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Livro 5 Flávio Josefo

Capítulo 36 Flávio Josefo

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,
"ESPANTOSA CRUELDADE DOS SÍRIOS E DOS ÁRABES DO EXÉRCITO DE TITO E MESMO DE
ALGUNS ROMANOS QUE ABRIRAM O VENTRE DOS QUE FUGIAM DE JERUSALÉM PARA
PROCURAR OURO. HORROR QUE TITO SENTIU COM ISSO.",
"429. Uma parte dos que fugiam de Jerusalém, para se salvar, lançavam-
se por cima das muralhas; outros tomavam pedras, com o pretexto de querer se
servir delas contra os romanos e em seguida passavam para o seu lado. Mas
depois de terem evitado um grande mal, caíam num outro ainda maior, porque
o alimento que tomavam dava-lhes uma morte mais rápida do que a que a fome
lhes causava. Estando inchados e hidropicos, comiam com tanta avidez, para
encher o estômago vazio, que faziam a natureza desfalecer, e rebentavam,
quase no mesmo instante. Os mais sensatos, ante esses exemplos, evitavam tal
inconveniente, comendo por vez, para acostumar de novo o estômago, às suas
forças ordinárias. Mas então encontravam-se num estado ainda mais deplorável
que antes. Vimos como muitos que, querendo se salvar, engoliram ouro, de que
havia na cidade uma grande quantidade e o que valia antes vinte e cinco áticos,
então valia somente doze. Aconteceu que um desses fugitivos foi surpreendido
no quarteirão dos sírios, quando procurava naquilo de que a natureza o
obrigava a se desfazer, o ouro que tinha engolido; a notícia correu
imediatamente por todo o acampamento de que os fugitivos tinham o corpo
cheio de ouro. Vários então dos sírios e dos árabes começaram a abrir o ventre
dos prisioneiros para procurar nas suas entranhas o metal com que queriam
satisfazer à sua abominável ambição, o que penso ser a mais horrível de todas
as crueldades, que jamais os judeus tiveram de sofrer, por maiores e mais
estranhas que tenham sido as outras; numa só noite, dois mil terminaram sua
vida desse modo.
430. Tito sentiu com isso tal horror que mandou sua cavalaria rodear
imediatamente todos os culpados para matá-los, numa chuva de dardos, e o
teria feito se não viesse a saber que seu número sobrepujava de muito o dos
mortos. Ele reuniu então todos os chefes dessas tropas auxiliares e mesmo das
do império, porque alguns soldados romanos tinham tomado parte naquele
crime e disse-lhes, encolerizado: Será possível que haja entre vossos soldados,
homens mais cruéis que os mais ferozes dos animais, que não tiveram receio de
cometer tão detestável crime, na esperança de um lucro incerto e não tenha
vergonha de se enriquecer de maneira tão execrável? Como os árabes e os sírios
tiveram coragem de praticar tão horríveis desumanidades, numa guerra que
não lhes interessava, nem a eles se refere, e de dar motivo a se atribuir aos
romanos o que sua ambição, sua crueldade e seu ódio pelos judeus os levaram
a fazer?
Depois de ter assim falado, declarou que aquele que tão ousada e
malignamente fizesse algo de semelhante, seria imediatamente executado.
Ordenou a todos os oficiais das legiões que fizessem uma indagação bem exata
dos que eram ainda suspeitos. Mas nenhum temor de castigo é capaz de
reprimir a ambição e a avareza. O amor das riquezas é tão natural aos homens
que essa paixão cresce sempre, e Deus, que tinha condenado esse povo
miserável a perecer, permitia que tudo o que poderia contribuir para sua
salvação, não tivesse eficácia nem efeito. Como o castigo ordenado por Tito
impedia que se cometesse o crime publicamente, eles o faziam às escondidas.
Aqueles bárbaros, depois de terem usado de todas as precauções, não sendo
vistos pelos romanos, continuavam a abrir o ventre dos fugitivos que lhes caíam
nas mãos, para procurar ouro em suas entranhas e satisfazer com esse lucro
abominável seu ardente desejo de enriquecer. O mais das vezes, porém, nada
encontravam. Assim a maior parte dessa pobre gente era constituída de
infelizes vítimas de uma enganadora esperança, e aquela horrível crueldade
impediu a muitos judeus, sair da cidade para se entregar aos romanos.",