🏠 Home ← Anterior Próximo →

Livro 4 Flávio Josefo

Capítulo 5 Flávio Josefo

123456789101112131415161718192021222324252627282930313233343536373839404142
,
"PALAVRAS DE VESPASIANO AO SEU EXÉRCITO, PARA CONSOLÁ-LO DO MAU
ÊXITO QUE TIVERA.",
"291. Como os romanos jamais haviam tido tão mau êxito, Vespasiano,
vendo os seus muito abatidos pela dor de tal perda e mais ainda pela vergonha
de tê-lo abandonado em tão grande perigo, tudo fez para consolá-los; não quis
falar de si mesmo para não parecer que lhes fazia censuras. Contentou-se em
dizer-lhes que era necessário suportar generosamente as adversidades comuns
a todos os homens; que jamais se conquistam vitórias sem derramamento de
sangue; que a sorte deixaria de se sorte, se fosse constante; e como ela se
compraz com as mudanças, não deveriam achar estranho que lhes tivesse feito
sentir por aquela pequena perda, a gratidão que lhe deviam por tê-los feito
obter tantas vantagens sobre os judeus e que não há menos covardia em se
deixar abater pelos maus resultados do que insolência em se gabar dos
favoráveis. Considerai, pois, acrescentou ele, que podemos passar em um
momento de uns aos outros, que são verdadeiramente valentes aqueles cuja
alma permanece inalterável na felicidade e na desgraça e que sabem se
aproveitar das adversidades. O que nos aconteceu não deve ser atribuído nem à
falta de coragem de nossa parte, nem ao valor dos judeus. A natureza combateu
por eles contra nós; é unicamente a ela que eles devem não termos nós sido os
vencedores, depois de os termos vencido. Se tivéssemos que vos censurar seria
somente por esse excesso de coragem que vos fez perseguir os inimigos até a
parte mais alta da cidade, que lhes dava vantagem sobre vós, quando vos
devíeis contentar de vos terdes tornado senhores da cidade baixa e de obrigá-
los em seguida a travar um combate que a dificuldade de tal posição não teria
tornado tão desigual. Mas devemos reparar com um procedimento bem sensato
a falta que um excessivo ardor vos fez cometer. Essa impetuosidade
inconsiderada é indigna dos romanos, que nada devem fazer imprudentemente;
ela é própria dos bárbaros e devemos deixá-la para os judeus. Retomemos pois
nossa maneira ordinária de agir. Que esse mau êxito em vez de nos assustar,
nos incite pelo desprazer de lhe termos dado motivo e que cada qual procure na
sua coragem e na sua espada consolar-se pela perda de seus amigos, matando
os que lhes tiraram a vida. Dar-vos-ei o exemplo, continuando a me expor por
primeiro ao perigo e a dele retirar-me por último.
292. Estas palavras de tão grande general restituíram a alegria a todo o
exército. Os sitiados, por seu lado, sentiram também muito prazer, primeiro,
pela vantagem que tinham obtido contra toda espécie de probabilidade; prazer
que depressa cessou, porque eles não podiam mais esperar, nem entrar num
acordo, nem escapar e começavam também a lhes faltarem os alimentos. Assim
começaram a perder a coragem; mas não deixaram, nesse desânimo, de
trabalhar com todas as suas forças, para se defenderem. Os mais valentes
tomaram a guarda da brecha, os outros, a das muralhas que estavam intactas.
Os romanos reconstruíram suas plataformas para um novo ataque. Vários
habitantes fugiram para os vales mais bem defendidos, onde não se punham
guardas; outros, para os esgotos, onde aqueles que não ousavam sair com
medo de serem aprisionados, morriam de fome. Reunia-se tudo o que havia de
alimentos para os que ainda estavam em condições de combater e para aqueles
aos quais o extremo a que estavam reduzidos não fazia perder a coragem.",