1. Muitos, pois, e diversos são os milagres que os cidadãos daquela igreja recordam de Narciso,
transmitidos por tradição dos irmãos que se sucederam. Entre eles relatam também o seguinte
prodígio realizado por ele.
2. Dizem que uma vez, durante a grande vigília de Páscoa, faltou o azeite aos diáconos, devido a
isso apoderou-se da multidão um grande desânimo. Narciso mandou então aos que preparavam
as luzes que pegassem água e a levassem a ele.
3. Feito isto, orou sobre a água e com toda a sinceridade de sua fé no Senhor ordenou que a
derramassem nas lâmpadas. Feito também isto, por um poder maravilhoso e divino e contra toda
razão, a natureza da água mudou sua qualidade para a do azeite, e muitos dos irmãos que ali
estavam conservaram por longo tempo, desde então até nossos dias, um pouco daquele azeite
como prova do milagre de então.
4. Muitas outras coisas dignas de menção contam-se sobre a vida deste homem, entre elas também a
seguinte. Uns pobres homenzinhos, incapazes de suportar o vigor daquele e a constância de sua
vida, temerosos de serem presos e submetidos a castigo, pois eram conscientes de seus inúmeros
delitos, tomaram a dianteira e tramaram e espalharam uma calúnia terrível contra ele.
5. Assim, com o fim de assegurar-se da confiança dos ouvintes, confirmaram com juramento suas
acusações: um jurava para que o fogo o destruísse; outro para que uma enfermidade funesta
consumisse seu corpo, e um terceiro, para que seus olhos cegassem. Mas nem assim, nem mesmo
jurando, um só fiel prestou-lhes atenção, pela temperança de Narciso, que sempre brilhou ante
todos e por sua conduta virtuosa em tudo.
6. Ele, no entanto, não conseguindo relevar de forma alguma a maldade destas calúnias, e por outro
lado, estando há muito tempo em busca de uma vida filosófica, fugiu da multidão inteira da
igreja e passou muitos anos oculto em regiões desertas e recônditas.
7. Mas o grande olho da justiça tampouco permaneceu quieto ante tais abusos, mas a toda pressa
começou a perseguição daqueles ímpios com as mesmas desgraças com que se haviam ligado
perjurando contra si mesmos, pois o primeiro, sem nenhum motivo, simplesmente assim, tendo
caído uma fagulha na casa em que morava, incendiando-a completamente à noite, morreu
abrasado com toda a família; o outro se viu de repente com o corpo, desde a planta dos pés até a
cabeça, cheio daquela enfermidade com que ele mesmo se castigou de antemão;
8. e o terceiro, assim que viu o fim dos primeiros, tremendo ante a inelutável justiça de Deus que
tudo vê, fez confissão pública do que os três haviam tramado em comum. Em seu
arrependimento, consumia-se de tanto gemer e não cessava de chorar, tanto que chegou a perder os
dois olhos. Tais foram os castigos que sofreram estes por suas mentiras.