Livro 5 Flávio Josefo
Capítulo 14 Flávio Josefo
,
"DESCRIÇÃO DO TEMPLO DE JERUSALÉM. ALGUNS COSTUMES LEGAIS.",
"394. Vamos agora falar do Templo. Fora construído, como eu disse, sobre
um áspero monte; e apenas o que ele tinha de plano em seu vértice foi
suficiente para a construção do Templo e da muralha que lhe estava em frente.
Mas quando o rei Salomão o construiu, mandou fazer um muro do lado do
oriente para sustentar a terra daquele lado; depois de terem enchido esse
espaço, mandou construir um dos pórticos.
Então, somente aquela face estava revestida, mas depois o povo
continuou a trazer terra para aumentar ainda esse espaço e o vértice do monte
ficou aumentado de muito. Derrubaram o muro que estava do lado do norte e
cercaram ainda outro espaço, tão grande como o que continha todo o Templo.
Por fim, esse trabalho, contra toda esperança, progrediu tanto que rodearam de
um tríplice muro todo o monte, mas para se levar à perfeição uma obra tão
prodigiosa, passaram-se séculos inteiros e nisso gastaram-se todos os tesouros
sagrados, provenientes da devoção que os povos ali vinham oferecer a Deus, de
todas as partes do mundo. Para se julgar da grandeza de tal empreendimento
basta dizer-se, que além do espaço do alto, elevou-se de trezentos côvados e
nalguns lugares, ainda mais, a parte baixa do Templo; mas a excessiva despesa
desse alicerce não se notava de modo algum, porque aqueles vales depois foram
cheios e se acharam elevados ao nível das ruas estreitas da cidade e as pedras
que ali foram empregadas tinham quarenta côvados de comprimento. Assim, o
que parecia impossível foi, por fim, executado, pelo ardor e perseverança
incríveis, com que o povo lá empregou tão liberalmente seus bens.
Se os alicerces eram maravilhosos, o que eles sustentavam não era menos
digno de admiração. Construiu-se por cima uma dupla galeria, sustentada por
colunas de mármores branco de uma só peça, de vinte e cinco côvados de
altura e cujos ornamentos de madeira de cedro eram tão belos, tão bem
justapostos e polidos, que não havia necessidade, para encantar os olhos, do
auxílio da escultura e da pintura. A largura dessas galerias era de trinta
côvados, seu comprimento de seis estádios e elas terminavam na torre Antônia.
Todo o espaço livre estava coberto de toda espécie de pedras e a estrada
por onde se ia ao segundo Templo, tinha à direita e à esquerda uma balaustra-
da de pedra de três côvados de altura, executada com grande perfeição; ali
viam-se, de espaço a espaço, colunas, sobre as quais estavam gravados em
caracteres gregos e romanos preceitos de continência e de pureza, para mostrar
aos estrangeiros que eles não deviam pretender entrar num lugar tão santo.
Esse segundo Templo também tinha o nome de santo. Para lá se passava, do
primeiro, por quatorze degraus, era de forma quadrangular e rodeado por uma
muralha cujo exterior, que tinha quarenta côvados de altura, estava todo co-
berto de degraus, mas a altura do interior era somente de vinte côvados e como
esse muro estava construído sobre um lugar elevado, ao qual se subia por
degraus, não se podia vê-lo inteiramente por dentro, porque ficava encoberto
pelo monte.
Depois de se ter subido esses quatorze degraus, havia um espaço de
trezentos côvados, todo unido que ia até o muro. Subiam-se ainda outros cinco
degraus para se chegar às portas do Templo. Havia quatro na direção do norte,
quatro na do sul e duas, na do oriente.
O oratório destinado às mulheres estava separado do restante por um
muro e havia duas portas, uma do lado do sul, e outra do lado do norte, pelas
quais somente se entrava. A entrada do oratório era permitida não só às
mulheres de nossa nação, que habitavam na Judéia, mas também às que
vinham por devoção de outras províncias, para prestar sua homenagem a Deus.
O lado que estava na direção do ocidente era cercado por um muro e não tinha
porta. Entre as portas de que falei e do lado do muro que estava dentro, perto
da tesouraria, havia galerias sustentadas por grandes colunas, que embora não
fossem ricas de orna-tos, não perdiam em beleza, para as que estavam abaixo.
Dessas dez portas de que falei, nove estavam cobertas, mesmo seus
gonzos, de lâminas de ouro e prata, e a décima, que estava fora do Templo, de
um cobre de Corinto, mais precioso que o ouro ou a prata. Essas portas eram
todas de duas folhas e cada uma tinha trinta côvados de altura e quinze de
largura.
