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Livro 5 Flávio Josefo

Capítulo 13 Flávio Josefo

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,
"DESCRIÇÃO DA CIDADE DE JERUSALÉM.",
"393. A cidade de Jerusalém estava cercada por um tríplice muro, exceto
do lado dos vales, onde havia somente um, porque ali eles são inacessíveis.
Estava construída sobre dois montes opostos e separados por um vale cheio de
casas. O monte sobre o qual a cidade alta estava situada era muito mais
elevado e mais íngreme que o outro e, por conseguinte, de posição mais forte; o
rei Davi, pai de Salomão, que construiu o Templo, escolheu-o para ali erguer
uma fortaleza, à qual deu seu nome. É o que chamamos hoje o alto mercado.
A cidade baixa está situada sobre o outro monte, que tem o nome de Acra,
cuja inclinação é igual de todos os lados. Havia outrora ali, em frente desse
monte, um outro mais baixo, que dele estava separado por um largo vale; mas
os príncipes hasmoneus mandaram encher esse vale e arrasar o cume do
monte Acra, para unir a cidade ao Templo, a fim de que ficasse mais alto que
tudo, em derredor.
Quanto ao vale chamado Tiropeom, que dissemos separar a cidade alta da
baixa, estendia-se até a fonte de Siloé, cuja água é excelente para se beber e a
produz em abundância.
Há fora da cidade dois outros montes, que os rochedos, juntamente com
os vales profundos que os rodeiam, tornam inteiramente inacessíveis.
O mais antigo dos três muros de que acabo de falar era inexpugnável,
quer pela grande espessura, quer pela altura do monte sobre o qual estava
construído e pela profundidade dos vales que lhe estavam aos pés; Davi,
Salomão e os outros reis nada haviam poupado para pô-lo naquelas condições.
Começava na torre de Hípicos, continuava até a das galerias e de lá se uniria ao
palácio onde o Senado se reunia e terminava no pórtico do Templo que está do
lado do ocidente. Do outro lado também, do lado do ocidente, começava
naquela mesma torre e passando pelo lugar chamado Betso, continuava até a
porta dos essênios. De lá, voltando-se para o sul, passava por baixo da fonte de
Siloé, de onde se voltava para o oriente, para alcançar o lago de Salomão e
passando pelo lugar chamado Oflam, ia terminar no pórtico do Templo, que
está do lado do oriente.
O segundo muro começava na porta de Cenná que fazia parte do primeiro
muro, ia até a fortaleza Antônia e só ficava do lado do norte.
O terceiro muro começava na torre de Hípicos, estendia-se do lado do
vento norte até a torre Psefina, em frente ao sepulcro de Helena, rainha dos
adiabenianos e mãe do rei Izate; continuava ao longo das cavernas reais, desde
a torre que estava no ângulo, onde, fazendo uma curva ia até em frente ao
sepulcro do pisoeiro; depois de ter alcançado o muro antigo, terminava no vale
do Cedrom. Esse muro era obra do rei Agripa, que o fizera, para cercar aquela
parte da cidade onde outrora não havia edifícios; mas como as casas antigas
não eram suficientes para alojar uma quantidade tão grande de gente, ela se
havia espalhado pouco a pouco para fora e muito se havia construído do lado
setentrional do Templo, que está perto do monte.
Um quarto monte chamado Beseta, que está em frente da fortaleza
Antônia, já começava também a ser habitado; fossos muito profundos, feitos em
redor, que impediam que se pudesse passar a pé, da torre Antônia,
acrescentavam muito à sua força e faziam parecer aquelas torres muito mais
altas.
Haviam dado o nome de Beseta, isto é, cidade nova, a esta parte da cidade
de que Jerusalém fora aumentada e os habitantes desejavam muito que ela se
fortificasse ainda naquele lugar. O rei Agripa, pai do rei Agripa, começou, como
vimos, por rodeá-la de uma muralha muito forte, mas temendo que tão grande
obra causasse suspeitas ao imperador Cláudio e que ele o atribuísse a alguma
intenção de revolta, contentou-se em lhe lançar apenas os alicerces. E se o
tivesse terminado, como havia começado, Jerusalém teria sido inexpugnável; as
pedras desse muro tinham vinte côvados de comprimento, por dois de largura,
o que o tornava tão forte que era impossível derrubá-lo, mover-lhe os alicerces,
nem mesmo abalá-lo com máquinas. Sua espessura era de dez côvados e sua
altura teria correspondido à largura, se a consideração que acabo de fazer não
se tivesse oposto à magnificência desse príncipe. Os judeus depois ergueram
esse muro até a altura de vinte côvados com ameias, acima de dois côvados e
parapeitos, que tinham três. Assim sua altura era de vinte e cinco côvados e era
fortificado com torres de vinte côvados quadrados, tão solidamente construídas
como o muro e cuja estrutura bem como a beleza das pedras não era inferior à
do Templo. As torres eram mais altas vinte côvados que os muros; lá se subia
por meio de degraus muito largos; dentro estavam aposentos e reservatórios
para receber a água da chuva. Havia noventa torres feitas desse modo,
distantes umas das outras duzentos côvados. O muro do meio tinha só
quatorze torres, o antigo, tinha sessenta e todo o perímetro da cidade era de
trinta e três estádios.
Embora todo esse terceiro muro fosse tão admirável, a torre Psefina,
construída no ângulo do muro que visava de um lado o norte, do outro, o
ocidente, e em frente à qual Tito havia estabelecido seu acampamento,
superava a todos em beleza. Sua forma era ortogonal, sua altura, de setenta
côvados, e quando o sol havia despontado, de lá se podia ver a Arábia, o mar e
até as fronteiras da Judéia.
