Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 17 Flávio Josefo
,
"SOBREVEM ESPANTOSA TEMPESTADE DURANTE A QUAL OS ZELOTES, SITIADOS
NO TEMPLO, SAEM E VÃO ABRIR AS PORTAS DA CIDADE AOS IDUMEUS, QUE
DEPOIS DE TER DERROTADO O CORPO DA GUARDA DOS HABITANTES, QUE
CERCAVA O TEMPLO, APODERAM-SE DE TODA A CIDADE ONDE PRATICAM
TODA SORTE DE HORRÍVEIS CRUELDADES.",
"315. Simão falou assim e todos os idumeus demonstraram com gritos
que aprovavam o que ele tinha dito; Jesus retirou-se muito triste por ver na
disposição em que eles se achavam que a cidade era presa de uma dupla
guerra. Os idumeus, por seu lado, não estavam em menor agitação de espírito;
eles não podiam tolerar a ofensa que se lhes haviam feito, por não se lhes terem
aberto as portas; achavam que os zelotes não eram tão fortes como eles haviam
imaginado e o desgosto por não poder socorrê-los, os fazia arrependerem-se de
ter vindo. A vergonha de voltar sem nada ter feito levou-os, entretanto, a outros
sentimentos; assim, resolveram ficar e acamparam perto das mulhares da
cidade.
316. Na noite seguinte, sobreveio uma horrível tempestade: a violência do
vento, a impetuosidade da chuva, a quantidade de relâmpagos, o ribombar hor-
rível do trovão, e um tremor de terra, acompanhado de rugidos, perturbou de
tal modo a ordem da natureza, que todos julgaram presságio de grandes
desgraças.
Os habitantes de Jerusalém e os idumeus eram, a esse respeito, da
mesma opinião. Estes últimos acreditavam que Deus estava encolerizado, por
eles terem tomado as armas; julgavam não poder evitar o castigo, se
continuassem a fazer a guerra à sua capital. Anano e os do seu partido estavam
persuadidos de que Deus declarando-se daquele modo em seu favor, eles
seriam vencedores, sem combater. Mas os fatos demonstraram que uns e
outros se enganavam.
317. Os idumeus, durante a tempestade, uniram-se apertando-se uns
contra os outros, cobrindo-se com seus escudos. Os zelotes, que estavam ainda
mais aflitos do que eles mesmos, reuniram-se para deliberar sobre os meios de
ajudá-los. Os mais ousados propuseram atacar o corpo de guarda dos sitiantes
e depois de os terem repelido, abrir as portas da cidade aos idumeus. Disseram,
para apoiar sua opinião que a execução daquele projeto não era tão difícil como
se poderia imaginar, porque a maior parte dos que compunham o corpo de
guarda eram homens mal armados e pouco aguerridos; atacando-os de
improviso seria fácil vencê-los; a grande tempestade havia encerrado a todos os
outros em suas casas e dificilmente eles se poderiam reunir. Porém, mesmo
quando a empresa fosse mais arriscada, não havia perigo aos quais eles não se
devessem expor, antes que ter vergonha de deixar perecer tantas tropas que
tinham vindo socorrê-los.
Os mais prudentes eram de parecer contrário, porque viam que não
somente haviam dobrado o número de guardas, do lado em que eles estavam,
contudo os muros da cidade eram também mais cuidadosamente vigiados, por
causa dos idumeus que estavam perto e não duvidavam de que Anano fazia,
segundo o costume, a ronda em todas as horas da noite, pois era certo que ele
sempre fazia assim. No entanto, para sua infelicidade e dos seus, mais do que
por negligência, naquela noite ele tinha ido descansar um pouco e quando a
tempestade começou a amainar, os que montavam guarda à porta do Templo
estavam cansados e com sono.
318. Os zelotes decidiram-se: serraram com ferramentas que acharam no
Templo os ferrolhos e os gonzos das portas e nisso o vento e os trovões muito os
ajudaram, pois os que vigiavam não ouviram ruído algum. Saíram depois do
Templo, deslizaram mansamente até as portas da cidade e abriram-nas, do
mesmo modo como haviam aberto as do Templo. A princípio os idumeus
julgaram que era Anano que vinha contra eles e tomaram as armas; mas logo o
perceberam e entraram na cidade. Se no furor em que estavam eles tivessem
naquele momento voltado suas armas contra o povo, tê-lo-iam passado a fio de
espada; mas os zelotes disseram-lhes que, como eles tinham vindo para
socorrê-los, deveriam começar por libertar os que estavam encerrados no
Templo e que depois de ter dizimado o corpo de guarda dos sitiantes, ser-lhes-ia
fácil apoderar-se da cidade; ao passo que, se antes da libertação os habitantes
dessem o alarme, eles reunir-se-iam em tão grande número, que poderiam sem
dificuldade atingir os lugares mais elevados onde seria impossível atacá-los. Os
idumeus aceitaram essa advertência, entraram, pela cidade, no Templo e
seguidos por aqueles que lá os esperavam com tanta impaciência, tornaram a
sair imediatamente para juntos atacarem o corpo da guarda dos sitiantes.
Mataram os que estavam dormindo; os gritos dos demais deram o aviso; os
habitantes então tomaram as armas com aquele espanto que bem se pode
imaginar. Entretanto, como eles julgavam, a princípio, que só tinham que
combater contra os zelotes, não punham em dúvida poder vencê-los por seu
grande número, mas quando viram que os idumeus haviam entrado na cidade,
juntamente com eles, foram tomados de tal terror, que a maior parte
abandonou as armas e começou a gritar e a se lastimar. Outros, iam
espalhando pela cidade a triste notícia de sua ruína e somente um pequeno
número de jovens teve coragem de opor resistência, enfrentando vigorosamente
os inimigos. Ninguém, porém, ousava vir em seu auxílio, tanto a entrada dos
idumeus lhes havia abatido o ânimo; contentavam-se com vãs lamentações que
ressoavam no ar com os gritos das mulheres. A tanto barulho juntavam-se os
gritos dos idumeus que os dos zelotes aumentavam e a tempestade tornava
ainda mais espantoso. Os idumeus eram naturalmente muito cruéis
e o que eles tinham sofrido com essa grande tempestade os havia irritado
muito contra os que lhes haviam fechado as portas; por isso não pouparam a
ninguém. Os que recorriam aos rogos não experimentavam menos sua
desumanidade do que os que lhes resistiam e era-lhes inútil alegar serem todos
do mesmo sangue e comum a todos, aquele augusto Templo, consagrado a
Deus; os idumeus sufocavam-lhes, com a morte, as palavras na boca e não
restava àqueles infelizes habitantes um meio de escapar nem qualquer
esperança de salvação. Seu temor contribuía ainda mais para sua ruína, do que
o furor dos idumeus, porque os fazia apertarem-se de tal modo, que não
podendo recuar, eles não erravam um golpe sequer. Alguns, para evitar serem
mortos pelos idumeus, matavam-se, ati-rando-se do alto das muralhas. O
sangue corria de todos os lados em redor do Templo, e quando o dia começou a
raiar, havia oito mil e quinhentos corpos estendidos pelo chão.",