Livro 5 Flávio Josefo
Capítulo 21 Flávio Josefo
,
"TITO ATACA O SEGUNDO MURO DE JERUSALÉM. ESFORÇOS INCRÍVEIS DOS JUDEUS E
DOS ROMANOS.",
"408. Tito acampou no lugar que é denominado Campo dos Assírios,
ocupou o espaço do vale de Cedrom, distante do segundo muro apenas ao
alcance de uma flecha; e resolveu atacá-lo. Os judeus dividiram-se para
defendê-lo e resistiram corajosamente. |oão combatia com os seus na fortaleza
Antônia e do alto do pórtico do Templo, que está do lado do norte, perto do
sepulcro do rei Alexandre. Simão, com os do seu partido, defendia a passagem
que está entre o sepulcro do sumo sacerdote João e a porta dos aquedutos que
levavam água para a torre de Hípicos. Faziam freqüentes arremetidas e por
vezes combatiam corpo-a-corpo com os romanos. Mas a vantagem que a
disciplina destes lhes dava sobre eles os obrigava a se retirarem com perdas. O
contrário sucedia nos assaltos, porque, por maior que fossem a coragem dos
romanos e sua prática na guerra, a coragem dos judeus, aumentada pelo
temor, unida ainda a tantos males que haviam sofrido, os endureceram na luta
e os fazia empregar tanta violência que obrigavam os inimigos a recuar. A
esperança de encontrar salvação na resistência os animava; e o desejo de
terminar o grande assédio com uma vitória imediata, animava os romanos, sem
que o ardor que se demonstrava de parte a parte, se enfraquecesse por tantos e
tão extremas dificuldades. Passavam-se dias inteiros em ataques, em incursões
e em toda espécie de combate; a fadiga das noites era ainda mais difícil a
suportar, do que a do dia, porque eles passavam-na sem dormir, pelo temor
contínuo em que os judeus viviam, de que lhes tomassem o muro de improviso,
num assalto geral e pelo temor que os romanos tinham de que os judeus
atacassem seu acampamento. Assim uns e outros, depois de ter passado toda a
noite em armas, estavam prontos a recomeçar o combate quando raiava o dia.
Jamais emulação foi maior que a que levava os judeus, à porfia, ao perigo, para
agradar aos seus chefes, e particularmente a Simão, pelo qual todos os do seu
partido tinham tanto amor, e tanto respeito que não havia um só, que não
estivesse pronto a se matar se ele o ordenasse. Quanto aos romanos, que
coragem não lhes dava a ocasião em que se encontravam de vencer sempre
guerras quase perpétuas, seus contínuos exercícios, a grandeza de seu império
e principalmente o fato de combaterem sob as vistas de tão grande general?
Aquele admirável príncipe estava presente em toda a parte e não deixava os
grandes serviços sem recompensa. Que covardia não teria sido mais vergonhosa
e mais passível de castigo do que a de que ele fosse testemunha? Que outra
vantagem poderia igualar à glória de se tornar digno dela, por atos
extraordinários de valor e da estima daquele que, sendo já declarado César,
seria um dia senhor do mundo? Haverá então motivo de nos admirarmos de
que tantas considerações juntas, não levassem uma nação, já tão generosa por
si mesma, a praticar ações que pareciam ir além das forças humanas?",
"CAPITULO 22",
"BELO FEITO DE UM CAVALEIRO ROMANO CHAMADO LONGINO. TEMERIDADE
DOS JUDEUS E SOLICITUDE COM QUE TITO, AO CONTRÁRIO, CUIDAVA DA
VIDA DE SEUS SOLDADOS.",
"409. Os judeus formaram, fora de suas muralhas, um grande batalhão, e
os dardos lançados ao mesmo tempo do seu lado e do lado dos romanos
voavam em todas as direções. Um cavaleiro romano, de nome Longino,
atravessou esse batalhão e matou dois dos mais bravos inimigos que a ele
quiseram resistir. Um, ele feriu no rosto e, com o mesmo dardo que lhe retirou
da ferida, atravessou o outro, no flanco, quando ele queria fugir. Depois deste
feito de valor, voltou para junto dos seus sem ferimento algum; a glória que isso
lhe granjeou levou, por uma nobre emulação, outros a fazerem o mesmo.
Por seu lado, os judeus, não se incomodando com o que já sofriam, só
pensavam em atacar os romanos e julgavam-se felizes em morrer, contanto que
tivessem também matado alguém. Tito, ao contrário, tinha tanto maior cuidado
em preservar e conservar seus soldados, quanto em vencer. Ele dizia que a
temeridade devia ser tida mais como desespero do que como valor; mas a
verdadeira coragem consiste em unir-se à prudência, à generosidade e em se
proceder com juízo, nos perigos, de modo que tudo se faça para garantir-se a si
mesmo e para fazer caírem os inimigos.",