Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 19 Flávio Josefo
,
"CONTINUAM AS HORRÍVEIS CRUELDADES EM JERUSALÉM DA PARTE DOS
IDUMEUS E DOS ZELOTES; MARAVILHOSA CONSTÂNCIA DOS QUE AS SOFRIAM.
OS ZELOTES MATAM ZACARIAS NO TEMPLO.",
"320. Depois que Anano e Jesus foram tão cruelmente massacrados, os
zelotes e os idumeus levaram sua raiva contra o baixo povo e fizeram também
entre eles uma horrível mortandade. As pessoas da nobreza eram encarceradas,
com a esperança de que elas passassem para seu lado; nem um sequer, porém,
preferiu evitar a morte, a fim de se unir àqueles malvados para a ruína de sua
pátria. Não se contentavam em lhes fazer perder a vida; aqueles tigres
sanguinários faziam-nos sofrer antes todos os tormentos imagináveis e só lhes
concediam a graça de lhes tirar a vida, pela espada, depois que seus corpos
estavam esgotados, sob o peso de tantas dores e incapazes de continuar a
senti-las. Durante a noite enchiam as prisões com os que apanhavam durante o
dia, de lá tiravam os mortos para dar lugar aos vivos, que queriam trucidar do
mesmo modo. O terror do povo era tal, que ninguém se atrevia abertamente
nem a sepultar os mortos, nem a se lamentar, fossem mesmo parentes ou
amigos. Para derramar lágrimas e lamentar seus mortos, eles tinham de
encerrar-se em suas casas, olhar antes de todos os lados, para ver se não eram
observados ou ouvidos por alguém, porque a compaixão era tida como um
grande crime por aqueles monstros de crueldade, e não se podiam chorar os
mortos sem perigo de perder também a vida. Tudo o que se podia fazer era
cobrir durante a noite aqueles corpos com um pouco de terra, depois de terem
sido tão desumanamente massacrados; fazê-lo durante o dia, era considerado
ato de extrema coragem, e doze mil homens de nobre origem e que ainda se
encontravam em pleno vigor de sua idade morreram dessa maneira.
321. Por fim, aqueles tiranos, cansados de derramar tanto sangue,
fingiram querer observar alguma forma de justiça e tendo determinado matar
Zacarias, filho de Baruque, porque, além de sua ilustre origem, sua virtude, sua
autoridade, seu amor pelos homens de bem e seu ódio pelos maus, tornavam-
no temível a eles mesmos e suas grandes riquezas eram um grande incentivo
para sua ambição. Escolheram setenta dos mais notáveis dentre o povo que
constituíram aparentemente juizes, mas sem lhes dar, na verdade, poder
algum. Perante eles, acusaram-no de ter querido entregar a cidade aos romanos
e ter tratado a esse respeito com Vespasiano. Não se encontrando prova
alguma, nem pelo menos a mínima probabilidade desse pretenso crime, não
deixaram de afirmar que era verdadeiro e queriam que o testemunho que eles
davam fosse suficiente para condenar o acusado.
Zacarias facilmente compreendeu que aquele julgamento era uma
hipocrisia que iria terminar com sua prisão e depois com sua morte. Mas,
embora não visse esperança alguma de salvação, nada diminuiu da firmeza de
sua coragem. Começou por censurar com desprezo os seus acusadores e o
expediente tão vergonhoso de que se serviam para ocultar a verdade, com tão
visíveis calúnias. Destruiu depois em poucas palavras os crimes de que o
acusavam e os fez recair sobre eles mesmos; disse-lhes como e qual fora, desde
o princípio até então, a concatenação de crimes, que se sucedendo, uns aos
outros, haviam produzido aquele amontoado de tudo o que a injustiça, o furor e
a impiedade podem cometer de mais horrível, e terminou deplorando aquele
estado, mais infeliz do que se poderia imaginar, a que sua pátria se encontrava
reduzida. Palavras tão generosas acenderam tal raiva no coração dos zelotes,
que nada lhes pôde impedir de matar Zacarias, naquele mesmo instante,
embora quisessem dar àquele julgamento uma aparência de justiça, até o fim, e
ver se aqueles que eles haviam escolhido para juizes, teriam bastante coragem
para não temer fazê-lo, numa circunstância em que eles não podiam agir sem
correr risco da própria vida. Assim permitiram a esses setenta juizes que se
pronunciassem e não havendo um só deles que não preferisse se expor à morte
do que ao remorso de ter condenado um homem de bem, pela maior de todas as
injustiças, todos a uma voz declararam-no inocente. Ao ouvirem tal sentença os
zelotes soltaram um grito de furor. Sua raiva não pôde tolerar que aqueles
juizes não houvessem compreendido, que o poder que lhes haviam dado era
imaginário, e do qual não queriam que eles fizessem uso algum; dois dos mais
ousados daqueles homens atiraram-se sobre Zacarias e o mataram no meio do
Templo, insultando-o ainda, depois de morto, dizendo com a mais cruel de
todas as zombarias: Recebe esta absolvição que nós te damos e que é muito
mais garantida que a outra. Lançaram em seguida seu corpo numa vala
comum que estava abaixo do Templo. Os setenta juizes foram expulsos
indignamente a golpes de espada para fora do Templo, não porque um
sentimento de humanidade os havia isentado de manchar as mãos no sangue
daqueles homens, mas para que se tendo espalhado por toda a cidade fossem
como outras tantas testemunhas, cuja deposição já não poderia permitir a
ninguém duvidar de que a capital de um reino outrora florescente, não estava
reduzida à escravidão.",