Livro 3 - Capítulo 17 - Evágrio Escolástico, História Eclesiástica

CARTA DE PEDRO A ACÁCIO.

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Este Pedro nunca se manteve fiel a uma única opinião, sendo um hipócrita, um vacilante e um oportunista, ora condenando o sínodo de Calcedônia, ora retratando-se e admitindo-o com total concordância. Assim, o mesmo Pedro escreveu uma epístola a Acácio, presidente de Constantinopla, com as seguintes palavras: "O Deus Altíssimo recompensará a vossa santidade pelos muitos trabalhos e labutas com que, ao longo do tempo, guardastes a forma de fé dos santos padres, a qual confirmastes proclamando-a incessantemente; forma essa que, quando encontramos o símbolo dos trezentos e dezoito santos padres a ser abraçado, estávamos dispostos a concordar com ele; aquele símbolo em que cremos no batismo e ainda cremos; o qual também os cento e cinquenta santos padres, reunidos em Constantinopla, confirmaram. Assim, enquanto aumentavas os vossos esforços para guiar a todos corretamente, unistes a santa igreja de Deus, convencendo-nos, pelas provas mais poderosas, de que nada em desacordo com isso foi decretado no santo e geral sínodo realizado em Calcedônia, mas que estava de acordo com os atos dos santos padres em Niceia e os confirmava. Assim, não tendo descoberto nenhuma novidade nisso, nós... Por nossa livre vontade, concedemos nosso assentimento e crença. Mas fomos informados de que certos monges, invejando nossa união fraterna, transmitiram certas calúnias aos seus santos ouvidos, as quais, com alguma dificuldade, conseguiram azedar os sentimentos de sua santidade. E, em primeiro lugar, alegam que removemos para outro lugar os restos mortais de nosso santo pai, o bem-aventurado arcebispo Timóteo, algo abominável à religião e à lei; e mudaram ainda mais o foco de sua acusação, incoerente e pior que a anterior; pois como poderíamos ter anatematizado o sínodo de Calcedônia? que nós havíamos confirmado anteriormente, de acordo com nossa crença? Mas o temperamento maligno e a inconstância de nosso povo são notórios e não podem deixar de ser conhecidos por sua piedade, assim como pelos monges propensos à inovação; os quais, em conluio com certas pessoas mal-intencionadas que se separaram da Igreja, estão tentando desviar o povo. Por meio de suas orações, também elaboramos um discurso de tendência diretamente curativa, e que de modo algum impugna o sínodo de Calcedônia, sabendo bem que suas atas não contêm nenhuma novidade; e, além disso, para a satisfação de pessoas ingênuas, conseguimos que aqueles que se uniram a nós afirmassem este ponto. Este mal, então, com muito esforço, prontamente refreei; mas informo a sua santidade que ainda assim os monges que continuam semeando o joio não estão em paz, associando-se também, como instrumentos, a pessoas que nunca foram habitantes de mosteiros; mas eles andam por aí espalhando vários rumores em nosso prejuízo e, enquanto não permitem que ajamos canonicamente e de maneira condizente com a santa Igreja Católica de Deus, habituando nosso povo a governar em vez de nos obedecer, estão empenhados em fazer tudo o que é impróprio para o serviço de Deus. Não duvidamos, porém, que Vossa Santidade informará o santíssimo mestre do mundo sobre todas essas circunstâncias e providenciará que uma fórmula seja apresentada por Sua Serenidade, abrangendo as questões necessárias relativas a uma paz da Igreja que seja adequada tanto a Deus quanto ao imperador; de modo a levar todos a repousar em suas disposições."

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