Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 22 Flávio Josefo
,
"VÁRIOS JUDEUS ENTREGAM-SE AOS ROMANOS PARA EVITAR A FÚRIA DOS ZELOTES.
CONTINUAM AS CRUELDADES E IMPIEDADES DOS ZELOTES.",
"326. Muito depressa se constataram os efeitos dessa prudente ação de
Vespasiano, pois muitos judeus vinham todos os dias entregar-se a ele, para
evitar o furor dos zelotes, não sem grande dificuldade e sem grande perigo,
porque todas as portas e avenidas de Jerusalém estavam cuidadosamente
guardadas e eles matavam a todos os que por qualquer pretexto procurassem
sair, quando houvesse motivo de se suspeitar que era para esse fim. O único
meio de conservar a vida era resgatá-la por meio de dinheiro. Assim, os ricos
escapavam e aqueles homens desnaturados não perdoavam a um só dos
pobres. Os caminhos estavam cobertos de montes de cadáveres que serviam de
alimento aos animais e o horror de tal espetáculo fazia que muitos que
desejavam fugir, preferissem morrer na cidade, na esperança de que, pelo
menos, não seriam privados da honra da sepultura. A barbárie desses monstros
de crueldade recusou-lhes mesmo essa graça e chegou a tal excesso, que sem
fazer distinção entre os que eram mortos dentro ou fora da cidade, não
permitiam que se enterrasse nem um só. Mas era muito pouco para eles calcar
aos pés as leis de seus antepassados; vangloriavam-se em violar as da natureza
e em ultrajar o mesmo Deus, com suas horríveis impiedades. Não perdoavam
tanto aos que enterravam os corpos dos parentes e amigos, como aos que
queriam fugir para junto dos romanos; a morte era a recompensa de sua
piedade e era suficiente, para ter necessidade de sepultura, tê-la dado a um
outro. A compaixão, que é um dos mais louváveis de todos os sentimentos,
estava inteiramente extinta no coração daqueles malvados; tudo o que poderia
causá-la, redobrava-lhes o furor; sua crueldade passava dos vivos aos mortos e
voltava dos mortos aos vivos.
A impressão que tantos males causavam no espírito das pessoas que os
suportavam tornava-lhe a imagem tão espantosa, que aqueles que ainda viviam
invejavam a felicidade dos mortos e achavam que era preferível ser privado da
honra da sepultura a sofrer os tormentos pelos quais os faziam passar, na
prisão. Aqueles homens animados pelos demônios não se contentavam de
calcar aos pés tudo o que é mais digno de respeito; eles zombavam do mesmo
Deus e tomavam como loucura e ilusão as predições dos profetas. Mas as
conseqüências os fizeram ver que eram bastante verdadeiras. Aqueles celerados
foram os executores da predição feita há muito tempo, de que, depois de uma
grande divisão, Jerusalém seria tomada e depois que os que mais deviam
respeitar o Templo de Deus, o tivessem profanado com sua impiedade, ele seria
queimado e reduzido a cinzas, por aqueles aos quais as leis da guerra
permitiam usar como lhes aprouvesse de sua vitória.",