Livro 5 Flávio Josefo
Capítulo 28 Flávio Josefo
,
"MUITOS DOS QUE FUGIAM DE JERUSALÉM, TENDO SIDO ATACADOS PELOS
ROMANOS E APRISIONADOS DEPOIS DE SE TEREM DEFENDIDO, ERAM
CRUCIFICADOS À VISTA DOS OUTROS JUDEUS. MAS OS REBELDES, EM VEZ DE
SE COMOVEREM, TORNAVAM-SE AINDA MAIS INSOLENTES.",
"418. Tito, entretanto, fazia as plataformas avançarem sempre mais,
embora os que nelas trabalhavam fossem mui perturbados pelos judeus que
defendiam as muralhas. Ele mandou então uma parte de sua cavalaria colocar-
se de emboscada nos vales a fim de apanhar os que saíam para buscar
alimentos, dentre os quais havia também soldados não satisfeitos com o que
roubavam na cidade; mas a maior parte era do baixo povo, que o temor de
deixar suas esposas e seus filhos expostos à raiva daqueles celerados impedia
de fugir e a fome obrigava a sair. A necessidade e o temor do suplício os
obrigavam a se defender quando eram descobertos e atacados; e como não
podiam esperar misericórdia, depois de se terem defendido, não a pediam
também, e eram assim crucificados a vista dos que estavam na cidade. Tito
achava que havia naquilo muita crueldade, pois não se passava um dia sem
que não se apanhassem pelo menos uns quinhentos e, às vezes, mais; ele não
via porém possibilidade de fazer voltar, àqueles que haviam sido aprisionados;
achava muita dificuldade em prendê-los, por causa de seu número e ele
esperava que a vista de um espetáculo tão terrível poderia impressionar os
judeus da cidade, pelo temor de serem tratados do mesmo modo, pois o ódio e a
raiva de que os soldados romanos estavam possuídos, faziam sofrer àqueles
míseros, antes de morrer, tudo o que se pode esperar da insolência de soldados.
Não eram suficientes as cruzes, e havia já falta de lugar, para tantos
instrumentos de suplício. Eles levavam para as muralhas, amarrados com
cordas, os amigos daqueles que haviam fugido e aqueles dentre o povo que mais
mostravam desejar a paz, e diziam que eles estavam nas mãos dos romanos,
não como prisioneiros, mas como suplicantes. Esse estratagema deteve por um
tempo a vários que tinham intenção de fugir, mas logo que vieram a sabê-lo,
um grande número deles se foi, sem que o temor do suplício, que eles não
duvidavam lhes estava preparado, os pudesse reter, e a morte que recebiam das
mãos dos inimigos parecia-lhes suave em comparação com o que a fome e a
miséria os faziam sofrer. Tito mandou cortar as mãos a vários e os mandou
nesse estado a João e a Simão para lhes mostrar, com esse tratamento
excessivamente severo, que eles não eram desertores e mostrar-lhes que eles
deviam pelo menos então deixar de querer obrigá-lo a destruir a cidade e
pensar antes naquela contingência extrema em salvar a vida, sua pátria e
aquele Templo, ao qual nenhum outro se podia comparar. Mas ao mesmo
tempo ele apressava os trabalhos para reduzir pela força àqueles que não podia
convencer pela razão.
Os malvados, porém, do alto das muralhas faziam mil imprecações contra
Vespasiano e contra Tito; diziam que desprezavam a morte, porque lhes era glo-
rioso preferi-la a uma vergonhosa escravidão e que conservariam até o último
suspiro o desejo de mostrar aos romanos que eles não punham limites aos
males que gostariam de lhes poder causar. No que se referia à sua pátria, pois
Tito mesmo lhes dizia que estavam perdidos, eles não tinham razão de se
entristecer. Quanto ao Templo, Deus tinha um outro infinitamente maior e mais
admirável, porque o mundo inteiro era seu Templo, o que não impedia que ele
não pudesse conservar aquele no qual habitava e que, tendo-o por defensor,
zombavam daquelas ameaças, que não podiam, se Ele não o permitisse, serem
seguidas de seus efeitos. Era assim que aqueles malvados respondiam com
insolência às razões que os deveriam persuadir.",