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Livro 4 Flávio Josefo

Capítulo 13 Flávio Josefo

123456789101112131415161718192021222324252627282930313233343536373839404142
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"PALAVRAS DO SUMO SACERDOTE ANANO AO POVO, QUE O ANIMAM DE TAL MODO QUE ELE
SE RESOLVE A TOMAR AS ARMAS CONTRA OS ZELOTES.",
"306. Por mais irritada, porém, que estivesse a multidão contra homens
tão detestáveis não se resolvia a atacá-los, porque os julgava muito fortes, e
temia não poder fazê-lo com resultado. Então o sumo sacerdote Anano, fitando
o Templo, com os olhos marejados de lágrimas, assim lhes falou: Não devia eu
morrer, antes que ver a casa de Deus manchada, com tanta abominação e
celerados calcarem aos pés os santos lugares, que deveriam ser inacessíveis
mesmo aos homens de bem? Entretanto, eu o vejo, embora revestido dos hábi-
tos sacerdotais, embora tenha escrito sobre minha fronte esse nome tão santo e
tão augusto que não é permitido proferir e embora nada me possa ser mais
glorioso na minha idade do que morrer de dor. Mas, pois que o amor da vida me
conserva ainda neste mundo, pelo menos, irei terminar meus dias nalguma
solidão, onde desabafar-me-ei na presença de Deus. Como permanecer por
mais tempo no meio de um povo insensível aos males que o oprimem e aos
quais não há ninguém que se oponha? Sois assaltados e o tolerais. Atiram-vos
ofensas e vos calais. Derrama-se na vossa presença o sangue de vossos
parentes e de vossos amigos e não ousais demonstrar nem pelo menos com um
suspiro, que vosso coração está confrangido. Houve jamais tão cruel tirania?
Mas por que me queixar daqueles que a praticam, mais do que de vós, pois eles
a usurparam porque tivestes pouca coragem, dispondo-vos a suportá-la? Quem
impedia de exterminar esses celerados quando eles eram ainda poucos? Não foi
devido à vossa covardia que eles aumentaram tanto seu número? Em vez de
tomar as armas para exterminá-los, vós as voltastes contra vós mesmos; em vez
de reprimir, por primeiro, sua insolência e vingar vossos parentes de suas ofen-
sas, vós permitistes que eles saqueassem impunemente as casas e os
animastes em suas roubalheiras. Vendo que nenhum de vós se dispunha a lhes
fazer frente, sua ousadia chegou a levar presos por cadeias, através da cidade e
a encerrar numa prisão homens ilustres que não haviam sido condenados e
nem mesmo acusados; e vós também o tolerastes. Não faltava a esses celerados
para satisfazer à sua cólera que lhes tirar a vida, depois de lhes terem tirado os
bens e a liberdade; foi o que os vimos fazer. Eles mataram diante de nossos
olhos, como se sacrificam vítimas, pessoas muito ilustres por sua dignidade e
virtude, sem que não somente não tomásseis armas para sua defesa, mas nem
pelo menos abrísseis a boca para clamar contra crimes tão detestáveis. Estais
pois resolvidos a ficar sempre em tão vergonhosa apatia? Vendo, como vedes,
profanar as coisas sagradas, conservareis respeito para com esses inimigos
declarados do que merece mais que tudo ser reverenciado, por esses demônios
em carne, a quem nada impede cometer crimes ainda maiores, do que aqueles
que, no auge da impiedade eles não poderiam cometer? Ocupando o Templo,
eles ocuparam o lugar mais forte da cidade e ao qual o sagrado nome que tem,
não impede de ser uma verdadeira fortaleza. Tendo assim escolhido esse lugar
sagrado, para lá estabelecer a sede de sua tirânica dominação e tendo-vos o pé
sobre a garganta, dizei-me, eu vos peço, quais os vossos pensamentos e as
vossas intenções. Esperais que os romanos venham em vosso auxílio, para res-
tituir à santidade desse Templo seu primitivo esplendor e seu antigo brilho; por
que chegamos a tal excesso de infelicidade que mesmo nossos inimigos não
poderiam não sentir compaixão de nossas misérias? Não despertareis então de
tal sonolência e sereis mais insensíveis que os mesmos animais, que olhando
para suas chagas e feridas exasperam-se contra os que os feriram? Parece que
esse amor da liberdade, que é o mais forte e o mais natural de todos os afetos,
está apagado em vosso coração e o da escravidão tomou-lhe o lugar, como se
nossos antepassados nos tivessem dado, com a vida, o desejo de sermos escra-
vos, quando eles sustentaram tantas guerras contra os egípcios e os medas
