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Livro 5 Flávio Josefo

Capítulo 27 Flávio Josefo

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,
"HORRÍVEL CARESTIA AFLIGE JERUSALÉM; CRUELDADE INCRÍVEL DOS
REVOLTOSOS.",
"417. Era igualmente perigoso para os ricos ficar ou fugir, porque era
suficiente possuir bens para ser assassinado. Entretanto, a carestia, crescendo
sempre, fazia crescer também o furor dos revoltosos; e à medida que se
avançava, mais esses dois males juntos produziam terríveis efeitos. Como não
havia mais trigo, esses inimigos da pátria, que tinham acendido o fogo da
guerra, entravam à força nas casas para procurá-lo. E, se o encontravam,
acusavam-nos de o ter ocultado, maltratavam-nos, fazendo-os sofrer, para
obrigá-los a lhes revelar o esconderijo e era suficiente proceder bem, para logo
ser tido como culpado desse pretenso crime. Aqueles que estavam reduzidos ao
extremo, eles deixavam-nos morrer de fome, poupando a si mesmos o trabalho
de matá-los. Vários ricos venderam secretamente todos os seus bens por uma
medida de trigo; e os mais desprendidos, por apenas uma medida de cevada.
Encerravam-se depois nos lugares mais ocultos de suas casas, onde alguns
comiam esse grão, sem ser moído, outros reduziam-no a farinha segundo a
necessidade ou temor lho permitia. Não se viam mais mesas postas; cada qual
tirava de debaixo do carvão o que comer, sem se dar ao trabalho de o deixar
cozer. Jamais se poderia ver miséria tão deplorável. Somente aqueles que
tinham o poder nas mãos não a experimentavam. Todos os demais lamentavam
inutilmente sua desgraça e como a fome não se disfarça, as mulheres
arrancavam o pão da mão de seus maridos, as crianças, das mãos de seus pais,
e o que supera toda a credulidade, as mães, das mãos de seus filhos. Mas os
que assim faziam não podiam, nem se escondendo, evitar que se lhes viesse a
arrebatar o que já tinham tirado dos outros. Quando a porta de uma casa se
fechava, a suspeita de que aqueles que lá estavam tinham alguma coisa para
comer, os fazia arrombá-las, para entrar e para lhes tirar o pedaço da boca.
Espancavam os velhos que não os queriam entregar, agarravam pela garganta
as mulheres que escondiam o que tinham nas mãos e sem ter nem mesmo
compaixão das crianças, que ainda mamavam, atiravam-nas ao chão depois de
terem sido arrancadas do peito das suas mães. Os que corriam para tirar o pão
dos outros, iravam-se com os que corriam mais do que eles, como se os
tivessem injuriado gravemente e não havia tormentos que não se inventassem
para encontrar um meio de viver. Penduravam os homens pelas partes mais
sensíveis, fincavam-lhes na carne pedaços de pau pontiagudos e os faziam
sofrer outros indizíveis tormentos, para fazê-los declarar onde tinham
escondido um pão ou um punhado de farinha. Esses carrascos achavam que,
em tal conjuntura, podia-se, sem crueldade, praticar tão horríveis ações e eles
ajuntaram, por esse meio, o necessário para viver seis dias. Tiravam dos pobres
as ervas que de noite eles iam colher fora da cidade, com perigo de vida; nem
escutavam os rogos que lhes faziam, em nome de Deus, para lhes deixar uma
pequena porção e julgavam fazer-lhes grande favor, não os matando depois de
os ter roubado.
Assim essa pobre gente era tratada pelos soldados. Quanto às pessoas da
nobreza eram levadas aos tiranos, que autorizavam todos os crimes; e com
falsas acusações eles faziam morrer a muitos como tendo tomado parte
nalguma conspiração, para entregar a cidade aos romanos; a maior parte, com
o pretexto de que queriam fugir para junto deles. Simão mandava a João os que
ele tinha despojado de seus bens e João mandava a Simão os que ele tinha
tratado do mesmo modo. Dessa forma eles se divertiam com o sangue do povo e
dividiam entre si os despo-jos desses infelizes. A paixão de dominar os
separava, mas a conformidade de suas ações os unia; e entre ambos passava
por mau aquele que não fizesse participante, ao outro, de seus roubos, como se
fosse grave injustiça não lhe dar o que aquela detestável sociedade de crimes
fazia merecer mais do que o outro.
Seria tentar coisa impossível querer relatar detalhadamente toda a
crueldade desses ímpios. Contento-me em dizer que não creio, que desde a
criação do mundo se tenha visto outra cidade sofrer tanto, nem outros homens
cuja malícia fosse tão fecunda em toda sorte de maldade. Eles amaldiçoavam
mesmo aos do seu país, para tornar mais suportável aos estrangeiros a sua
raiva e seu furor para com eles e como a maldade corrompe de tal modo o ar,
quando chega ao auge, tanto que não se pode mais ocultar, mas se manifesta
por si mesma, a verdade obrigou esses celerados a confessar que eles eram
escravos, gente ajuntada, abortos, escória de nossa nação. Eles podem-se
vangloriar da glória que lhes cabe, de ter destruído Jerusalém, de ter obrigado
os romanos a conseguir tão funesta vitória e de merecerem ser considerados
como incendiários do Templo, pois que muito mais tarde foram dominados. Eles
viram as chamas devorar a cidade alta, sem demonstrar o menor sentimento de
dor, nem derramar uma única lágrima, embora muitos romanos fossem
tomados desses mesmos sentimentos de humanidade. Mas devemos falar agora
mais particularmente dessas coisas, na continuação da nossa história.",