🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro 4 Flávio Josefo

Capítulo 36 Flávio Josefo

123456789101112131415161718192021222324252627282930313233343536373839404142
,
"VESPASIANO É DECLARADO IMPERADOR POR SEU EXÉRCITO.",
"358. Vespasiano, depois de ter devastado todas as terras dos arredores de
Jerusalém, soube, ao seu regresso a Cesaréia, do que se passava em Roma e
que Vitélio tinha sido declarado imperador. Essa notícia causou-lhe extrema
indignação, pois embora ninguém soubesse melhor do que ele obedecer, tão
bem como comandar, ele não podia tolerar como senhor um homem que se
havia apoderado do império, como se o mesmo tivesse sido exposto, como
presa, ao primeiro que o quisesse ocupar. Tão sensível desprazer impressionou-
o de tal modo, que já não lhe era possível pensar em empreendimentos
estrangeiros, quando sua pátria se achava reduzida a tal estado. Mas embora
ele ardesse no desejo de vingar o ultraje que a escolha de Vitélio fazia aos que
mereciam muito mais do que ele ser elevados ao supremo poder, era obrigado a
reter sua cólera, porque estava tão longe de Roma e o inverno retardava ainda
mais sua marcha; além de que poderia acontecer outra novidade qualquer
antes que tivesse chegado à Itália.
359. Quando tudo isso se passava no espírito de Vespasiano, os oficiais e
os soldados de seu exército começaram a se preocupar livremente com os
negócios públicos e a testemunhar abertamente sua cólera, porque as tropas
que estavam em Roma, mergulhadas nas delícias, sem querer ouvir falar de
guerra, dispunham como bem lhes aprazia do império e o davam àquele de
quem esperavam obter mais dinheiro, ao passo que eles, depois de ter
suportado tantas fadigas e envelhecido nas armas, eram tão covardes, que os
deixavam tomar toda a autoridade, embora tivessem como comandante um
homem digno do cargo. Acrescentavam que se eles deixassem escapar a ocasião
de lhe testemunhar sua gratidão, pelo extremo afeto que tinha por eles, não
podiam esperar encontrar outra semelhante. Que era tanto mais justo declarar-
se por Vespasiano contra Vitélio, quanto os sufrágios em seu favor eram mais
numerosos do que os sufrágios daqueles que tinham nomeado Vitélio,
imperador, pois que eles não eram menos valentes e não tinham combatido em
menor número de guerras do que as legiões que tinha trazido da Alemanha
aquele usurpador para a capital do império e aquela escolha de Vespasiano não
tinha contraditares, porque o Senado e o povo romano jamais se resolveriam a
preferir as desordens de Vitélio à temperança de Vespasiano, e a crueldade de
um tirano à clemência de um bom imperador; que eles não podiam também não
ter em consideração o mérito tão extraordinário de Tito, porque nada pode
manter a paz dos impérios como as eminentes virtudes dos soberanos. E assim,
quer se considerasse a experiência que a velhice tem, quer o vigor da juventude,
não se podia deixar de escolher Vespasiano, ou Tito, e não havia vantagem que
não se pudesse tirar dessa diferença de idade. Aquele admirável pai, daquele
excelente filho, sendo chamado ao império não o fortificaria somente com três
legiões e com as tropas auxiliares dos reis, mas também com todas as forças do
Oriente, daquela parte da Europa que não temia Vitélio e dos que abraçavam o
partido de Vespasiano na Itália, onde ele tinha seu irmão e o outro filho, o
primeiro dos quais era prefeito de Roma, cargo assaz considerável, sobretudo
no começo de um reinado, e o outro tinha tanto prestígio entre a juventude de
mais ilustre nobreza, que muitos a ele se uniriam; e, por fim, se eles tardassem
em declarar Vespasiano imperador, poderia acontecer que o Senado lhe
concedesse aquela honra e eles teriam então a vergonha de não lha ter dado,
embora nenhum outro fosse mais obrigado a isso do que eles, pois o haviam
tido como chefe em tantas, tão grandes e gloriosas empresas.
Tais as palavras dos soldados: a princípio, apenas entre eles, em
pequenos grupos, mas seu número crescia sempre e fortalecia-se o sentimento
até que declararam Vespasiano imperador e pediram-lhe que aceitasse aquela
dignidade para salvar o império do perigo que o ameaçava. Havia já muito
tempo que aquele grande homem dirigia seus cuidados a tudo o que se referia
ao bem público, mas embora ele não pudesse não se julgar digno de reinar, não
tinha aquela ambição, porque preferia a segurança de uma condição particular,
aos perigos inerentes àquele supremo cargo, que expõe os homens aos
acidentes da fortuna. Assim, ele recusou a honra oferecida. Mas em vez de essa
recusa amortecer o entusiasmo de seus chefes e soldados, eles insistiram ainda
mais para que aceitasse e chegaram mesmo a puxar de suas espadas,
ameaçando matá-lo, se ele se recusasse a ser o senhor do mundo. No entanto,
ele continuou a resistir; vendo que não os podia persuadir, foi por fim obrigado
a ceder às suas instâncias tão fortes e que lhe eram tão gloriosas.",