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Livro 4 Flávio Josefo

Capítulo 20 Flávio Josefo

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,
"OS IDUMEUS, TENDO SIDO INFORMADOS DA MALDADE DOS ZELOTES E TENDO
HORROR DAS SUAS INCRÍVEIS CRUELDADES, RETIRAM-SE PARA O SEU PAÍS;
OS ZELOTES DUPLICAM AINDA SUA CRUELDADE.",
"322. Os idumeus, não podendo aprovar tantos excessos horríveis,
começaram a se arrepender de ter vindo. Um dos zelotes advertiu-os
secretamente de tudo o que acontecia. Disse-lhes que era verdade que eles
tinham tomado as armas porque lhes haviam feito crer que os habitantes
queriam entregar a cidade aos romanos; mas que não se havia encontrado a
menor prova dessa pretensa traição e que aqueles que queriam passar por
defensores da liberdade, tendo ateado o fogo da guerra civil, exerciam tal
tirania, que seria para se desejar que eles tivessem sido contidos desde o
começo. Mas, como se haviam entregue com eles a tais crimes, seria pelo menos
necessário procurar um fim a tantos males e não fortalecer àqueles que tinham
determinado subverter todas as leis de seus antepassados; que a morte de
Anano e a de um tão grande número de homens do povo, executados numa
única noite, os havia vingado plenamente, porque eles tinham sido sitiados no
Templo; que vários, mesmo dentre eles, vendo a que horríveis excessos se
entregavam aqueles que os haviam impelido à guerra e que não tinham mesmo
vergonha de cometê-los mesmo na presença dos idumeus, seus libertadores,
arrependiam-se de os ter seguido e censuravam os idumeus por tolerá-los, em
vez de os abandonar; e assim, pois que constava que aquele pretensa
combinação com os romanos era mera suposição, não havia presentemente
nada que temer de sua parte e Jerusalém era inexpugnável, a não ser que fosse
dividida por dissensões domésticas, eles nada melhor podiam fazer do que
regressar, para mostrar a todos, separando-se daqueles malvados, que eles não
queriam tomar parte em seus crimes, e que se não os tivessem enganado, eles
não teriam vindo em seu auxílio. As palavras e as razões desse zelote
persuadiram os idumeus e eles resolveram regressar, começando por dar
liberdade a dois mil habitantes que se uniram a Simão, do que falaremos em
seguida.
323. Tão inesperada partida, que surpreendeu igualmente os zelotes e os
habitantes, causou o mesmo efeito em seu espírito, embora seus sentimentos
fossem contrários. Uns e outros alegraram-se: os habitantes, porque não
conheciam o arrependimento dos idumeus por terem vindo; o afastamento
deles, que sempre eram considerados como inimigos, dava-lhes um pouco de
coragem; e os zelotes, que julgavam não ter mais necessidade do socorro dos
idumeus, consideravam-se livres da obrigação de agir por causa deles, com
certa precaução e numa tal liberdade de cometer de ali por diante com
desenfreada liberdade, todos os crimes que sua raiva lhes inspirava. Assim não
conservaram mais medida alguma; não tomaram mais nenhuma deliberação
em seus conselhos, suas mãos seguiam no mesmo instante o movimento de seu
espírito e por mais detestável que fosse uma resolução, apenas era imaginada,
logo em seguida, sem mais, também executada.
324. Como as pessoas mais generosas e da mais ilustre nobreza eram o
principal objeto de seu ódio, começaram por eles a encher a cidade novamente
de sangue e crimes, porque sua virtude lhes causava temor e eles não podiam
ver sem inveja o brilho de sua ilustre origem, nem se julgar em segurança,
enquanto alguns deles vivessem. Assim, procuraram matar, além de outros,
Goriom, cujos méritos o tornavam tão ilustre como sua descendência e que não
cedia a nenhum outro dos judeus, naquela nobre ousadia que lhe inspirava o
amor da liberdade pública, o que eles consideravam o maior de todos os crimes.
Niger Peraita, que se havia distinguido por tantos feitos de valor na guerra
contra os romanos, experimentou também os efeitos da raiva desses homens
furiosos. Embora lhes mostrasse as feridas recebidas na defesa de sua pátria
comum e lhes falasse de suas benemerências e dos serviços prestados, não
deixaram de arrastá-lo vergonhosamente pela cidade. Quando depois de o
terem levado para fora das portas, ele viu que não lhe restava mais nenhuma
esperança de salvação, rogou-lhes que lhe prometessem pelo menos enterrá-lo.
Mas até isso eles recusaram. Então, antes de morrer sob seus golpes, fez
imprecações contra eles, almejando que os romanos fossem os vingadores do
seu sangue e que a carestia, a guerra, a peste e uma divisão mortal enchesse a
medida dos castigos que merecia a enormidade de seus crimes.
A justiça de Deus não tardou mesmo, para fustigar àqueles ímpios sob
todos os flagelos e para seu castigo, em lhes mandar estranha divisão, que pôs
em seu meio. Depois da morte de Niger, aqueles malvados julgaram nada mais
ter a temer e não houve crueldade que eles não exercessem contra o povo; não
perdoavam a ninguém; consideravam crime capital ter outrora resistido a eles;
imaginavam-no, em todos os que permaneciam indiferentes; tratavam como
gloriosos os que não lhes vinham fazer a corte e como espiões os que a faziam, e
a morte era o castigo geral com que puniam, sem distinção, tudo o que lhes
aprazia fazer passar por crimes horríveis e irremissíveis. Assim, ninguém
escapava à sua crueldade, a não ser os que eram de tão desprezível condição,
que eles não julgavam dignos de sua ira.",