Livro 4 Flávio Josefo
Capítulo 34 Flávio Josefo
,
"SIMÃO VOLTA SEU FUROR CONTRA OS IDUMEUS E PERSEGUE ATÉ À PORTAS DE
JERUSALÉM OS QUE FUGIAM. CRUELDADE HORRÍVEL E ABOMINAÇÃO DOS
GALILEUS QUE ESTAVAM COM JOÃO DE GISCALA. OS IDUMEUS, QUE
HAVIAM ABRAÇADO O SEU PARTIDO, INSURGEM-SE CONTRA ELE, SAQUEIAM
O PALÁCIO QUE ELE TINHA OCUPADO E OBRIGAM-NO A SE ENCERRAR NO
TEMPLO. ESSES IDUMEUS E O POVO CHAMAM SIMÃO EM SEU AUXÍLIO
CONTRA ELE E O SITIAM.",
"353. Depois que Simão reconquistou sua mulher voltou seu furor contra
o que restava de idumeus. Perseguiu-os de tal modo, que estando reduzidos ao
desespero, vários fugiram para Jerusalém. Ele os perseguiu até às muralhas e
lá matou os que voltavam do campo, quando pretendiam entrar na cidade.
Assim, Simão era, no exterior, mais temível aos habitantes do que os romanos,
e os zelotes eram-no, no interior, muito mais que os romanos e Simão.
354. Por mais horrível que fosse sua desumanidade e seu furor, os
galileus as aumentavam ainda mais e João inspirava-lhes novos meios de a
praticar, pois nada havia que ele não lhes permitisse, como gratidão pelo favor
que lhe haviam feito, tendo-o elevado a tão grande poder. Tudo o que se
encontrava de mais precioso nas casas dos ricos não era suficiente para
contentar à sua insaciável ambição. Matar os homens e ultrajar as mulheres
era para eles um divertimento e um gracejo. Eles borrifavam suas presas com
sangue e encontravam prazer na multiplicação dos crimes. Depois de se terem
abandonado aos que são praticados pelos maus, eles se aborreciam com os
mesmos, como muito ordinários e comuns; para satisfazer à sua abominável
brutalidade, não tinham vergonha de procurar outros, que causavam horror à
mesma natureza. Vestiam-se de mulheres, penteavam os cabelos, adornavam-
se como elas e não as imitavam somente em suas vestes e adereços, mas até na
impudência mais desavergonhada, superavam-nas ainda com ações de uma
impudicícia abominável. Assim encheram Jerusalém de crimes execráveis, de
tal modo que aquela grande cidade parecia um lugar público de prostituição, a
mais detestável e a mais horrível de todas as infâmias. Mas ainda que esses
monstros de impudicícia, de crueldade e de ambição tivessem rosto tão
efeminado, suas mãos não estavam menos prontas a cometer assassínios. Ao
mesmo tempo que andavam devagar e afetadamente eram vistos puxar de suas
espadas de sob as vestes de diversas cores e assassinar os que encontravam.
Os que podiam escapar das mãos de João, caíam nas de Simão e achavam que
ele ainda os superava em crueldade; depois de ter evitado o furor desse tirano
doméstico, o outro que cercava a cidade fazia-os também perder a vida ,e os
que desejavam fugir para os romanos não podiam fazê-lo.
355. Entretanto, os idumeus que tinham abraçado o partido de João,
invejando seu poder e não podendo tolerar sua crueldade, insurgiram-se contra
ele. Travou-se um combate, mataram a muitos dos dele, impeliram-no até
quase o palácio, construído por Grapta, primo de Izate, rei dos adiabenianos,
que João havia escolhido para sua residência e onde ele guardava todo seu
dinheiro, como produto dos roubos e saques, que eram efeito de sua tirania;
entraram lá com ele e o obrigaram a se retirar ao Templo; voltaram depois para
saquear o palácio. Os zelotes então que estavam dispersos pela cidade, foram
juntar-se aos que estavam no Templo e João preparava-se para dar um ataque
ao povo e aos idumeus. Não era isso que eles temiam, porque os superavam de
muito em número; seu único temor era que ele atacasse de noite e incendiasse
a cidade. Reuniram-se para esse fim com os sacerdotes para deliberar o que
deveriam fazer. Mas Deus confundiu seus desígnios, pois eles recorreram a um
remédio muito mais perigoso que o mesmo mal. Resolveram receber Simão para
opô-lo a João; mandaram Matias, sacerdote, rogar-lhe que entrasse na cidade e
fizeram assim seu tirano àquele mesmo ao qual tanto tinham temido. Os que
haviam fugido da cidade para evitar o furor dos zelotes uniram suas súplicas às
de Matias, pelo desejo que tinham de voltar às suas casas e ao gozo de seus
bens. Simão respondeu altivamente, e como senhor, que aceitava o seu pedido,
entrou na cidade na qualidade de libertador e o povo recebeu-o com grandes
aclamações; isto aconteceu no terceiro mês a que chamamos de Xantico.
Vendo-se assim em Jerusalém, ele só pensou em consolidar a sua autoridade e
não considerava menos como inimigos os que o haviam chamado, do que
aqueles contra os quais eles haviam recorrido ao seu auxílio.
356. João, ao contrário, perdia as esperanças de salvação, porque se via
encerrado no Templo e Simão tinha acabado de saquear tudo o que restava na
cidade. Este, confortado com o auxílio do povo, atacou o Templo; mas os siti-
ados, que se defendiam de cima dos pórticos e de outros lugares que haviam
fortificado, repeliram-no, mataram e feriram a muitos dos dele, porque tinham
a vantagem de combater de um lugar mais elevado e particularmente de quatro
grandes torres que tinham construído; a primeira entre o oriente e o norte; a
segunda na galeria; a terceira no ângulo oposto à cidade baixa e a quarta no
vértice de uma espécie de tabemaculo, chamado Pastoforio, onde segundo o
costume de nossos antepassados um dos sacerdotes de pé, diante do sol posto,
dizia, a som de trombeta, que o dia do sábado começava e na tarde seguinte
terminava, e também declarava ao povo os dias que ele devia festejar e os em
que devia trabalhar. Os sitiados tinham guarnecido essas torres com máquinas,
arqueiros e fundibulários; tão grande resistência enfraqueceu o ardor dos que
sitiavam. Mas Simão, confiando no grande número dos seus, não deixava de
fazer seus homens avançarem, embora as máquinas dos sitiados lançassem
dardos que matavam e feriam a muitos deles.",