Livro 6 – Capítulo XIX História Eclesiástica

Quantas coisas se mencionam sobre Orígenes

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1. Outras testemunhas de seu êxito nestes estudos são, dentre os próprios gregos, aqueles filósofos

que floresceram em seu tempo e em cujas obras encontramos mencionado este homem muitas

vezes, umas porque lhe dedicaram suas próprias obras, e outras porque submetem-lhe o fruto de

seus próprios trabalhos, como a um mestre, para que os julgasse.

2. Mas, que necessidade há de dizer isto quando o próprio Porfírio, nosso contemporâneo,

estabelecido na Sicília, compôs umas obras contra nós423, tentando com elas caluniar as Sagradas

Escrituras e menciona os que as interpretaram? Não podendo de forma alguma levantar a menor

acusação por conta de nossas doutrinas e à falta de razões, volta-se contra os próprios intérpretes

para injuriá-los e caluniá-los, e mais especialmente a Orígenes.

3. Sobre este diz que o conheceu na primeira juventude e trata de caluniá-lo. No entanto, o que

realmente faz é recomendá-lo sem saber, seja dizendo a verdade ali onde não lhe era possível

dizer outra coisa, seja mentindo no que pensava que passaria despercebido, e então, algumas

vezes o acusa de cristão, e outras descreve sua entrega às ciências filosóficas.

4. Ouve pois o que diz textualmente:

"Alguns, em seu afã de encontrar, não o abandono, mas uma explicação da perversidade das

Escrituras judaicas, entregaram-se a umas interpretações que são incompatíveis e estão em

desacordo com o escrito, pelo que oferecem, mais do que uma apologia em favor do estranho, a

aceitação e louvor do mesmo. Efetivamente, as coisas que em Moisés estão ditas com claridade, eles

alardeiam que são enigmas e lhes dão um ar divino, como de oráculos cheios de ocultos mistérios,

e depois de enfeitiçar com o fumo de seu orgulho a faculdade crítica da alma, levam a cabo suas

interpretações."

5. Depois de mais algumas coisas, diz:

"Mas este gênero de absurdo eles receberam daquele varão com quem eu também tratei sendo

ainda muito jovem, que teve enorme reputação e que ainda a tem pelos escritos que deixou, de

Orígenes, digo, cuja glória se espalhou amplamente entre os mestres daquelas doutrinas.

6. Efetivamente, tendo sido ouvinte de Ammonio, que em nosso tempo foi o que mais progrediu em

filosofia, chegou a adquirir de seu mestre um grande aproveitamento para o domínio das ciências,

mas no que tange à reta orientação da vida empreendeu um caminho contrário ao de Ammonio.

7. De fato, Ammonio era cristão e seus pais o educaram nas doutrinas cristãs, mas quando entrou em

contato com o pensar e a filosofia, imediatamente converteu-se a um gênero de vida conforme

as leis. Orígenes, por outro lado, grego e educado nas doutrinas gregas, veio a dar na temeridade

própria dos bárbaros. Entregando-se a ela corrompeu-se e corrompeu seu domínio das ciências.

Quanto a sua vida, vivia como cristão e contra as leis. Quanto a suas opiniões sobre as coisas e

sobre a divindade, pensava como grego e introduzia o grego nas fábulas estrangeiras.

8. Porque ele vivia em trato contínuo com Platão e freqüentava as obras de Numenio, de Cronio, de

Apolofanes, de Longino, de Moderato, de Nicomaco e dos outros autores mais conspícuos dos

pitagóricos. Também usava os livros do estóico Queremon e de Comuto. Por eles conheceu a

interpretação alegórica dos mistérios dos gregos e a acomodou às Escrituras judias."

9. Isto diz Porfírio no livro terceiro dos que escreveu Contra os cristãos. Diz a verdade no que tange

à educação e à múltipla sabedoria de Orígenes, mas mente claramente (por que não haveria de

fazê-lo o adversário dos cristãos?) ao afirmar que este se converteu das doutrinas gregas, enquanto

que Ammonio caiu num gênero de vida gentio a partir de uma vida conforme a religião.

