Livro 6 – Capítulo XLI História Eclesiástica

Dos que sofreram martírio na mesma Alexandria

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1. E ele mesmo, em sua carta a Fábio, bispo de Antioquia, narra como segue os combates dos que

sofreram martírio em Alexandria sob Décio: "Entre nós a perseguição não começou pelo edito

imperial, mas antecipou-se um ano inteiro. Tomando a dianteira nesta cidade o adivinho e autor

de males, quem quer este fosse, agitou e excitou contra nós as turbas de pagãos reavivando seu

zelo pela superstição do país.

2. Excitados por ele e tomando toda liberdade para sua ímpia obra, começaram a pensar que

somente era religião este ato de culto demoníaco: assassinar-nos.

3. O primeiro a quem lançaram mão foi um velho chamado Metras; intimaram-no a dizer palavras

ímpias, e como ele não obedecia, bateram-no por todo o corpo e espetaram seu rosto e seus olhos

com varas pontiagudas; levaram-no ao arraial e ali o apedrejaram.

4. Depois foi uma mulher crente, chamada Quinta; conduziram-na ao templo dos ídolos e queriam

forçá-la a adorar, mas como ela se virou horrorizada, ataram-lhe os pés e a arrastaram por toda a

cidade sobre o áspero calçamento, batendo contra as lajes enquanto a açoitavam, e voltando ao

mesmo lugar, apedrejaram-na.

5. Em seguida todos de uma vez lançaram-se contra as casas dos fiéis, e caindo sobre os que cada um

449 Pode referir-se a filhos assim como a alunos ou aos criados.

450 O filho de Dionísio, a que dedicou sua obra Sobre a natureza.

conhecia, seus vizinhos, levavam-nos e se entregavam ao saque e à pilhagem. Separando para si os

objetos mais valiosos e jogando os mais vulgares e feitos de madeira para queimá-los nas ruas,

ofereciam o espetáculo de uma cidade tomada por inimigos.

6. Quanto aos irmãos, deixavam-nos fazer, retiravam-se às escondidas e aceitavam com alegria o

roubo de seus bens, assim como aqueles de quem Paulo deu testemunho451. E não sei de nenhum

até agora que tenha renegado o Senhor, a não ser, talvez, um que caiu em suas mãos.

7. Mas ainda há mais; prenderam também então a anciã Apolonia, virgem admirável. Ao golpeá-la

nas faces fizeram saltar-lhe todos os dentes, e erguendo uma fogueira diante da cidade,

ameaçaram queimá-la viva se não proferisse, junto com eles, os votos da impiedade. Ela então

pediu um pequeno espaço e, uma vez solta, lançou-se de um forte salto ao fogo e ficou

completamente queimada.

8. Serapion foi preso em casa, e depois de maltratá-lo com duros tormentos e torcer-lhe todos os

membros, lançaram-no de cabeça do andar superior. Nem por caminhos, nem por trilhas, nem

pelas ruas podíamos transitar, nem de noite nem de dia, sem que a toda hora e em toda parte

gritassem que quem não cantasse as palavras blasfemas devia ser arrastado e queimado.

9. Este estado de coisa se manteve assim por muito tempo, mas depois que a revolta se apoderou

dos miseráveis e a guerra civil452 voltou contra eles mesmos a crueldade que antes empregavam

contra nós, pudemos por fim respirar um pouco aproveitando sua falta de tempo para se irritarem

contra nós. Mas em seguida anunciou-se a troca daquele reinado, tão favorável para nós, e

espalhou-se um grande temor pelo que nos ameaçava.

10. E assim é que ali estava o edito, quase idêntico ao previsto por nosso Senhor, o mais terrível ou

pouco menos, tanto que, sendo possível, até os próprios eleitos tropeçariam453.

11. Certo é que estavam todos aterrados, e muitos dos mais conspícuos, uns compareciam logo,

mortos de medo; outros, com cargos públicos, viam-se levados por suas próprias funções, e

outros eram arrastados pelos amigos. Chamados pelo nome, aproximavam-se dos impuros e

profanos sacrifícios, pálidos e trêmulos, como se não fossem sacrificar, mas serem eles mesmos

sacrifícios e vítimas para os ídolos, tanto que o numeroso público que os rodeava zombava

deles, pois era evidente que para tudo eram uns covardes, para morrer e para sacrificar;

12. Alguns outros, por outro lado, corriam mais resolutos aos altares e levavam sua audácia ao ponto

de sustentar que jamais anteriormente tinham sido cristãos. A eles se refere a muito verdadeira

pregação do Senhor: que dificilmente se salvarão454. Dos restantes, uns seguiam a um ou outro dos

grupos mencionados, e os outros fugiam.

