Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 14 Flávio Josefo
,
"LUTA ENTRE O POVO E OS ZELOTES, QUE SÃO OBRIGADOS A ABANDONAR O
PRIMEIRO RECINTO DO TEMPLO E A SE RETIRAR PARA O INTERIOR DO
MESMO, ONDE ANANO OS CERCA.",
"308. Anano, vendo o povo tão bem disposto, escolheu os que julgou mais
aptos para tal empresa e os organizou. Os zelotes, que tinham espiões, foram
avisados de sua intenção; atacaram-nos com pequenas tropas e confusamente,
e não perdoaram a um só dos que puderam apanhar. Anano, então, reuniu o
povo. Eram mais numerosos que os inimigos, mas os zelotes estavam muito
bem armados; a coragem supria de ambos os lados ao que faltava. Os
habitantes, vendo-se com armas na mão, reduplicaram sua animosidade contra
aqueles ímpios; os zelotes, sua ousadia. Os primeiros estavam persuadidos de
que sua segurança dependia do extermínio daqueles malvados e estes sabiam
muito bem que não havia recurso para eles, entre a vitória e o suplício. Com
essa disposição iniciaram a luta. Os zelotes tinham a vantagem de estar
acostumados a obedecer aos seus chefes.
309. O primeiro combate travou-se perto do Templo, a pedradas; os que
fugiam eram mortos a golpes de espadas, pelos inimigos. Assim, muitos, de
ambos os lados, foram mortos na luta; os feridos, do lado dos habitantes, eram
levados para suas casas, os zelotes levavam os seus para o Templo, sem temer
violar a santidade de nossa religião, manchando-o de sangue. Mas os zelotes
tinham sempre vantagem.
O povo, cujo número crescia, não podendo mais tolerá-lo, irritou-se
contra os que demonstraram pouca coragem, e em vez de lhes dar passagem,
para fugir, obrigava-os a voltar ao combate; todos marchavam em seguida,
unidos; os zelotes não lhes puderam resistir, e fugiram. Anano perseguiu-os
com entusiasmo e os obrigou a abandonarem o primeiro recinto que ocupavam,
para se retirar no interior e fechar as portas do Templo. O respeito de Anano
por aquelas portas santas, fez que não ousasse arrombá-las. Embora os zelotes
lançassem dardos, do alto, ele não julgou, em consciência, poder, quando
mesmo os tivesse vencido, permitir que o povo entrasse no Templo, antes de ser
purificado. Contentou-se em escolher naquele grande número, seis mil dos
mais bem armados, para pô-los de guarda junto dos pórticos e determinou que
seriam sucessivamente substituídos por outros seis mil. Os mais ilustres, disso
não estavam isentos; mas quando chegava sua vez de entrar de guarda,
tomavam entre o povo outras pessoas, às quais pagavam para ir em seu lugar.",