para se conservarem livres. Mas por que citar a esse respeito o exemplo de
nossos antepassados? Que outra causa, que manter nossa liberdade nos fez
participantes dessa feliz ou infeliz guerra que empreendemos agora contra os
romanos? Oh! Não podemos tolerar ter como senhores os dominadores do
mundo nem suportar como tiranos, os da nossa própria nação. Quando se está
sujeito a estrangeiros, tem-se pelo menos a consolação de atribuí-lo à injustiça
da sorte, mas toca somente aos fracos e aos amantes da servidão obedecer
voluntariamente aos piores de todos aqueles que têm o nascimento de comum
com eles. A este respeito eu não poderia dissimular o que me vem ao pensa-
mento, falando-vos dos romanos, os quais quando mesmo nos tivessem ataca-
do, não nos poderiam tratar mais cruelmente do que esses sacrílegos nos tra-
tam. Poder-se-ia contemplar com os olhos enxutos os judeus despojarem o
Templo dos dons que os romanos mesmos ofereceram, mancharem suas mãos
no sangue daqueles que eles teriam poupado depois da vitória e desfigurar toda
a beleza dessa rainha de nossas cidades, que outrora vimos tão homenageada e
florescente? Esses soberbos conquistadores jamais ousaram pôr os pés
naqueles lugares, cuja entrada é proibida aos profanos. Eles honraram nossos
santos costumes e só contemplaram de longe, com respeito, essa casa santa. E
homens nascidos entre nós, instruídos nos nossos costumes e que têm o nome
de judeus, com as mãos ainda tintas de sangue de seus concidadãos, têm a
ousadia de entrar nesses lugares, cuja santidade devê-los-ia fazer tremer. Tem
a guerra estrangeira alguma coisa de comparável com essa guerra doméstica?
De quanto o mal que recebemos dos nossos sobrepuja o que nos fazem nossos
inimigos? Falando segundo a verdade, não podemos dizer que os romanos
foram os protetores de nossas leis, ao passo que esses ímpios, educados em
nosso meio, lhes são os violadores? Há muitos grandes suplícios para castigar
tão grandes crimes, como os desses novos tiranos; o sentimento dos vossos
males não vos deve levar, sem que eu vos exorte a isso, a castigá-los como
merecem? Eu sei que muitos os temem por causa do seu grande número, de
sua ousadia e da defesa e respeito do lugar que eles ocupam. Mas como eles
devem somente à vossa covardia todas essas vantagens, eles a aumentarão
ainda se vos demorardes para tomar uma generosa resolução. Seu número
crescerá cada dia mais, porque os maus procuram os maus; sua ousadia cres-
cerá também, porque nada encontrarão que a ela faça frente; fortificarão ainda
mais esse lugar santo, se lhes dermos oportunidade para isso. Porém, se
marcharmos corajosamente contra eles, as recriminações de sua consciência os
encherão de espanto; em vez de tirar vantagem da posição desse lugar santo,
que está sobre todos os outros, a imagem de tão grande crime, como o de se
terem apoderado dele por meio de um sacrilégio, apresentar-se-á aos seus olhos
e lançará o terror em seu espírito. Por que não esperarmos que Deus, para
exercer sua justa vingança contra esses ímpios, não fará voltarem-se contra
eles os dardos que eles nos atiram para que assim morram por suas mesmas
mãos? Somente a nossa presença fá-los-á perder a coragem. Mas, mesmo que
nos devesse custar a vida e nós não pudéssemos salvar nem nossas esposas e
filhos, não seríamos nós ainda mui felizes de morrer pela glória de Deus e pela
honra dos lugares consagrados ao seu serviço, expirando às portas do seu
santo Templo? Não vos faltaram bons conselhos, nem vo-los faltarão, para
agirdes com prudência nessa empresa; e não é somente com palavras, mas
expondo-me aos maiores perigos que eu pretendo animar-vos a isso, com meu
exemplo.
307. Por maiores e fortes que fossem estas razões para induzir o povo a
tomar as armas, Anano, entretanto, não esperava ter bom resultado em
empresa tão difícil, quer por causa do grande número de zelotes, quer pela sua
força, pela sua pertinácia, e porque eles não esperavam, se fossem vencidos,
obter o perdão de tantos crimes. No entanto, as ele julgava que nada havia que
não devessem antes tentar, do que abandonar a república em tão grave perigo.
O povo ficou tão impressionado com suas palavras, que pediu com grandes
gritos que o levasse contra aqueles traidores, pois não havia perigo que todos
eles não estivessem dispostos a correr, por uma causa tão justa.",