os
inocentes e nessa dúvida ele preferia deixar viver os culpados, do que fazer
morrer os inocentes, porque os culpados poderiam talvez tornar-se mais
sensatos pela vergonha de recair num crime que lhes havia sido generosamente
perdoado, ao passo que a injustiça, que teria custado a vida aos inocentes,
seria irremediável.
Deixou uma guarnição na cidade, quer para conter na obediência os que
estivessem dispostos a promover novas agitações, quer para garantir a
tranqüilidade daqueles que só desejavam a paz; e assim terminou a conquista
da Galileia, que custou tanto trabalho aos romanos.",