13. Quanto aos que foram presos, alguns, depois de terem chegado até as correntes e ao cárcere -

alguns inclusive estiveram encerrados vários dias -, logo renegaram, ainda antes de chegar ao

tribunal, e outros, depois de se manterem firmes algum tempo nos tormentos, negaram-se a seguir

adiante.

14. Mas os sólidos e abençoados pilares do Senhor, fortalecidos por ele e com uma força e

constância adequadas e dignas de sua fé robusta, converteram-se em testemunhos admiráveis de

seu reino.

15. O primeiro deles, Juliano, um homem sofrendo de gota, incapaz de ficar em pé ou de caminhar,

que foi conduzido junto com outros dois que o levavam; um destes renegou em seguida, enquanto

que o outro, chamado Cronion e apelidado Eunus, assim como o próprio ancião Juliano,

confessaram o Senhor, e depois de serem levados sobre camelos por toda a cidade, que eram

enorme, como sabeis, enquanto os açoitavam lá em cima, por último, com todo o povo

acotovelando-se em torno, queimaram-nos com cal viva.

16. E um soldado que os escoltava quando eram conduzidos ao suplício enfrentou-se com os que

lançavam seus insultos, mas eles puseram-se a gritar, e o valentíssimo campeão de Deus, Besas,

451 Hb 10:34.

452 Possivelmente uma extensão da disputa entre Décio e Felipe, antes de seu desenlace anunciado no fim do

parágrafo.

453 Mt 24:8-10; 24:24.

454 Mt 19:23; Mc 10:23; Lc 18:24.

foi conduzido ao tribunal, de depois de sobressair no grande combate pela religião, foi

decapitado.

17. E outro ainda, de nacionalidade líbia, e verdadeiro Mácar por seu nome e por bênção divina455,

como o juiz insistisse em exortá-lo a renegar, não se deixou seduzir, e o queimaram vivo. E depois

destes, Epímaco e Alexandre, que depois de ficarem presos longo tempo sofrendo incontáveis

sofrimentos de ganchos e açoites, foram também metidos em cal viva.

18. E com estes, quatro mulheres. A Ammonaria, uma santa virgem, o juiz mandou torturá-la com

toda sanha e força por ter feito constar de antemão que não diria uma só palavra que ele

ordenasse, e como ela cumprisse a promessa, conduziram-na ao suplício. Quanto às outras, a

venerável anciã Mercuria, e Dionisia, mãe de muitos filhos, aos quais, no entanto, não amou mais

do que ao Senhor, sentindo-se o juiz envergonhado ante a ineficácia de suas torturas, e para não

ser vencido por umas mulheres, fez com que morressem pela espada e não provassem mais

tormentos; de fato Ammonaria os tinha suportado por todas elas, como um paladino seu.

19. Foram entregues também os egípcios456 Heron, Ater e Isidoro, e com eles um rapaz de uns quinze

anos chamado Dióscoro. Primeiramente o juiz tentou seduzir o rapaz com palavras, pensando ser

fácil de enganar, e forçá-lo com tormentos pensando ser fácil de ceder, mas Dióscoro nem se deixou

persuadir nem cedeu.

20. Aos outros dilacerou ferozmente, e como seguissem firmes, também os entregou ao fogo. A

Dióscoro, por outro lado, deixou seguir livre, admirado de como havia-se coberto de glória ante o

público e que sábias respostas dera em seu próprio interrogatório, e disse que lhe dava aquela

prorrogação para que se arrependesse. E agora, o divino Dióscoro está conosco, reservado para um

combate mais longo e trabalhos mais duradouros.

21. E um tal Nemesion, também egípcio, foi injustamente acusado de viver com ladrões, e quando

conseguiu desfazer tão absurda calúnia ante o Centurião, foi denunciado como cristão e veio

acorrentado ante o governador. Este, muito injusto, maltratou-o com tormentos e açoites em

quantidade dobrada da dos bandidos, e entre bandidos fez queimar o bem-aventurado, que assim

via-se honrado com o exemplo de Cristo.

22. Todo um piquete de soldados: Ammon, Zenon, Ptolomeu e Ingenes, e com eles um ancião,

Teófilo, achava-se de pé diante do tribunal. Estava-se julgando um homem por ser cristão, e quando

ele ia se inclinando para a apostasia, aqueles, que estavam presentes, começaram a rilhar os dentes e

faziam sinais com a cabeça, estendiam as mãos e gesticulavam com todo o corpo.

23. Todos se viraram para eles, e então, antes que os prendessem por outros motivos, eles mesmos

se adiantaram correndo para o estrado dizendo que eram cristãos, com isto tanto o governador

como seus assessores encheram-se de medo e parecia que, enquanto os réus se mostravam

animadíssimos com o que iam padecer, os juízes se acovardavam. E assim aqueles soldados saíram

em triunfo do tribunal transbordantes de alegria por seu testemunho: Deus os fazia triunfar

gloriosamente.

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