Livro 5 Flávio Josefo
Capítulo 30 Flávio Josefo
,
"JOÃO DESTRÓI COM UMA MINA AS PLATAFORMAS FEITAS PELOS ROMANOS
QUE ESTAVAM DO SEU LADO, E SIMÃO, COM OS SEUS, INCENDEIA OS
ARÍETES, QUE BATIAM NOS MUROS QUE ELE DEFENDIA E ATACA OS
ROMANOS ATÉ NO SEU ACAMPAMENTO. TITO VEM EM SEU AUXÍLIO.
PÕE OS JUDEUS EM FUGA.",
"420. Embora os romanos tivessem começado a doze de maio as quatro
plataformas sem interrupção, puderam terminá-las em vinte e sete do mesmo
mês, tendo então empregado nessa obra, dezessete dias, porque elas eram
muito grandes. A que estava do lado da fortaleza Antônia, para o meio da
piscina de Stroutium, fora construída pela quinta legião. A décima segunda
legião construiu uma outra distante vinte côvados dali. A décima legião, que era
a mais apreciada de todas, construiu a que estava ao norte, onde existe a
piscina de Amigdalom. A décima quinta legião havia construído a que está perto
do sepul-cro do sumo sacerdote João, distante da outra trinta côvados. As
obras estavam terminadas e as máquinas, colocadas em cima das mesmas;
João, porém, fez minar até a plataforma que estava em frente à fortaleza
Antônia, sustentou a terra com estacas e trouxe uma grande quantidade de
madeira, embebida em resina de piche e betume e pôs-lhe fogo. Tendo os
suportes sido rapidamente consumidos, a plataforma ruiu por terra, com
grande estrondo. Tal destruição quase abafou o fogo; viu-se a princípio sair da
terra uma grande nuvem de fumaça misturada com poeira, mas depois que o
fogo reduziu a cinzas a matéria que lhe embargava a passagem, as chamas
começaram a aparecer. Tão grande acidente sucedido aos romanos, que já
julgavam prestes o momento de tomar a praça, encheu-os de pasmo e esfriou-
lhes a esperança. Julgaram mesmo inútil continuar a trabalhar para extinguir o
fogo, porque não poderiam impedir a destruição da plataforma.
421. Dois dias depois Simão com os seus atacou as outras plataformas
sobre as quais os romanos tinham colocado seus aríetes e começavam a bater
no muro. Um certo Tefté, de Garsi, na Galiléia, Megazaro, que tinha sido pajem
da rainha Mariana, e um tal Adibeniano, filho de Nabateu, cognominado o
Coxo, correram com fachos na mão para as máquinas e jamais em toda aquela
guerra houve três homens mais decididos e mais temíveis. Lançaram-se pelo
meio dos inimigos, como se nada tivessem que temer, quer dos dardos, quer
das espadas, e só se retiraram depois de ter incendiado aquelas máquinas.
Quando as chamas começaram a se erguer, os romanos correram do
acampamento para vir em auxílio dos seus. Mas os judeus os repeliram a
dardos e desprezando o perigo travaram luta com aqueles que avançavam para
apagar o fogo. Os romanos procuravam retirar os aríetes, cujos abrigos haviam
sido queimados, e os judeus, para impedi-lo, permaneciam no meio das chamas
sem se afastar, embora o ferro, com que aqueles aríetes estavam armados, se
tivesse queimado todo. O incêndio passou dali para os terraços, sem que os
romanos pudessem impedi-lo. Vendo-se assim rodeados pelo fogo de todos os
lados e perdendo a esperança de conservar os seus trabalhos, retiraram-se para
o acampamento. Essa retirada aumentou a ousadia dos judeus e seu número
crescia sempre, porque outros vinham da cidade juntar-se a eles e então não
duvidaram de que venceriam os romanos e foram com imprudente
impetuosidade atacar o seu corpo de guardas. É ordem inviolável entre os
romanos, que há sempre quem se ajude reciprocamente, para que, sob pena de
morte, ninguém abandone o companheiro, seja qual for o motivo. Mas numa
ocasião tão importante os que esta ordem obrigava a não deixá-los, preferindo
uma morte horrível ao castigo que lhes poderiam fazer sofrer, saíram para deter
o ímpeto dos judeus, e vários dos que fugiam comovidos pelo perigo em que os
viam e também de vergonha, voltaram as costas e repeliram com suas
máquinas aquela grande multidão que saía em desordem da cidade. Aqueles
homens desesperados não atacavam somente os romanos que encontravam,
mas lançavam-se como animais ferozes à ponta de suas lanças e os
derrubavam com o corpo. Assim, sua ousadia procedia mais de brutalidade do
que de verdadeiro valor e os romanos recuavam, por um sábio estratagema,
para lhes deixar passar a fúria.
422. Entretanto, Tito, que tinha ido à fortaleza Antônia, para escolher
lugares apropriados, a fim de levantar outras plataformas, voltou ao
acampamento e repreendeu severamente os soldados, porque depois de se
terem apoderado dos principais muros dos inimigos e de tê-los encerrado no
último, como numa prisão, deixavam-se surpreender por eles mesmo em seu
próprio acampamento. Atacou, depois, os judeus pelos flancos, com algumas
das suas melhores tropas e eles retrocederam, mas defenderam-se
corajosamente. O combate acendeu-se com enorme entusiasmo de lado a lado,
ergueu-se então uma grande nuvem de poeira e ressoaram tão grandes gritos,
que os olhos ofuscados e os ouvidos aturdidos não podiam distinguir os amigos,
dos inimigos. Os judeus permaneciam sempre firmes e mais por desespero do
que por confiança em suas forças, e os romanos estavam tão animados pela
vergonha de não poder conservar a glória de suas armas e pelo perigo em que
viam seu general, que não duvido de que eles não teriam dizimado a todos os
judeus, se eles não tivessem evitado seu furor, retirando-se para a cidade.
Assim os romanos não encontraram mais inimigos pela frente; mas não se
podiam consolar de ter, pela destruição de suas obras, perdido numa hora, o
que lhes havia custado tanto tempo e tantas dificuldades; vários, mesmo, vendo
suas máquinas despedaçadas, perdiam a esperança de tomar aquela praça.",