1. Nas Hypotyposeis, para resumir, Clemente dá algumas explicações precisas da Escritura
testamentária inteira, sem omitir os escritos discutidos, quero dizer, a Carta de Judas e as
demais Cartas católicas, assim como a Carta de Barnabé e o chamado Apocalipse de Pedro.
2. Diz também que a Carta aos Hebreus é certamente de Paulo, mas que foi escrita em língua
hebraica para os hebreus, sendo que Lucas a traduziu cuidadosamente e a editou para os gregos;
daí que se encontre o mesmo colorido no estilo desta carta e nos Atos.
3. E acrescenta que é natural que a expressão "Paulo apóstolo" não esteja escrita no cabeçalho,
"porque - diz - como escrevia aos hebreus, que tinham prevenção contra ele e dele suspeitavam,
com absoluta prudência não quis espantá-los já no início pondo seu nome".
4. E um pouco abaixo acrescenta:
"Pois bem, como dizia o bem-aventurado presbítero, posto que o Senhor, apóstolo do Todo-
Poderoso, foi enviado aos hebreus, Paulo, que o havia sido dos gentios, por modéstia não se
intitulou apóstolo dos hebreus, e ao mesmo tempo por deferência para com o Senhor e porque,
apesar de ser arauto e apóstolo dos gentios, escreve em anexo também uma carta aos hebreus."
5. Nos mesmos livros Clemente ainda inseriu, sobre a ordem dos Evangelhos, uma tradição recebida
dos antigos presbíteros, que é como segue. Dizia que dos Evangelhos escreveram-se primeiro os
que contêm as genealogias417;
6. que o Evangelho de Marcos teve a seguinte origem: estando Pedro em Roma pregando
publicamente a doutrina e explicando o Evangelho pelo Espírito, os que estavam presentes – e
eram muitos - exortaram Marcos, já que este o seguia há muito tempo e recordava-se do que
havia dito, a que o pusesse por escrito. Depois que o fez distribuiu o Evangelho a todos que o
pediam.
7. Ao saber Pedro disto, não o impediu nem o estimulou. Quanto a João, o último, sabendo que o
corpóreo já estava exposto nos Evangelhos, estimulado por seus discípulos e inspirado pelo
sopro divino do Espírito, compôs um Evangelho espiritual. Isto refere Clemente.
8. E novamente o supracitado Alexandre, em certa carta a Orígenes, faz por sua vez menção a
Clemente e a Panteno como a homens conhecidos seus. Escreve assim:
"Porque também isto foi - como sabes - vontade de Deus, que a amizade que provinha de nossos
pais418 permanecesse inviolável; e mais, que fosse mais quente e mais firme;
9. "efetivamente, reconhecemos como pais aqueles bem-aventurados que nos precederam no
caminho e com os quais estaremos dentro em pouco: Panteno, o verdadeiramente bem-aventurado
e senhor, e o santo Clemente, que foi meu senhor e me ajudou, e algum outro, se o há. Por meio
deles conheci a ti, que em tudo és o melhor e senhor e irmão meu".
E assim estão as coisas.
10. Quanto a Adamancio (pois também este nome tinha Orígenes)419, ele mesmo escreve em alguma
parte que residiu em Roma no tempo em que Zeferino estava à frente da igreja dos romanos. Diz:
"Desejando ver a antiquíssima igreja dos romanos..." Depois de passar ali muito pouco tempo,
11. regressou a Alexandria, e ali continuava com toda sua diligência as tarefas costumeiras de
instrução catequética. Demétrio, bispo do lugar, então ainda o animava e quase suplicava que fosse
diligente em dar proveito a seus irmãos.