Livro 6 – Capítulo II História Eclesiástica

Da educação de Orígenes desde menino

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1. Muitas coisas poderia dizer, na verdade, quem tentasse colocar por escrito a seu gosto a vida

deste homem, mas dispor ordenadamente o que a ele diz respeito exigiria inclusive uma obra

especial399. Mesmo assim, nós resumiremos por enquanto com a brevidade possível a maior parte

e exporemos sobre ele somente algumas coisas, tomando dos dados de algumas cartas e do relato

dos discípulos que sobreviveram até nossos dias.

2. Sobre Orígenes, mesmo os fatos de quando usava fraldas, por assim dizer, parecem-me dignos

de menção. Seguia Severo pelo décimo ano de seu reinado, e Leto governava Alexandria e o

resto do Egito. O episcopado das igrejas dali acabara de passar a Demétrio, sucedendo a

Juliano400.

3. Ao acender-se pois, com a maior violência a fogueira da perseguição e sendo inumeráveis os

que se cingiam com a coroa do martírio, tal foi a paixão do martírio que se apoderou da alma de

Orígenes, ainda um menino, que ardia para lançar-se de encontro aos perigos e pular e jogar-se à

luta.

4. Muito pouco faltou, na verdade, para que a morte se aproximasse, não fosse pela divina e celestial

providência que, em proveito da grande maioria e por meio de sua mãe, se interpôs como

obstáculo ao seu zelo.

5. Ela primeiramente rogou-lhe com palavras, exortando-o a ter consideração por suas disposições

maternais para com ele, mas quando o viu terrivelmente excitado, todo ele preso pelo desejo do

martírio ao saber que seu pai tinha sido preso e encarcerado, escondeu todas suas roupas e assim

obrigou-o a permanecer em casa.

6. Mas ele, não podendo fazer outra coisa e sendo-lhe impossível dar sossego a um zelo que excedia

sua idade, enviou a seu pai uma carta muito estimulante sobre o martírio, na qual o animava

dizendo textualmente: "Cuida-te, não aconteça que por nossa causa mudes de parecer." Fique

isto consignado por escrito como primeiro indício da agudeza de pensamento do menino

Orígenes e de sua nobilíssima disposição para a religião.

7. E efetivamente, tendo-se exercitado já desde pequeno nas divinas Escrituras, tinha já lançados não

pequenos fundamentos para as doutrinas da fé. Também nestas tinha se ocupado sem medida, pois

seu pai, antes do ciclo de estudos comum a todos, fez com que sua preocupação por elas não fosse

secundária.

8. Em conseqüência, antes de ocupar-se das disciplinas helênicas, em toda ocasião o introduzia a

exercitar-se nos estudos sagrados, exigindo-lhe cada dia passagens de memória e relações

escritas.

9. Estes exercícios não desagradavam o menino, antes até, empenhava-se neles com ardor excessivo,

ao ponto de que, não se contentando com os sentidos simples e óbvios das Escrituras Sagradas, já

desde então buscava algo mais e investigava visões mais profundas, de forma que chegava a pôr

em apuros seu pai perguntando-lhe o que queria significar o sentido da Escritura divinamente

398 A fama do filho deu nome ao pai.

399 Esta obra existiu: a Apologia de Orígenes, composta por Panfilo e Eusébio, da qual só nos resta uma tradução

latina do primeiro livro.

400 Eusébio equivoca-se aqui, Demétrio já estava há doze ou treze anos no episcopado.

inspirada.

10. Este aparentava repreendê-lo abertamente, exortando-o a não indagar nada que excedesse sua

idade nem mais adiante do sentido evidente, mas no seu íntimo regozijava-se enormemente e

proclamava perante Deus, autor de todo bem, seu maior agradecimento por tê-lo feito digno de ser

pai de tal filho.

11. E conta-se que muitas vezes, pondo-se junto ao menino que dormia, desnudava-lhe o peito

como se dentro dele habitasse um espírito divino, beijava-o com referência e se considerava feliz

por seu nobre rebento. Estas coisas e outras do mesmo estilo recordam-se sobre a infância de

Orígenes.

12. Quando seu pai morreu mártir, ele ficou só com sua mãe e seis irmãos menores, quando ainda

não contava mais de dezessete anos401.

13. A fazenda paterna foi confiscada pelo tesouro imperial, e ele com os seus encontrou-se em

indigência das coisas necessárias para a vida. Mas foi considerado digno da providência divina

e encontrou proteção além de tranqüilidade em uma senhora riquíssima em meados da vida e muito

distinta, mas que rodeava de atenções um homem muito conhecido, um dos hereges que então

havia em Alexandria. Este era antioquenho de origem, e a mencionada senhora tinha-o consigo

como filho adotivo e rodeava-o das maiores honras.

14. Mas Orígenes, que por necessidade estava habitualmente com ele, já desde aquela idade dava

provas claras de sua ortodoxia na fé, pois ainda que uma multidão incontável, não apenas de

hereges, mas também dos nossos, se reunia junto a Paulo (assim se chamava o homem), porque

lhes parecia eloqüente, jamais se conseguiu que o acompanhasse na oração, guardando desde

menino a regra de Igreja e abominando - como diz textualmente sobre si mesmo em alguma

parte - os ensinamentos das heresias. 15. Previamente iniciado por seu pai nas disciplinas dos

gregos, depois da morte deste entregou-se por inteiro com maior zelo ao estudo das letras, de

forma que, não muito depois da morte do pai, tinha já uma preparação suficiente em

conhecimentos gramaticais. Com sua entrega a estes estudos procurava em abundância - para sua

idade - o que era necessário402.

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