Livro 5 Flávio Josefo
Capítulo 19 Flávio Josefo
,
"TITO COLOCA SEUS ARÍETES EM POSIÇÃO DE FUNCIONAR. GRANDE
RESISTÊNCIA DOS JUDEUS. DÃO UMA VIGOROSA ARREMETIDA, CHEGANDO
MESMO ATÉ O ACAMPAMENTO DOS ROMANOS, E TERIAM QUEIMADO
SUAS MÁQUINAS, SE TITO NÃO O TIVESSE IMPEDIDO,
COM SEU EXTREMO VALOR.",
"405. Depois que os romanos terminaram os trabalhos, lançaram um
pedaço de chumbo preso a uma corda para medir o espaço que havia desde o
terraço até o muro da cidade. Somente assim poderiam sabê-lo, porque os
dardos que, de cima, os judeus lançavam, impediam-lhes aproximar-se dos
mesmos. Quando viram que os aríetes poderiam chegar até lá, Tito ordenou que
os dispuses-sem em ordem de batalha, mandou avançar as outras máquinas
para impedir os ataques e as armas dos judeus, e mandou bater no muro em
três lugares diferentes. O barulho de tantas máquinas que trabalhavam ao
mesmo tempo não só assustou de tal modo os habitantes que faziam vibrar os
céus com seus gritos, mas lançou o temor também no coração dos revoltosos. O
grande perigo em que se encontravam, fê-los pensar em se reunir para defesa
comum. Diziam, uns aos outros, que parecia que eles conspiravam contra sua
ruína, para favorecer aos romanos e se Deus não permitisse que aquela união
durasse sempre, eles deviam, pelo menos então, fazer todo o possível para
combater os inimigos. Simão mandou em seguida dizer por meio de um arauto
aos que estavam fechados no Templo, que podiam sair com todas as garantias;
e embora João não confiasse muito nele, todavia não deixou de o fazer.
Assim, aqueles rebeldes terminaram a inimizade e uniram-se num único
exército; depois de se terem distribuído pelas muralhas e pelas defesas,
começaram a atirar grande quantidade de fogo e de dardos contra as máquinas
dos romanos e contra os que manejavam os aríetes. Os mais corajosos saíam
mesmo em grandes grupos, derrubavam os abrigos das máquinas e mostravam
com seu extremo valor, que só lhes faltava ter tanta perícia da guerra quanto
tinham de ousadia e de coragem. Tito, que estava sempre presente para auxiliar
onde fosse preciso, colocou a cavalaria e arqueiros em redor das máquinas para
repelir os que vinham incendiá-las; os que estavam nas torres não deixavam de
atirar dardos para que os aríetes não pudessem trabalhar; mas o muro em que
eles batiam era tão forte, que resistia aos seus golpes. O aríete da quinta legião
abalou somente o canto da torre que se elevava sobre o muro, mas este ficou
sempre firme, quando ela caiu.
Os judeus suspenderam temporariamente as incursões e aguardaram o
momento quando os romanos estavam dispersos pelos campos, ocupados em
seus trabalhos, porque julgavam que o cansaço e o medo tinham feito os judeus
se retirarem. Estes saíram então pela porta falsa, da torre de Hípicos,
incendiaram-lhes os trabalhos e chegaram até seu acampamento. Ante esse
ruído, os que estavam mais próximos, reuniram-se; os que estavam mais longe
vieram prontamente unir-se a eles. A coragem sobrepujou então a disciplina
dos romanos. Os judeus por primeiro puseram em fuga os que encontraram e
afugentaram os que se haviam reunido. O combate maior foi perto das
máquinas. Fizeram de tudo para incendiá-las, mas os romanos também se
esforçavam para impedi-lo. Gritos confusos erguiam-se de ambos os lados e
vários dos que se encontraram nesse choque tão violento morreram na luta. A
força e o desprezo pela morte que os judeus demonstraram nessa ocasião
continuavam a lhes dar vantagem; os soldados recrutados em Alexandria
sustentaram tão generosamente seu ataque que contra toda a expectativa
naquele dia eles passaram por mais valentes que os romanos.
406. Tito então chegou com um grupo da sua melhor cavalaria; atacou
com tanta força os inimigos, que ele sozinho matou doze, pôs os restantes em
fuga e os perseguiu até as muralhas, preservando assim suas máquinas da
destruição que já lhe parecia inevitável. Mandou crucificar, à vista dos mesmos
judeus, um deles, aprisionado no combate, para ver se, com tal espetáculo,
lançaria o terror em seu espírito. Depois que se retirou, um chefe dos idumeus,
chamado João, querendo falar com um soldado que ele conhecia, foi morto por
uma flecha, atirada por um árabe. Os judeus e mesmo os mais rebeldes
lamentaram-no muito, porque era muito valente e não tinha menos valor que
inteligência.",