1. O que se refere a Dionísio vou apresentar tomando-o de sua Carta contra Germano, onde,
falando de si mesmo, conta o que segue: "Eu, de minha parte, também estou falando diante de
Deus e ele sabe se estou mentindo. Não empreendi a fuga baseado em mim mesmo e sem ajuda
de Deus,
2. "mas antes, declarada a perseguição de Décio, na mesma hora Sabino447 enviou um frumentário448
em busca de mim. Eu permaneci quatro dias em minha casa esperando a chegada do frumentário,
mas ele andou dando voltas esquadrinhando tudo, os caminhos, os rios, os campos, onde ele
suspeitava que eu me ocultava ou andava; mas estava afetado de cegueira e não encontrava a casa,
pois não acreditava que eu, sendo perseguido, permanecesse em casa.
3. E somente depois do quarto dia, porque Deus me ordenava trasladar-me e milagrosamente nos
446 Parece portanto que Orígenes sobreviveu aos tormentos da perseguição, ainda que mortalmente ferido.
Infelizmente todas estas cartas se perderam.
447 Prefeito do Egito.
448 Originalmente um intendente militar, nessa época um tipo de investigador ou espião.
abria caminho, saímos juntos eu e meus filhos449 e muitos irmãos. E que isto foi obra da providência
de Deus é provado pelos acontecimentos exteriores em que por acaso fomos de proveito para
alguns".
4. Logo, depois de interpor alguma outra coisa, manifesta o que lhe aconteceu depois de sua fuga,
acrescentando o que segue:
"Eu, de minha parte, até o pôr-do-sol, caí efetivamente nas mãos dos soldados, junto com meus
acompanhantes, e fui conduzido a Taposiris, enquanto que Timóteo450, pela providência de Deus,
por acaso não se achava presente e não foi detido. Quando regressou mais tarde, encontrou a casa
deserta e alguns servidores guardando-a, e quanto a nós, soube que nos tinham capturado."
5. E depois de outras coisas diz:
"E qual foi a forma de sua admirável disposição providencial? Porque há que se dizer a
verdade. Um camponês saiu ao encontro de Timóteo, que fugia perturbado, e perguntou-lhe a
causa daquela precipitação.
6. Este lhe disse a verdade, e aquele, quando o ouviu (ia a um banquete de bodas, pois têm o
costume de passar toda a noite em semelhantes ocasiões), não fez mais que entrar e contá-lo aos
que estavam à mesa. Todos eles, como a um sinal convencionado e por impulso unânime,
puseram-se em pé e a toda pressa logo chegaram; caíram sobre nós com grande gritaria e, tendo
fugido os soldados que nos guardavam, acercaram-se de nós como estávamos, largados sobre
uns estrados sem cobertores.
7. Eu então - sabe Deus que na hora os tomei por salteadores vindos para roubar e pilhar -
permaneci no leito, desnudo como estava, com a simples camisa de linho, e as demais roupas
que estavam junto de mim eu lhas oferecia. Mas eles nos ordenaram levantar-nos e sair a toda
pressa.
8. Então compreendi por que estavam ali e comecei a gritar pedindo-lhes e suplicando-lhes que
fossem e nos deixassem e, se queriam fazer algo proveitoso, eu lhes rogava que se antecipassem
aos que me conduziam e que eles mesmos me cortassem a cabeça. E enquanto eu dizia isto a
gritos, como sabem meus companheiros e co-partícipes de toda esta peripécia, levantaram-nos à
força. Eu então me joguei de costas ao chão, mas eles, agarrando-me pelas mãos e pelos pés
tiraram-me arrastado.
9. Seguiam-me as testemunhas de tudo isto: Caio, Fausto, Pedro, Paulo, os quais puxando-me às
pressas, tiraram-me do povoado, e fazendo-me montar em pelo sobre um asno, levaram-me."
Isto conta Dionísio sobre si mesmo.