Livro 5 Flávio Josefo
Capítulo 12 Flávio Josefo
,
"TITOFAZ APLAINAR O ESPAÇO QUE IA ATÉ OS MUROS DE JERUSALÉM. OS
FACCIOSOS, FINGINDO QUERER ENTREGAR-SE AOS ROMANOS, FAZEM QUE
VÁRIOS SOLDADOS SE EMPENHEM TEMERARIAMENTE EM UM COMBATE.
TITO PERDOA-LHES E ESTABELECE SEUS QUARTÉIS PARA COMPLETAR O CERCO.",
"389. Tito, entretanto, querendo fazer suas tropas avançar para
Jerusalém, as quais estavam em Scopos, determinou quanto julgava necessário
para se opor às incursões dos inimigos; com outros soldados aplainou o espaço
que se estendia até os muros da cidade. Mandou derrubar todas as cercas e
todas as sebes que rodeavam os jardins e as propriedades; cortou todas as
árvores, sem mesmo excetuar as que produziam frutos; encheu os lugares
fundos e vazios, as fossas e os vales; rebentou as rochas, aplainou, enfim, toda
a região que ia de Scopos até o sepulcro de Herodes e o tanque das serpentes,
antigamente chamado Betara.
390. Por seu lado os judeus organizaram um plano para atacar os
romanos. Os mais corajosos dentre eles foram, além das torres, chamadas as
torres das mulheres, dizendo que os partidários da paz os haviam expulsado da
cidade e eles se haviam retirado àquele lugar para se esconder, com medo dos
inimigos. Outros do seu partido, fingindo serem da cidade, gritavam do alto das
defesas, que desejavam a paz com os romanos e a pediam; diziam estar prontos
a lhes abrir as portas e os convidavam a vir. Para melhor conseguir enganá-los
lançavam pedras contra alguns, que fingiam querer impedi-los de sair e depois
de aparentemente ter feito passagem à força, vieram ter com os romanos e
mostraram-se ao voltar, muito temerosos. Os soldados, enganados por esse
ardil, julgavam-se já donos da praça; queriam invadir a cidade e vingar-se dos
inimigos; mas sua proposta era suspeita a Tito, que nela não viu fundamento
algum, porque, tendo no dia precedente, por meio de Josefo, feito sua proposta
aos judeus, para um acordo, não os havia encontrado dispostos a aceitá-la. Por
isso ordenou aos soldados que não abandonassem seus postos. Mas alguns
deles, que estavam encarregados de adiantar o trabalho, tendo já tomado as
armas, correram para as portas da cidade. Os judeus que fingiam ter sido
expulsos, deixaram-nos passar; quando eles chegaram às torres, perto da
porta, atacaram-nos por trás; nesse mesmo tempo os que estavam nas
muralhas e nas defesas os cobriram com uma chuva de pedras e de dardos.
Assim conseguiram matar muitos, ferindo também vários outros, porque não
lhes era fácil se retirar uma vez que eram também atacados por trás, além de
que a vergonha de ter desobedecido a seu general e o temor do castigo os
faziam persistir na falta. Por fim, depois de um grande combate e de terem por
sua vez causado muitas baixas entre os inimigos, mas também terem perdido
muitos homens, conseguiram abrir caminho entre os que lhes cortavam a
retirada. Os judeus não deixaram de os perseguir sob uma chuva de dardos,
até o sepulcro de Helena e sua insolência levou-os a cobrirem-nos de injúrias e
a zombar deles, por se terem deixado enganar, elevando para o alto seus
escudos, a fim de fazê-los brilhar, dançando, pulando e soltando gritos de
alegria.
Os oficiais ameaçaram os soldados e Tito disse encolerizado: Que é isso?
Os judeus, embora reduzidos à desesperação, não deixam de agir com
prudência, de usar de estratagemas, de nos armar emboscadas e a sorte os
auxilia, porque eles obedecem aos seus chefes e unem-se contra nós. E os
romanos, que a sorte sentia prazer em ajudar, pela excelente disciplina e
perfeita obediência, não temem, combatendo sem chefes e sem ordem, por sua
única culpa, a vergonha de que deve enchê-los ainda mais de confusão, na
presença mesmo do filho do imperador. Que dirá meu pai quando souber desse
fato, ele, que durante toda a vida, passada na guerra, jamais viu algo
semelhante? E que grande castigo nossas leis poderão impor a tropas inteiras,
que assim sacudiram o jugo da disciplina, elas, que não determinam penas
menores do que a morte, para faltas mais leves? Aqueles que tiveram a ousadia
de desprezer o seu dever, aprenderão bem depressa pelo castigo, que a mesma
vitória é um crime, entre os romanos, quando se ousa combater sem ordem
daqueles que comandam.
Esse excelente príncipe assim falou aos oficiais e não se duvidou de que
ele estava resolvido a agir com extrema dureza e rigor. Todos os soldados que ti-
nham falado julgaram-se perdidos e se preparavam para receber a morte que
não podiam negar de ter merecido com justiça. Então os oficiais das legiões
suplicaram que tivesse compaixão daqueles culpados e concedesse o perdão da
desobediência de um pequeno número ante a obediência de todos os outros e
ao seu desejo de apagar, por seus grandes préstimos, a recordação de sua falta,
de modo que ele não teria tristeza em lhes ter perdoado. Tais rogos, unidos ao
interesse do império que obrigava a usar de clemência, acalmaram Tito, porque
ele sabia que tanto é necessário ser inflexível, quando o castigo se refere a
apenas um indivíduo, como é necessário, outrossim, ser indulgente, quando os
culpados são de grande número. Assim, concedeu a graça aos soldados, com a
condição de serem mais prudentes para o futuro, e só pensou, então, em se
vingar da esperteza dos judeus.
391. Depois que o grande príncipe fez aplainar em quatro dias todo o
espaço que havia até os muros da cidade, mandou avançar suas melhores
tropas para perto das defesas, entre o norte e o poente, dispôs a infantaria em
sete batalhões, a cavalaria em três esquadrões, colocou entre eles os que
estavam armados de arcos e de flechas e tirando com tantas forças aos judeus
os meios de atacar, mandou avançar a bagagem das três legiões, os servos e o
restante de seus homens.
392. Acampou a três estádios da cidade, em frente à torre de Psefinos,
onde o circuito das muralhas daquele lado atrai o vento do norte para o lado do
ocidente. A outra parte do exército estava acampada do lado da torre de
Hípicos, na mesma distância de dois estádios da cidade e tinha cercado o
acampamento com um muro. Quanto à décima legião, ficou no monte das
Oliveiras.",