1. Outras testemunhas de seu êxito nestes estudos são, dentre os próprios gregos, aqueles filósofos
que floresceram em seu tempo e em cujas obras encontramos mencionado este homem muitas
vezes, umas porque lhe dedicaram suas próprias obras, e outras porque submetem-lhe o fruto de
seus próprios trabalhos, como a um mestre, para que os julgasse.
2. Mas, que necessidade há de dizer isto quando o próprio Porfírio, nosso contemporâneo,
estabelecido na Sicília, compôs umas obras contra nós423, tentando com elas caluniar as Sagradas
Escrituras e menciona os que as interpretaram? Não podendo de forma alguma levantar a menor
acusação por conta de nossas doutrinas e à falta de razões, volta-se contra os próprios intérpretes
para injuriá-los e caluniá-los, e mais especialmente a Orígenes.
3. Sobre este diz que o conheceu na primeira juventude e trata de caluniá-lo. No entanto, o que
realmente faz é recomendá-lo sem saber, seja dizendo a verdade ali onde não lhe era possível
dizer outra coisa, seja mentindo no que pensava que passaria despercebido, e então, algumas
vezes o acusa de cristão, e outras descreve sua entrega às ciências filosóficas.
4. Ouve pois o que diz textualmente:
"Alguns, em seu afã de encontrar, não o abandono, mas uma explicação da perversidade das
Escrituras judaicas, entregaram-se a umas interpretações que são incompatíveis e estão em
desacordo com o escrito, pelo que oferecem, mais do que uma apologia em favor do estranho, a
aceitação e louvor do mesmo. Efetivamente, as coisas que em Moisés estão ditas com claridade, eles
alardeiam que são enigmas e lhes dão um ar divino, como de oráculos cheios de ocultos mistérios,
e depois de enfeitiçar com o fumo de seu orgulho a faculdade crítica da alma, levam a cabo suas
interpretações."
5. Depois de mais algumas coisas, diz:
"Mas este gênero de absurdo eles receberam daquele varão com quem eu também tratei sendo
ainda muito jovem, que teve enorme reputação e que ainda a tem pelos escritos que deixou, de
Orígenes, digo, cuja glória se espalhou amplamente entre os mestres daquelas doutrinas.
6. Efetivamente, tendo sido ouvinte de Ammonio, que em nosso tempo foi o que mais progrediu em
filosofia, chegou a adquirir de seu mestre um grande aproveitamento para o domínio das ciências,
mas no que tange à reta orientação da vida empreendeu um caminho contrário ao de Ammonio.
7. De fato, Ammonio era cristão e seus pais o educaram nas doutrinas cristãs, mas quando entrou em
contato com o pensar e a filosofia, imediatamente converteu-se a um gênero de vida conforme
as leis. Orígenes, por outro lado, grego e educado nas doutrinas gregas, veio a dar na temeridade
própria dos bárbaros. Entregando-se a ela corrompeu-se e corrompeu seu domínio das ciências.
Quanto a sua vida, vivia como cristão e contra as leis. Quanto a suas opiniões sobre as coisas e
sobre a divindade, pensava como grego e introduzia o grego nas fábulas estrangeiras.
8. Porque ele vivia em trato contínuo com Platão e freqüentava as obras de Numenio, de Cronio, de
Apolofanes, de Longino, de Moderato, de Nicomaco e dos outros autores mais conspícuos dos
pitagóricos. Também usava os livros do estóico Queremon e de Comuto. Por eles conheceu a
interpretação alegórica dos mistérios dos gregos e a acomodou às Escrituras judias."
9. Isto diz Porfírio no livro terceiro dos que escreveu Contra os cristãos. Diz a verdade no que tange
à educação e à múltipla sabedoria de Orígenes, mas mente claramente (por que não haveria de
fazê-lo o adversário dos cristãos?) ao afirmar que este se converteu das doutrinas gregas, enquanto
que Ammonio caiu num gênero de vida gentio a partir de uma vida conforme a religião.
