Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 21 Flávio Josefo
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"OS OFICIAIS DAS TROPAS ROMANAS INSISTEM COM VESPASIANO, PARA ATACAR
JERUSALÉM, APROVEITANDO A DIVISÃO DOS JUDEUS. SÁBIA RESPOSTA QUE ELE LHES
DÁ PARA MOSTRAR QUE A PRUDÊNCIA O OBRIGAVA A DIFERI-LA.",
"325. No entanto, os oficiais das tropas romanas, que tinham os olhos
abertos a tudo o que se passava em Jerusalém, julgando que se devia
aproveitar de uma divisão tão favorável para eles, insistiam com Vespasiano,
seu general, que não a deixasse escapar. Diziam-lhe eles que aquilo acontecia
por uma especial providência e auxílio de Deus que seus inimigos voltassem
assim suas armas contra si mesmos e que os momentos eram preciosos, pois se
os deixassem escapar, os judeus poderiam num instante reunirem-se, quer pelo
excesso de males que sofriam, quer por se arrependerem de ter tão
imprudentemente permitido a cisão entre eles. O grande general respondeu-
lhes que aquele ardor em enfrentar o perigo, sem considerar o que era mais
útil, era uma prova de sua coragem; mas que a prudência o obrigava a dela
usar de outro modo, porque, acrescentou ele, que se nos apressarmos em
atacá-los, nós os obrigaremos a se reunirem para voltar contra nós todas as
forças, que são ainda muito fortes; ao passo que se nós o diferirmos, elas
continuarão a se enfraquecer por meio dessa guerra doméstica, que já começou
a diminuí-las. Não vedes que Deus, que luta por nós, quer que lhe sejamos
devedores dessa vitória sem que nos faça correr perigo algum? Quando uma
guerra civil que é o maior de todos os males leva os inimigos até esse excesso de
furor, a se degolarem reciprocamente, que temos nós a fazer senão continuar
como espectadores de tão sangrenta tragédia e por que nos expormos ao perigo
para combatermos pessoas que já se destróem a si mesmas? Se alguém
imagina que uma vitória obtida sem combater não deve ser tida como gloriosa,
aprenda que as vicissitudes da guerra, sendo incertas, a verdadeira glória
consiste em se servir das vantagens que podem fazer obter o intento pelo qual
se tomaram as armas; e assim a prudência não é menos louvável do que o
valor, quando produz o mesmo efeito. Enquanto nossos inimigos enfra-quecer-
se-ão uns pelos outros, nossos soldados refazer-se-ão, no descanso, de todas as
suas fadigas passadas e colocar-se-ão em condições de suportar ainda outras
maiores, com um novo vigor. Contudo, mesmo que buscássemos o brilho de
uma vitória obtida por meio de grandes combates, não seria agora o tempo para
isso, pois os judeus não pensam nem em mandar forjar armas, nem em
fortificar suas praças, nem em se garantir com algum outro auxílio, e o
encarniçamento com que se consomem a si mesmos os reduz a tal estado, que
eles encontrariam alívio na escravidão. Assim, quer consideremos a prudência,
quer consideremos a glória, não temos outra coisa a fazer que deixar que eles
acabem de se destruir, pois se agora nos apoderássemos dessa grande cidade
isso não seria atribuído ao nosso valor, mas ao fato de terem eles mesmos
causado sua ruína. Estas razões, de um chefe tão prudente, persuadiram a
todos os oficiais e os fizeram estimar ainda mais sua admirável sabedoria.",