O mesmo imperador realizou uma façanha extraordinária e divina, a saber, a abolição completa do imposto chamado crisárgiro: transação que agora devo detalhar, embora a tarefa exija a eloquência de Tucídides, ou algo ainda mais sublime e elegante. Descrevê-la-ei, contudo, eu mesmo, não confiando no poder da linguagem, mas sim encorajado pela própria natureza da ação.
Foi imposto à república romana, tão singular em sua magnitude e duração, um imposto vil e odioso a Deus, indigno até mesmo dos bárbaros, quanto mais do império cristão dos romanos: o qual, tendo sido ignorado, por qual motivo não sei dizer, até a época de Anastácio, este o aboliu com a maior pompa. Era imposto tanto a muitas outras classes de pessoas que obtinham seu sustento acumulando pequenos ganhos, quanto às mulheres que vendiam seus encantos e se entregavam à fornicação promíscua em bordéis nas partes obscuras da cidade; e, além disso, àquelas que se dedicavam a uma prostituição que ultrajava não só a natureza, mas também o bem comum: de modo que esse modo de arrecadação proclamava, tão claramente quanto um decreto direto, que todos que assim o desejassem poderiam praticar tal perversidade impunemente. A receita ímpia e maldita arrecadada dessa fonte era paga pelos cobradores ao final de cada cinco anos, diretamente ao primeiro e mais digno dos prefeitos: de modo que constituía uma parte nada insignificante das funções desse cargo, e possuía seu próprio tesouro e contadores, homens que consideravam o assunto um serviço militar, adequado, como os demais, a pessoas de certa distinção.
Anastácio, ao ser informado da circunstância, levou o assunto ao Senado e, declarando-o justamente como uma abominação e uma impureza sem paralelo, decretou que fosse totalmente abolido; e lançou ao fogo os documentos que serviam de comprovante para sua arrecadação. Com o desejo também de fazer desta medida um sacrifício completo a Deus e de impedir que qualquer um de seus sucessores revivesse a antiga vergonha, ele finge estar irritado e se acusa de falta de consideração e excessiva insensatez, dizendo que, na busca demasiadamente por novidades, negligenciara os interesses da república e abolira precipitadamente e irrefletidamente uma receita tão importante, que havia sido estabelecida em tempos anteriores e confirmada por uma continuidade tão longa, sem avaliar devidamente os perigos iminentes, nem as despesas necessárias para a manutenção do exército, aquele baluarte vivo do império, nem para o serviço de Deus. Assim, sem revelar seus pensamentos secretos, proclamou seu desejo de restaurar a receita mencionada anteriormente; e, tendo convocado aqueles que haviam sido responsáveis pela arrecadação, disse-lhes que se arrependia da medida, mas não sabia que caminho seguir, nem como retificar seu erro, agora que os documentos que poderiam servir de comprovante para os detalhes de sua cobrança haviam sido queimados. E enquanto eles, por sua vez, lamentavam a abolição da arrecadação, não apenas na aparência, mas na realidade, por causa do ganho injusto que haviam obtido com ela, e professavam a mesma perplexidade que o imperador, ele os instou e exortou a empregar todos os meios de busca, na tentativa de obter, dentre os documentos preservados em vários lugares, uma declaração de toda a arrecadação. Fornecendo dinheiro a cada indivíduo, enviou-o para coletar materiais, ordenando-lhe que trouxesse todo documento que esclarecesse o assunto, onde quer que fosse encontrado; que, por meio da máxima circunspecção e atenção minuciosa, um relatório dos negócios pudesse ser novamente elaborado. Consequentemente, com o retorno daqueles que estavam envolvidos na execução dessas ordens, Anastácio exibiu uma aparência satisfeita e alegre, e na realidade estava Alegrou-se por ter alcançado o objetivo que buscava. Fez também indagações específicas sobre como os documentos foram descobertos, em posse de quem estavam e se ainda existia algo semelhante. Ao confirmarem que haviam se esforçado muito na coleta e jurarem pelo próprio imperador que nenhum outro documento que pudesse servir de comprovante havia sido preservado em todo o império, Anastácio ateou fogo novamente a uma grande pilha com os papéis assim reunidos e encharcou as cinzas com água, com a intenção de remover todo vestígio daquela coleta, de modo que não restasse nem pó, nem cinzas, nem qualquer resquício da operação, devido à combustão incompleta.
Para que, ao exaltarmos a abolição desse imposto, não pareçamos ignorar o quanto já foi escrito sobre o assunto por autores anteriores sob forte emoção, permitam-me apresentar esses fatos e demonstrar sua falsidade, especialmente a partir de suas próprias afirmações.