10. Efetivamente, Orígenes conservou vivos os ensinamentos cristãos que vinham de seus pais,

como é demonstrado pelas passagens precedentes desta história, e Ammonio manteve com firmeza

423 A obra de Porfírio em 15 livros Contra os cristãos foi perdida, assim como as respostas que suscitou.

puros e inatacáveis, inclusive até o fim de sua vida, os princípios da filosofia inspirada, como é

atestado de certa forma até hoje pelos trabalhos deste homem, famoso entre a maioria pelos

escritos que deixou, como por exemplo o intitulado Da harmonia entre Moisés e Jesus, e todos

os outros que se encontram em poder dos amantes do saber.

11. O que vimos dizendo fica pois como prova da calúnia deste mentiroso, e ao mesmo tempo do

múltiplo saber de Orígenes nas ciências dos gregos, sabemos do que ele mesmo escreve numa

carta defendendo-se contra alguns que o acusavam de seu zelo por aquelas ciências:

12. "Mas como eu me entregasse à doutrina, e a fama de nossa capacidade ia-se espalhando, e se

aproximavam de mim ora hereges, ora os que provinham das ciências gregas, sobretudo os

filósofos, determinei-me a examinar as opiniões dos hereges e o que proclamam os filósofos

acerca da verdade.

13. Isto fizemos imitando Panteno, aquele varão que antes de nós ajudou a tantos e que possuía não

pequena preparação naquelas ciências, e também a Heraclas, que agora ocupa um posto no

presbitério de Alexandria e a quem encontrei junto ao mestre das disciplinas filosóficas, com o

qual ele já tinha permanecido cinco anos, antes que eu começasse a ouvir suas lições.

14. Por causa do mestre despojou-se da roupa corrente que antes usava e adotou o uniforme dos

filósofos424, que ainda conserva até hoje, e não cessa de estudar nos livros dos gregos tudo o

que pode."

Isto é o que diz Orígenes em defesa de seu exercício na literatura grega.

15. Neste tempo, vivendo ele em Alexandria, apresentou-se-lhe um soldado que entregou umas

cartas a Demétrio, o bispo da comunidade, e ao governador do Egito de então, de parte do

governador da Arábia, com o fim de que a toda pressa enviassem Orígenes para que se

entrevistasse com ele. E Orígenes chegou à Arábia. Mas não muito depois, cumprido o objetivo

de sua ida, regressou outra vez a Alexandria.

16. Entretanto deu-se novamente na cidade uma não pequena guerra425, e Orígenes, saindo

ocultamente de Alexandria, foi à Palestina e residiu em Cesaréia. Aqui os bispos lhe pediram que

desse conferências e interpretasse as divinas Escrituras publicamente na igreja, apesar de que ainda

não havia recebido a ordenação de presbítero.

17. Que isto foi assim declaram as palavras de Alexandre, o bispo de Jerusalém, e Teoctisto, o de

Cesaréia, os quais, escrevendo sobre Demétrio, defendem-se como segue:

"Acrescenta em sua carta que isto jamais se ouviu, nem agora se faz, que preguem leigos

estando presentes os bispos. Eu não sei como diz o que evidentemente não é verdade,

18. porque onde quer que se encontrem homens com capacidade para trazer proveito aos irmãos, os

santos bispos os convidam a pregar ao povo. Como convidaram nossos bem-aventurados irmãos:

Néon e Evelpis em Laranda, Celso e Paulino em Iconio e Ático e Teodoro em Sinade. E

provável que também em outros lugares ocorra o mesmo, sem que nós o saibamos." Assim é que

o mencionado varão, ainda que jovem, era honrado não somente pelos compatriotas, mas também

pelos bispos do estrangeiro.

19. Pois bem, quando Demétrio o chamou novamente por carta e exigiu por meio de diáconos de sua

igreja que regressasse a Alexandria, depois de chegar, continuou cumprindo as tarefas

costumeiras.

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