10. Efetivamente, Orígenes conservou vivos os ensinamentos cristãos que vinham de seus pais,
como é demonstrado pelas passagens precedentes desta história, e Ammonio manteve com firmeza
423 A obra de Porfírio em 15 livros Contra os cristãos foi perdida, assim como as respostas que suscitou.
puros e inatacáveis, inclusive até o fim de sua vida, os princípios da filosofia inspirada, como é
atestado de certa forma até hoje pelos trabalhos deste homem, famoso entre a maioria pelos
escritos que deixou, como por exemplo o intitulado Da harmonia entre Moisés e Jesus, e todos
os outros que se encontram em poder dos amantes do saber.
11. O que vimos dizendo fica pois como prova da calúnia deste mentiroso, e ao mesmo tempo do
múltiplo saber de Orígenes nas ciências dos gregos, sabemos do que ele mesmo escreve numa
carta defendendo-se contra alguns que o acusavam de seu zelo por aquelas ciências:
12. "Mas como eu me entregasse à doutrina, e a fama de nossa capacidade ia-se espalhando, e se
aproximavam de mim ora hereges, ora os que provinham das ciências gregas, sobretudo os
filósofos, determinei-me a examinar as opiniões dos hereges e o que proclamam os filósofos
acerca da verdade.
13. Isto fizemos imitando Panteno, aquele varão que antes de nós ajudou a tantos e que possuía não
pequena preparação naquelas ciências, e também a Heraclas, que agora ocupa um posto no
presbitério de Alexandria e a quem encontrei junto ao mestre das disciplinas filosóficas, com o
qual ele já tinha permanecido cinco anos, antes que eu começasse a ouvir suas lições.
14. Por causa do mestre despojou-se da roupa corrente que antes usava e adotou o uniforme dos
filósofos424, que ainda conserva até hoje, e não cessa de estudar nos livros dos gregos tudo o
que pode."
Isto é o que diz Orígenes em defesa de seu exercício na literatura grega.
15. Neste tempo, vivendo ele em Alexandria, apresentou-se-lhe um soldado que entregou umas
cartas a Demétrio, o bispo da comunidade, e ao governador do Egito de então, de parte do
governador da Arábia, com o fim de que a toda pressa enviassem Orígenes para que se
entrevistasse com ele. E Orígenes chegou à Arábia. Mas não muito depois, cumprido o objetivo
de sua ida, regressou outra vez a Alexandria.
16. Entretanto deu-se novamente na cidade uma não pequena guerra425, e Orígenes, saindo
ocultamente de Alexandria, foi à Palestina e residiu em Cesaréia. Aqui os bispos lhe pediram que
desse conferências e interpretasse as divinas Escrituras publicamente na igreja, apesar de que ainda
não havia recebido a ordenação de presbítero.
17. Que isto foi assim declaram as palavras de Alexandre, o bispo de Jerusalém, e Teoctisto, o de
Cesaréia, os quais, escrevendo sobre Demétrio, defendem-se como segue:
"Acrescenta em sua carta que isto jamais se ouviu, nem agora se faz, que preguem leigos
estando presentes os bispos. Eu não sei como diz o que evidentemente não é verdade,
18. porque onde quer que se encontrem homens com capacidade para trazer proveito aos irmãos, os
santos bispos os convidam a pregar ao povo. Como convidaram nossos bem-aventurados irmãos:
Néon e Evelpis em Laranda, Celso e Paulino em Iconio e Ático e Teodoro em Sinade. E
provável que também em outros lugares ocorra o mesmo, sem que nós o saibamos." Assim é que
o mencionado varão, ainda que jovem, era honrado não somente pelos compatriotas, mas também
pelos bispos do estrangeiro.
19. Pois bem, quando Demétrio o chamou novamente por carta e exigiu por meio de diáconos de sua
igreja que regressasse a Alexandria, depois de chegar, continuou cumprindo as tarefas
costumeiras.