Dentro, havia salões à direita e à esquerda, de trinta côvados quadrados e
de quarenta de altura, feitos em forma de torres e cada qual sustentado por
duas colunas, cuja espessura era de doze côvados. Quanto à fachada, à
coríntia, colocada do lado do oriente, pela qual as mulheres entravam e que
estava em frente da fachada do Templo, sobrepujava a todas as outras em
grandeza e em magnificência: tinha cinqüenta côvados de altura, suas portas
tinham quarenta e as lâminas de ouro e de prata de que estava coberta eram
mais espessas que aquelas com que Alexandre, pai de Tibério, tinha feito cobrir
as outras nove portas. Subia-se por quinze degraus, desde o muro que separava
as mulheres dos homens, até a grande fachada do Templo; era preciso subir
vinte, para se chegar às outras portas.
O Templo, lugar santo, consagrado a Deus, estava colocado no meio. Lá se
chegava por doze degraus e a altura de seu frontispício era de cem côvados,
mas havia somente sessenta, no seu comprimento e por trás, porque na frente e
na entrada estavam dois alargamentos de vinte côvados cada, que pareciam
dois braços que se abriam para estreitá-lo e para receber os que lá entravam.
Seu primeiro pórtico que era de setenta côvados de altura e de vinte e cinco de
largura não tinha portas, porque representava o céu que é visível e aberto para
todos. Toda a parte anterior desse pórtico era dourada e tudo o que se via no
Templo também o era, de sorte que os olhos mal lhe podiam suportar o brilho.
A parte interior do Templo estava dividida em duas: dessas duas, a
primeira, elevava-se até o teto; sua altura era de noventa côvados, o
comprimento, de cinqüenta e a largura de vinte. A porta do interior estava
coberta de lâminas de ouro, como já disse, e os lados do muro que a
acompanhavam eram dourados. Viam-se no alto ramos de videira do tamanho
de um homem, de onde pendiam cachos de uva; tudo isso era de ouro. A outra
parte da divisão do Templo, a mais interior, era mais baixa. Suas portas, que
eram de ouro, tinham cinqüenta côvados de altura e dezesseis de largura. Havia
na frente um tapete babilônio, do mesmo tamanho, onde o azul, a púrpura, o
escarlate e o linho estavam dispostos com tanta arte que causavam grande
admiração; representavam os quatro elementos, quer pela cor, quer pelas
coisas de onde tiram sua origem. O escarlate* representava o fogo; o linho, a
terra, que o produz; o azul, o ar, e a púrpura, o mar, de onde ela procede. Toda
a ordem do céu estava também representada nesse soberbo tapete, com
exceção dos sinais.
* O jacinto e o azul são a mesma coisa.
395. Por ali se entrava na porta inferior do Templo, que tinha sessenta
côvados de comprimento, outro tanto de altura e vinte de largura. Esse
comprimento de sessenta côvados estava dividido em duas partes desiguais; a
primeira tinha quarenta côvados e ali viam-se três coisas tão perfeitas que
ninguém se cansava de contemplá-las: o candelabro, a mesa e o altar do
incenso.
A outra parte do Templo, mais interior, tinha vinte côvados. Estava
separada da outra também por um véu e nela nada havia. Sua entrada não
somente era proibida a todos, mas nem mesmo era permitido vê-la. Era
chamada de Santíssimo ou o Santo dos Santos. Lá havia, em redor, vários
edifícios de três andares e se podia passar de uns a outros pelos cantos da
grande fachada. Como a parte superior era mais estreita, não tinha
semelhantes edifícios. Não era do mesmo modo, tão magnífica, mas era mais
elevada que a outra, de quarenta côvados; assim toda sua altura era de cem
côvados; seu plano só tinha sessenta.
Nada havia na face exterior do Templo, que não arrebatasse os olhos de
admiração e não enchesse a alma de espanto. Estava todo recoberto de lâminas
de ouro, tão espessas, que quando despontava o dia, ficava-se tão arrebatado
pela sua beleza como pelos dourados raios do sol. Quanto aos outros lados,
onde não havia ouro, as pedras eram tão brancas, que aquela soberba massa
parecia, de longe, aos estrangeiros que ainda não as tinham visto, um monte
coberto de neve.
Todo o telhado do Templo estava semeado e eriçado de pontas de ouro,
para evitar que as aves lá pousassem e o sujassem. Uma parte das pedras de
que era construído tinha quarenta e cinco côvados de comprimento, cinco de
altura e seis de largura.
O altar que estava diante do Templo tinha cinqüenta côvados quadrados e
a altura era de quinze côvados. Era bastante difícil de lá se subir, do lado do
sul, e havia sido construído sem receber um só golpe de martelo.
Uma balaustrada de uma pedra belíssima e de um côvado de altura
rodeava o Templo e o altar, e separava o povo dos sacerdotes.
Os leprosos e os que estavam atacados de gonorréia, não somente eram
excluídos da entrada do Templo, mas também da cidade.
As mulheres não ousavam aproximar-se do Templo durante o tempo do
incômodo que lhes é comum; e mesmo quando disso estivessem isentas, não
lhes era permitido passar mais adiante, ao lugar de que falamos.
Aos homens era proibido e mesmo aos sacerdotes entrar na parte interior
do Templo se não se tivessem purificado.",