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Livro 4 Flávio Josefo

Capítulo 11 Flávio Josefo

123456789101112131415161718192021222324252627282930313233343536373839404142
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"OS JUDEUS, QUE ROUBAVAM NOS CAMPOS, LANÇAM-SE SOBRE JERUSALÉM.
HORRÍVEL CRUELDADE E IMPIEDADE QUE LÁ PRATICAM.
O SUMO SACERDOTE ANANO SUBLEVA O POVO CONTRA ELES.",
"300. Em tal miséria, as guarnições das cidades, pensando somente em
viver, segundo sua vontade, sem se incomodar com a pátria, não cuidavam em
defender os oprimidos; os chefes dos ladrões depois de se terem unido e
organizado, dirigiram-se para Jerusalém. Não encontraram obstáculo, quer
porque ninguém tinha autoridade, quer porque a entrada estava sempre aberta
para todos os judeus segundo o costume dos nossos antepassados, e naquele
tempo, mais que nunca, porque se pensava que para lá se ia, levado apenas
pelo afeto e pelo desejo de servir à cidade, naquela guerra. Daí nasceu um
grande mal, que, mesmo que não tivesse havido divisão, naquela grande cidade,
teria sozinho causado sua ruína, porque uma parte dos víveres que seria
suficiente para alimentar os que eram capazes de a defender foi consumida
inutilmente por aquela grande multidão de homens inúteis, mas também foi
causa de revoltas que vieram depois da carestia.
301. Outros ladrões deixaram os campos para lançar-se sobre Jerusalém,
unindo-se aos primeiros, que eram ainda piores do que eles. Não se
contentavam de roubar e de assaltar; sua crueldade chegava ao assassínio; sua
ousadia era tal que o cometiam à luz do dia, sem poupar nem mesmo às
pessoas de condição. Começaram por prender Antipas, que era de família real e
ao qual estava confiada a guarda do tesouro público, como o primeiro de todos,
em dignidade. Trataram do mesmo modo Levias e Sophas, filho de Raguel, que
também eram de família real e outras pessoas muito importantes. Essa horrível
insolència, lançou tal terror no espírito do povo, que como se a cidade já tivesse
sido tomada, todos só pensavam em fugir.
Aqueles celerados foram ainda além. Julgaram que haveria perigo para
eles, se retivessem por mais tempo na prisão, homens tão ilustres e que outras
pessoas que os visitavam, poderiam querer vingar a afronta que se lhes fazia e
havia mesmo motivo de temer que o povo se sublevasse. Resolveram então fazê-
los morrer e mandaram um deles, de nome João, ou melhor, Dorcas, com
outros dez matá-los na prisão. Para dar a essa ação um pretexto, mandaram
divulgar que eles haviam prometido aos romanos, introduzi-los na cidade, e que
por isso não deviam ser considerados como cidadãos, mas como traidores. Sua
ousadia levou-os mesmo a se vangloriarem de ter conservado, com sua morte, a
liberdade da pátria.
302. No temor e no abatimento em que o povo se encontrava, a
presunção e o poder desses rebeldes chegou a tal excesso que eles ousaram
mesmo dispor do sumo sacerdócio. Afastavam as famílias que segundo a
tradição a possuíam, sucessivamente, e constituíam nessa alta dignidade,
pessoas sem nome, nem descendência ilustre, a fim de torná-las cúmplices de
seus crimes; homens indignos de tão grande honra não podiam recusar-se a
obedecer aos que os haviam elevado àquele cargo. Por outro lado, não havia
estratagemas e calúnias de que eles não se servissem para atacar as pessoas de
condição, que eles tinham motivo de temer, a fim de ter vantagem de sua
inteligência e de sua divisão. Mas ainda não era muito para esses malvados
manifestar aos homens tantos efeitos de seu favor; sua horrível impiedade
levou-os a ofender a Deus, entrando com os pés manchados e armas
criminosas no Santuário. O povo, então, sublevou-se contra eles, a conselho do
sumo sacerdote Anano, não menos venerável por sua idade, do que por sua
grande sabedoria e pela elevação da sua dignidade, e que teria sido capaz de
impedir a ruína de Jerusalém, se não tivesse caído na cilada que aqueles
celerados lhe armaram.",