Assim que o entronizaram, o governador da província reuniu uma multidão de gregos e judeus, cercou os muros da igreja e ordenou que Pedro saísse, ameaçando-o com exílio caso se recusasse. Ele agiu dessa forma, alegando que estava cumprindo o desejo do imperador ao provocar aqueles com sentimentos opostos, mas a verdade era que fora levado por sua paixão ímpia. Pois era devoto aos ídolos e encarava as tempestades que assolavam a Igreja como uma época de grande festa. O admirável Pedro, porém, ao presenciar o conflito imprevisto, retirou-se secretamente e embarcou num navio rumo a Roma.
Após alguns dias, Euzócio chegou de Antioquia com Lúcio e lhe entregou as igrejas. Este era aquele cuja impiedade e transgressão da lei Samósata já havia experimentado. Mas o povo, nutrido pelos ensinamentos de Atanásio, ao perceber como era diferente o alimento espiritual que lhes era oferecido, manteve-se afastado das assembleias da Igreja.
Lúcio, que empregava idólatras como seus assistentes, açoitava alguns, aprisionava outros; alguns ele obrigava a fugir, e as casas de outros ele saqueava de maneira rude e cruel. Mas tudo isso está melhor descrito na carta do admirável Pedro. Depois de relatar um exemplo da conduta ímpia de Lúcio, incluirei a carta nesta obra.
Certos homens no Egito, de vida e conduta angelicais, fugiram da inquietação do Estado e escolheram viver em solidão no deserto. Ali, fizeram o solo arenoso e árido frutificar; pois um fruto doce e belo para Deus era a virtude pela qual viviam. Entre muitos que tomaram a iniciativa nesse modo de vida estava o renomado Antônio, mestre excelente na escola da mortificação, que fez do deserto um local de treinamento da virtude para seus eremitas. Ele, após todos os seus grandes e gloriosos trabalhos, alcançou o porto onde os ventos da angústia não sopram mais, e então seus seguidores foram perseguidos pelo miserável e infeliz Lúcio. Todos os líderes dessas companhias divinas, o famoso Macário, seu homônimo, Isidoro, e os demais foram arrancados de suas cavernas e enviados para uma certa ilha habitada por homens ímpios, e nunca abençoada com nenhum mestre da piedade. Quando o navio se aproximou da costa da ilha, o demônio reverenciado por seus habitantes deixou a imagem que fora sua antiga morada e, tomado de frenesi, apoderou-se da filha do sacerdote. Ela foi impelida, em sua fúria inspirada, para a costa onde os remadores traziam o navio para terra. Fazendo da língua da moça seu instrumento, o demônio gritou através dela as palavras proferidas em Filipos pela mulher possuída pelo espírito de Píton, e foi ouvido por todos, homens e mulheres, dizendo: “Ai de vós, servos de Cristo! Fomos expulsos por vós de toda cidade e aldeia, de colina e altura, de desertos onde ninguém habita; naquela ilha, esperávamos viver fora do alcance de vossas flechas, mas nossa esperança foi vã; para cá fostes enviados por vossos perseguidores, não para serdes feridos por eles, mas para nos expulsar. Estamos deixando a ilha, pois estamos sendo feridos pelos raios penetrantes de vossa virtude.” Com essas palavras, e outras semelhantes, atiraram a donzela ao chão e fugiram todos juntos. Mas aquela companhia divina orou pela moça, levantou-a e a entregou ao pai, curada e em perfeito juízo.
Os espectadores do milagre lançaram-se aos pés dos recém-chegados e imploraram que lhes fosse permitido participar do meio de salvação. Destruíram o bosque do ídolo e, iluminados pelos brilhantes raios da instrução, receberam a graça do santo batismo. Quando esses eventos se tornaram conhecidos em Alexandria, todo o povo se reuniu, insultando Lúcio e dizendo que a ira de Deus cairia sobre eles se aquela divina companhia de santos não fosse libertada. Então Lúcio, temendo um tumulto na cidade, permitiu que os santos eremitas retornassem às suas tocas. Que isso baste para dar uma amostra de sua ímpia iniquidade. Os atos pecaminosos que ele ousou cometer serão mais claramente expostos na carta do admirável Pedro. Hesito em transcrevê-la na íntegra, e por isso citarei apenas alguns trechos.