Em frente dessa torre estava a de Hípicos e muito perto de lá, ainda duas
outras, que o rei Herodes, o Grande, tinha também elevado sobre o muro
antigo, cuja beleza e força eram tão extraordinárias que não havia outra no
mundo, que com ela pudesse se comparar; porque, além da grande
magnificência desse príncipe e do seu afeto por Jerusalém, ele queria por meio
dessa obra maravilhosa eternizar a memória de três pessoas que lhe tinham
sido tão caras: um amigo e um irmão, mortos na guerra, depois de ter praticado
atos heróicos de valor, e uma mulher, que havia amado muito e que ele mesmo
a tinha assassinado pelo seu excesso de paixão por ela. Assim, querendo lhes
dar o nome a essas três soberbas torres, à primeira chamou Hípicos, seu
amigo. Ela tinha quatro faces, de vinte e cinco côvados cada uma, de largura, e
trinta de altura; era maciça, por dentro. A parte superior era feita em forma de
terraço de pedras bem talhadas, todas iguais e bem unidas, com um poço no
meio, de vinte côvados de profundidade, para receber a água que caía do céu.
Sobre esse terraço havia um edifício de dois andares de vinte e cinco côvados de
altura cada um, dividido em diversos aposentos, com ameias em redor, de dois
côvados de altura, e parapeitos altos, de três côvados. Assim, toda a altura
dessa torre era de oitenta e cinco côvados.
Esse grande príncipe chamou a segunda dessas torres, de Fazaela, do
nome de seu irmão, Fazael. Era quadrada: cada um dos seus lados tinha
quarenta côvados de comprimento e outros tantos de altura e era também
maciça por dentro. Havia em cima uma espécie de vestíbulo de dez côvados de
altura, sustentado por arcobotantes e rodeado de pequenas torres. Do meio
desse vestíbulo elevava-se uma torre, na qual estavam aposentos e banheiros,
tão ricos que em toda parte brilhava magnificência real; o alto da torre era
também fortificado com ameias e parapeitos. Assim sua altura total era de
noventa côvados. Sua forma parecia-se com a do farol de Alexandria, onde uma
luz sempre acesa serve de aviso aos marinheiros, para que não batam nos
rochedos que lhes poderiam causar naufrágio; mas esta era mais espaçosa que
a outra; nesse soberbo aposento Simão tinha estabelecido a sede de seu
governo tirânico.
Herodes deu à terceira torre o nome da rainha Mariana, sua mulher.
Tinha vinte côvados de comprimento, outro tanto de largura e cinqüenta e cinco
de altura. Por mais suntuosos que fossem os aposentos das duas outras, não se
podiam comparar com os desta, porque o soberano quis que, aquelas que
tinham o nome de dois homens, fossem muito mais fortes, e esta terceira, que
tinha o de uma mulher e de uma tão grande princesa, as superasse de muito
em beleza e em riqueza de ornamentos.
As três torres eram muito altas, por si mesmas, mas sua posição as fazia
parecer ainda mais altas, porque estavam construídas sobre o vértice do monte,
que era mais alto trinta côvados que o antigo muro, embora esse muro fosse
construído sobre um lugar muito alto. Se elas eram admiráveis pela sua forma,
não o eram menos pela sua matéria; não eram pedras ordinárias e comuns que
os homens podem mover, mas eram peças de mármore branco de vinte côvados
de comprimento, por dez de largura e cinco de altura, tão bem talhadas e
unidas que não se notavam as ligações, e cada uma delas parecia apenas uma
peça.
Do lado do norte, um palácio real unia essas torres e superava em
magnificência e em beleza tudo o que se poderia dizer, tanto sua estrutura e
sua suntuosidade pareciam lutar à porfia, para torná-lo mais admirável. Um
muro de trinta côvados de altura rodeava-o com torres igualmente distantes e
de excelente arquitetura. Seus aposentos eram tão soberbos que as salas
destinadas aos banquetes podiam conter cem daqueles leitos, que se põem à
mesa. A variedade dos mármores e das raridades que lá se haviam reunido era
incrível. Não se podia ver sem espanto o comprimento e a grossura das vigas de
madeira que sustentavam o peso de tão maravilhoso edifício. O ouro e a prata
brilhavam por toda a parte, nos ornatos das paredes e na riqueza dos móveis.
Havia um círculo de pórticos sustentados por colunas de rara beleza e nada
poderia ser mais agradável que os espaços descobertos que estavam entre esses
pórticos, porque estavam cheios de diversas plantas, belos jardins, passeios,
salões muito claros, fontes que jorravam água límpida de figuras de bronze; em
derredor dessas fontes, havia viveiros de pombos e outros pássaros. Eu tentaria
inutilmente descrever em toda a sua perfeição a incrível magnificência desses
soberbos edifícios e de todos os detalhes que os tornavam tão deliciosos quão
admiráveis. As palavras seriam insuficientes e eu não poderia, sem ter o
coração ferido de dor, pensar que todos foram reduzidos a cinzas, não pelos
romanos, mas pelas chamas criminosas daquele fogo aceso desde o princípio de
nossa cisão, por celerados e traidores de sua pátria. Um outro incêndio
consumou do mesmo modo tudo o que estava perto da fortaleza Antônia,
passou ao palácio e queimou o teto dessas três admiráveis torres.",