Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 15 Flávio Josefo
,
"JOÃO DE GISCALA, QUE FINGIA ESTAR DO LADO DO POVO O TRAI, PASSA PARA OS
ZELOTES E OS PERSUADE A CHAMAR OS IDUMEUS EM SEU AUXÍLIO.",
"310. Assim, o partido do povo era o mais forte; mas João, que sabemos ter
fugido de Giscala, foi a causa de sua ruína. Como ele era muito mau e tinha
desmedida ambição, havia muito tempo que acariciava a idéia de erguer sua
fortuna particular, sobre as ruínas da pública. Para conseguir o seu intento,
fingiu unir-se a Anano e querer secundar seu zelo. Por esse motivo assistia,
durante o dia, com os seus auxiliares mais importantes a todas as suas
reuniões e conselhos, e visitava de noite todos os guardas; depois informava os
zelotes de tudo o que se passava e os tinha bem avisados de que o povo não
tomaria uma deliberação qualquer, sem que ele logo lha comunicasse. Mas, ao
mesmo tempo, a fim de impedir que sua maldade fosse descoberta, não havia
atenções que ele não dispensasse a Anano e aos outros chefes do povo, nem
solicitude que não tomasse, para lhes ser agradável. Ia a tal excesso a sua
gentileza que chegou a produzir um efeito contrário naqueles que ele pretendia
trair. Sua excessiva complacência, o fato de ele assistir a todos os conselhos,
sem ser chamado, e ainda Anano, vendo que os inimigos eram avisados de
tudo, por fim, veio a suspeitar dele. Mas era difícil e mesmo impossível afastá-
lo, tanto ele era esperto e conseguira conquistar a confiança dos que tinham a
direção de todos os negócios. Assim, julgou-se que o melhor que se podia fazer
era obrigá-lo com juramento a ser fiel ao povo, a conservar em segredo todas as
deliberações e a servir-se delas, com todas as suas forças, contra os rebeldes. O
traidor não hesitou em fazer o juramento; então Anano e os outros, confiando
na sua palavra, não somente não tiveram dificuldade em admiti-lo em todos os
conselhos, mas o escolheram para levar aos zelotes propostas de um acordo,
tanto temiam que, por sua culpa, o Templo fosse manchado com o sangue de
algum dos judeus. O pérfido homem foi falar com os zelotes e fez um papel
totalmente contrário. Como se o juramento que fizera houvesse sido em favor
deles e não contra, disse-lhes que não havia perigos aos quais não se havia
exposto para informá-los de todos os intentos de Anano e vinha avisá-los de que
todos não tinham ainda passado tão grande perigo se Deus não os ajudasse,
porque Anano tinha persuadido o povo a pedir auxílio a Vespasiano, rogando-
lhe que viesse imediatamente tomar posse da cidade, e tinha declarado que no
dia seguinte todos se purificariam, a fim de que, com o pretexto de piedade,
entrassem, por bem ou por mal, no Templo; que ele não via, no estado em que
as coisas se encontravam, como resistir por mais tempo a um cerco, contra tão
grande número de inimigos. Mas, que por uma providência particular de Deus,
ele lhes tinha sido mandado, para fazer propostas de acordo, com o fim de que
Anano tinha de surpreendê-los e de atacá-los quando menos o suspeitassem;
que eles, para se salvar, tinham um único meio, isto é, tomar um destes dois
partidos: ou entregar-se, suplicando a vida aos que os mantinham cercados, ou
pedir auxílio estrangeiro para se porem em condições de lhes opor resistência,
pois, do contrário, estariam vencidos e não poderiam esperar obter deles o
perdão de tantos males, que lhes tinham feito, por maior arrependimento que
mostrassem; e, ao contrário, seu desejo de se vingar aumentava sempre mais,
quando se vissem em condições de poder fazê-lo, sem temor; que nada havia
que eles não devessem temer dos parentes e dos amigos, dos que eles haviam
matado e do furor que dominava o povo por causa da abolição de suas leis e de
seus costumes, mas que quando mesmo alguns estivessem dispostos a perdoá-
los, eles seriam obrigados a ceder à sua violência.
311. João, com estas palavras falsas e fingidas, lançou o terror no espírito
dos zelotes; não lhes declarou abertamente qual o socorro com que eles se
deveriam fortalecer; entretanto, via-se que ele queria falar dos idumeus. Dizia
em particular aos chefes dos zelotes que Anano era um homem cruel e que era
particularmente deles que ele se tinha resolvido vingar. Eleazar, filho de Simão,
e Zacarias, filho de Anficano, ambos de família sacerdotal, eram dos principais
chefes e nenhum outro era tão importante como Eleazar, quer pela prudência
quer pela ação. Como o discurso de João os havia persuadido de que a intenção
de Anano era fortalecer o seu partido, com o auxílio dos romanos, e que eles
tinham ódio particular contra eles, não sabiam o que fazer nas diversas
contingências do momento, porque, de um lado, julgavam que o povo estava
prestes a atacá-los e eles viam, por outro, que o auxílio proposto estava tão
longe que se julgavam perdidos antes que pudessem obter. Mas, por fim,
determinaram pedir o auxílio dos idumeus e escreveram-lhes dizendo que
Anano, depois de ter enganado o povo, queria entregar a cidade aos romanos;
eles se tinham retirado ao Templo para não abandonar a defesa da liberdade
pública; que eles tinham sido cercados e estavam prestes a ser atacados, se não
se impedisse, com um auxílio imediato, que eles caíssem nas mãos dos inimigos
e a cidade, nas dos romanos. Encarregaram os portadores dessas cartas de
dizer verbalmente várias outras coisas aos daquela nação que tinham mais
autoridade; as pessoas que escolheram para essa incumbência chamavam-se
ambos Ananias, ambos muito corajosos, eloqüentes e capazes de persuadir e o
que mais importava, aptos para desempenhar tão importante incumbência.
Estavam eles certos de que os idumeus viriam imediatamente, porque esse povo
é tão brutal e tão amigo das novidades, que nada é mais fácil do que induzi-los
à guerra e ele vai com a mesma alegria para um combate como os outros, para
uma festa.",