Livro 5 História Eclesiástica — Teodoreto de Ciro

Capítulo 16: De Anfíloco, bispo de Icônio

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No retorno do imperador, o admirável Anfíloco, de quem já me referi diversas vezes, veio suplicar que as congregações arianas fossem expulsas das cidades. O imperador considerou o pedido demasiado severo e o recusou. O sábio Anfíloco, naquele momento, permaneceu em silêncio, pois havia concebido uma estratégia memorável. Na vez seguinte em que entrou no palácio e viu, ao lado do imperador, seu filho Arcádio, que havia sido recentemente nomeado imperador, saudou Teodósio como era seu costume, mas não prestou qualquer homenagem a Arcádio. O imperador, pensando que essa negligência se devia a um esquecimento, ordenou a Anfíloco que se aproximasse e saudasse seu filho. "Senhor", disse ele, "a honra que lhe prestei já é suficiente". Teodósio indignou-se com a descortesia e disse: "Uma desonra para com meu filho é uma afronta a mim mesmo". Então, e somente então, o sábio Anfíloco revelou o objetivo de sua conduta e disse em voz alta: “Vês, senhor, que não toleras a desonra feita ao teu filho e te indignas profundamente com aqueles que lhe são rudes. Acredita, então, que o Deus de todo o mundo abomina aqueles que blasfemam contra o Filho Unigênito e os odeia por serem ingratos ao seu Salvador e Benfeitor.”

Então o imperador compreendeu a intenção do bispo e admirou tanto o que ele havia feito quanto o que havia dito. Sem mais demora, ele promulgou um édito proibindo as congregações de hereges.

Mas escapar de todas as armadilhas do inimigo comum da humanidade não é tarefa fácil. Muitas vezes acontece que aquele que se manteve afastado da paixão lasciva se vê preso às armadilhas da avareza; e se ele se mostrar superior à ganância, do outro lado está a armadilha da inveja, e mesmo que salte ileso por cima dela, encontrará uma rede de paixão à sua espera do outro lado. Inúmeros outros obstáculos o inimigo coloca no caminho dos homens, tentando apanhá-los para a sua ruína.

Então, ele dispõe das paixões corporais para auxiliar as artimanhas que emprega contra a alma. Somente a mente, se permanecer desperta, leva a melhor sobre ele, frustrando o ataque de seus planos por sua inclinação ao Divino. Ora, como este admirável imperador tinha sua parcela de natureza humana e não estava livre de suas emoções, sua justa ira ultrapassou os limites da moderação e causou a perpetração de um ato selvagem e ilegal. Devo contar esta história por aqueles a quem ela chegará; ela não envolve, de fato, apenas a culpa do admirável imperador, mas também o glorifica de tal forma que merece ser lembrada.

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