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Livro 5 Flávio Josefo

Capítulo 37 Flávio Josefo

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,
"SACRILÉGIOS COMETIDOS POR JOÃO NO TEMPLO.",
"431. Depois que João reduziu o Templo a esse estado, que nele nada mais
lhe restava para saquear, tendo-o despojado completamente, passou das
pilhagens ordinárias aos sacrilégios. Atreveu-se, por uma impiedade
inominável, que sobrepuja mesmo a toda credulidade, a tomar diversos dons
oferecidos a Deus no Templo, e o que era destinado para o divino serviço, como
taças, cálices, pratos, mesas, até mesmo vasos de ouro que Augusto e a
imperatriz sua esposa tinham oferecido. Os imperadores romanos sempre
tiveram veneração por esse Templo e demonstraram, por meio de presentes, o
prazer que sentiam em enriquecê-lo. Assim, viu-se um judeu arrancar daquele
lugar sagrado, por uma execrável impiedade, aqueles objetos ve-neráveis que
estrangeiros lhe haviam dado e tinha ele ainda a desfaçatez de dizer aos que
tinham entrado na sociedade de seus crimes, que podiam sem temor usar das
coisas consagradas a Deus, pois era por Deus que eles combatiam. Ousou
mesmo tomar, sem receio, e dividir com eles, o vinho e o óleo que os sacerdotes
conservavam na parte interior do Templo, para empregá-los nos sacrifícios.
Deve-se pois perdoar à minha dor, o que ouso dizer: que se os romanos
tivessem diferido em castiaar Delas armas tão grandes criminosos, creio que a
terra se teria aberto para tragar aquela miserável cidade; ou ela teria perecido
por um outro dilúvio, ou teria sido destruída pelo fogo do céu como Gomorra,
pois as abominações que ali se cometiam e que por fim causaram a ruína de
todo o povo sobrepujavam as que obrigaram Deus a lançar seus raios
vingadores sobre aquela outra detestável cidade.
Jamais poderia fazê-lo, se tivesse querido relatar em particular todos os
males que sobrevieram durante esse cerco, mas poder-se-á julgar, a esse
respeito, pelo pouco que vou dizer: Maneu, filho de Lázaro, depois de ter fugido
para junto de Tito, disse-lhe que desde o dia catorze de abril até primeiro de
julho, haviam passado cento e quinze mil oitocentos e oitenta corpos de mortos,
pela porta onde ele estava de guarda e, entretanto, apenas havia contado
aqueles, dos quais era obrigado a saber o número, por causa de uma
distribuição pública de que estava encarregado. Quanto aos outros, os parentes
tinham o cuidado de enterrá-los, isto é, de levá-los para fora da cidade, pois era
apenas isso a sepultura que se lhes dava. Outros fugitivos, que eram pessoas
da nobreza, afirmaram que o número dos pobres que tinham sido levados desse
modo para fora da cidade, não era inferior a seiscentos mil. O dos outros, era
incrível. E como por fim não se podiam transportar tantos corpos, era-se
obrigado a lançá-los em grandes casas, das quais se fechavam as portas. Um
pacote de trigo valia um talento, e depois da construção do muro que rodeava
toda a cidade, os pobres, não podendo mais sair para procurar ervas, tinham
sido reduzidos a tal extremo, que iam mesmo nos esgotos, procurar velho
estéreo de boi para comer e outras imundícies cuja vista somente causa horror.
Os romanos não puderam ouvir falar de tantas misérias sem se sentir movidos
à compaixão. Mas os revoltosos tudo viam sem se arrepender, de lhes terem
eles sido a causa, porque Deus os cegava de tal modo, que eles não viam o
precipício em que iam cair com toda aquela desgraçada cidade.",
"