Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 25 Flávio Josefo
,
"A CIDADE DE GADARA ENTREGA-SE VOLUNTARIAMENTE A VESPASIANO, E
PLÁCIDO, MANDADO POR ELE, CONTRA OS JUDEUS DISPERSOS PELOS
CAMPOS, MATA TAMBÉM UM GRANDE NÚMERO DELES.",
"330. Vespasiano estava a par de tudo o que acabamos de narrar, por
aqueles que vinham de Jerusalém entregar-se a ele; ainda que os zelotes
guardassem cuidadosamente todas as passagens, e não perdoassem a um só
dos que lhes caíam nas mãos, alguns sempre conseguiam escapar. Esses
desertores pediram a Vespasiano que tivesse pena deles e da sua cidade, tão
aflita, e que salvasse as relíquias de seu povo do qual, uma parte, já tinha sido
degolada por causa do seu afeto pelos romanos, e os que estavam ainda com
vida corriam o mesmo risco. O grande general, comovido pela desgraça que os
atormentava, resolveu aproximar-se de Jerusalém, aparentemente para sitiá-la,
mas na realidade para libertá-la da opressão daqueles malvados, que podemos
dizer, conservavam-na sitiada permanentemente. Seu intento era também
apoderar-se de todas as praças dos arredores, a fim de que, quando ele
quisesse verdadeiramente executar o grande cerco, nada restasse no exterior,
que lhe pudesse mover obstáculos.
331. Como os principais e os mais ricos dos habitantes de Gadara, que é
a mais poderosa e a mais forte de todas as cidades de além do Jordão,
desejavam a paz e queriam conservar seus bens, mandaram secretamente
alguns representantes a Vespasiano, para lhe oferecer a posse da cidade; disso
os facciosos só vieram a saber quando os viram aproximar-se da cidade. Não
tiveram dificuldade em julgar que como os habitantes que os favoreciam
superavam-nos em número, eles não podiam conservar a praça contra tantos
inimigos que tinham ao mesmo tempo interna e externamente, e que a fuga era
o único partido que eles tinham a tomar. Mas julgaram que lhes seria
vergonhoso resolver-se a isso, sem que alguém viesse a perder a vida, daqueles
que eram a causa da sua desgraça. Assim, para satisfazer à sua vingança,
mataram a Doleso, que ocupava a primeira linha, pela nobreza do nascimento, e
que tinha sido o autor dessa delegação. Seu furor levou-os até mesmo a lhe dar
vários golpes depois de sua morte; tendo-se satisfeito com esse ato de
crueldade, de alguma maneira fugiram.
Os habitantes receberam Vespasiano com grandes aclamações e não se
contentaram em lhe fazer juramento de fidelidade, mas, para assegurá-lo ainda
mais do verdadeiro desejo que tinham de permanecer em paz, derrubaram as
muralhas, a fim de se porem em condições de não poder fazer a guerra mesmo
quando eles o quisessem. Vespasiano deu-lhes uma guarnição de cavalaria e de
infantaria para defendê-los dos ataques dos revoltosos, que haviam fugido;
mandou Plácido contra eles, com quinhentos cavaleiros e três mil soldados de
infantaria e voltou a Cesaréia, com o restante do exército.
332. Os revoltosos, vendo aquela cavalaria dirigir-se a eles, refugiaram-se
numa aldeia de nome Bethnabre, onde encontraram um grande número de
homens de defesa. Uns tomaram as armas voluntariamente para se reunirem a
eles; aos outros, eles os obrigaram; e confiando então em suas forças não
tiveram receio de atacar Plácido. Este, recuou um pouco, de propósito, quer
para deixar acalmar-se seu primeiro ardor, quer para afastá-los de sua
fortaleza; mas logo que eles se haviam retirado a um lugar mais vantajoso
cercou-os, atacou-os e os pôs em fuga. Os que pensavam escapar eram detidos
pela cavalaria, os que resistiam eram mortos pela infantaria. Perderam então
aquela ousadia, que os tornava tão afoitos; sua coragem arrefeceu, porque,
quando eles queriam atacar os romanos, encontravam-nos tão unidos e de tal
modo defendidos por suas armas, que nenhum golpe os podia atingir, nem lhes
romper as fileiras; ao passo que eles eram, ao contrário, atingidos pelos golpes
de seus dardos, nos quais alguns se espetavam como fariam animais selvagens;
outros eram mortos a golpes de espadas e outros desbaratados pela cavalaria.
Como o principal cuidado de Plácido era impedir que eles tornassem a en-
trar na aldeia, ele e os seus antecipavam-se-lhes pela velocidade de seus cava-
los, não permitindo que aqueles que dela estavam próximos lá conseguissem
entrar e os obrigavam a fazer meia volta e a tornar ao campo onde eram mortos,
exceto um pequeno número dos mais fortes e dos mais ágeis que conseguiu,
com dificuldade, entrar na aldeia. Os que guardavam as portas ficaram bem
atrapalhados, porque, de um lado, eles não se resolviam a abri-las aos seus
habitantes e fechá-las aos de Gadara; e, por outro lado, eles temiam, se os
recebessem, que eles fossem causa de sua ruína, como de fato isso quase che-
gou a acontecer, pois a cavalaria romana tendo-os impelido até lá pouco faltou
que não entrasse confusamente com eles; as portas foram fechadas, e Plácido
durante todo o restante do dia atacou tão fortemente toda a aldeia que lhe
abriu uma brecha e dela se apoderou. Mataram o baixo povo, incapaz de se
defender; os outros fugiram; a aldeia foi saqueada e em seguida incendiada; os
que escaparam levaram o terror a todo o país.
Por maior que fosse sua infelicidade eles a imaginavam ainda maior e
afirmavam que todo o exército dos romanos marchava contra eles. Tão extremo
terror fê-los abandonar tudo; fugiram para Jerico, onde esperavam ficar em
segurança, porque a cidade era forte e muito populosa. Plácido, animado pela
sorte favorável, perseguiu-os até o Jordão e aquela grande multidão de judeus,
não podendo passá-lo, porque as chuvas o haviam tornado mais fundo, foi
obrigada a travar um combate. Sentindo-se então muito fracos para sustentar o
ataque dos romanos e não sabendo para onde fugir, quinze mil foram mortos,
um número infinito atirou-se ao rio e morreu afogado; dois mil e duzentos
foram aprisionados com uma grande quantidade de camelos, bois, carneiros e
asnos.
Embora os judeus tivessem já sofrido grandes perdas, esta pareceu
sobrepujar a todas as demais, porque não somente todo o caminho que eles
tinham feito em sua fuga e o lugar onde se tinha dado o combate estavam
juncados de cadáveres, mas também porque o Jordão estava tão cheio que não
podia ser atravessado; e uma parte desses corpos foi levada pelo rio e por
outros rios, ao lago Asfaltite.
333. Plácido, para levar além a sua fortuna, marchou contra as pequenas
praças vizinhas, tomou Abila, Julíada, Bezemote, e todas as outras até o lago
Asfaltite; lá deixou como guarnição os judeus que se tinham entregue aos ro-
manos, nos quais pensou poder confiar mais; embarcou, em seguida, seus ho-
mens no lago, onde derrotou todos os que lá iam buscar sua salvação; e, assim,
todo o país que está além do Jordão, até Macherom, foi reduzido ao domínio
dos romanos.",