Livro 7 – Capítulo XXXII História Eclesiástica

Dos varões eclesiásticos que se distinguiram em nosso tempo e quais deles viveram até o ataque às igrejas

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1. Por este tempo, havendo Félix presidido a igreja de Roma durante cinco anos, sucede-o

Eutiquiano. Este, que não sobreviveu dez meses inteiros, deixou o cargo a Caio, contemporâneo

nosso, e havendo este exercido a presidência uns quinze anos, institui-se como sucessor

Marcelino, a quem também arrebatará a perseguição.

2. E por estas datas regia o episcopado de Antioquia, depois de Domno, Timeu, a quem sucedeu

Cirilo, contemporâneo nosso. De seu tempo conhecemos Doroteu, varão douto e julgado digno

do presbiterado de Antioquia. Este foi um amante das coisas divinas e exercitou-se na língua

hebraica, tanto que até podia ler e compreender as próprias escrituras hebréias.

3. Ele não era alheio aos estudos mais liberais, nem à instrução preliminar dos gregos, e além disto era

eunuco por natureza, feito assim já desde seu próprio nascimento, de maneira que o imperador

honrou-o com a administração da tinturaria de púrpura de Tiro.

4. A este escutamos explicar as Escrituras com sapiência na igreja. E depois de Cirilo o episcopado

da igreja de Antioquia foi recebido em sucessão por Tirano, em cujos dias o ataque às igrejas

alcançou o cume.

5. Já a igreja de Laodicéia, depois de Sócrates, foi governada por Eusébio, oriundo da cidade de

Alexandria. A causa de sua emigração foi o assunto referente a Paulo. Por causa deste subiu à

Síria, e os que nela se ocupavam das coisas de Deus impediram-no de voltar a sua casa. Para

nossos contemporâneos foi um exemplo amável de religião, como facilmente se descobre nas

expressões de Dionísio anteriormente citadas.

6. Foi instituído como seu sucessor Anatolio, um bom que, como se diz, sucede a outro bom.

Também era alexandrino de origem, e por seus estudos, por sua educação grega e por sua

filosofia alcançou os primeiros postos entre os mais ilustres de nossos contemporâneos, já que

avançou até o cume da aritmética, da geometria, da astronomia e de toda especulação teórica, da

dialética como da física, assim como da retórica. Por esta causa, como quer uma tradição, os

cidadãos de Alexandria o consideraram digno de organizar ali a escola da sucessão de Aristóteles.

7. Recordam-se, pois, dele, inúmeras outras façanhas de quando houve o sítio do Piruquío558, já que

todas as autoridades o consideravam digno de um privilégio especial; mas eu só vou mencionar,

como demonstração, o seguinte.

8. Dizem que, faltando o trigo aos sitiados, a ponto de que a fome lhes era mais insuportável do

que os inimigos de fora, o mencionado Anatolio, que se achava presente, tomou as seguintes

disposições. Como a outra parte da cidade estava aliada ao exército romano e não se encontrava

sitiada, Anatolio enviou uma mensagem a Eusébio, que se encontrava entre os não sitiados (de

fato ainda estava ali, antes de sua emigração para a Síria) e cuja glória e famoso nome haviam

chegado até o general em chefe dos romanos, e informou-o dos que pereciam de fome ao largo

do assédio.

9. Este, assim que o soube, pediu ao general romano, como um enorme favor, que garantisse a

segurança aos desertores do campo inimigo. E quando conseguiu sua petição, fê-lo saber a

Anatolio. Este, imediatamente depois de receber a promessa, reuniu o conselho dos alexandrinos.

Começou pedindo a todos que oferecessem sua destra aos romanos em sinal de amizade, mas

assim que viu que sua promessa os enfurecia, disse: "Mesmo assim, creio que ao menos nisto

não me sereis contrários, se vos aconselhar a pôr para fora das portas pelo menos as pessoas

supérfluas e absolutamente inúteis, anciãs, crianças e anciãos, e que se vão para onde queiram. Por

que vamos tê-los entre nós inutilmente se não for já para morrer? E para que estamos esgotando

pela fome os enfermos e quebrantados de corpo, já que nos é necessário alimentar apenas aos

homens e aos jovens, e reservar o trigo necessário para os que são capazes de guardar a

cidade?"

10. Com tais arrazoados conseguiu persuadir o conselho, e levantando-se o primeiro, votou um

decreto: despedir da cidade todo aquele que não fosse apto para o serviço militar, homem ou

558 Bairro mais importante de Alexandria.

mulher, já que não havia esperança de salvação para os que ficassem na cidade e nela passassem

o tempo sem utilidade alguma, pois morreriam de fome.

11. E deste modo, quando todos os demais do conselho emitiram o mesmo voto, faltou muito pouco

para que salvassem a todos os sitiados. Preocupou-se de que primeiro fugissem os que procediam

da igreja, e logo também os demais que estavam na cidade, de qualquer idade que fossem. E não

somente dos que caíam dentro do decreto, mas também, com o pretexto destes, muitos outros que,

secretamente disfarçados de mulher e por cuidado daquele, saíam à noite das portas e lançava-se ao

exército romano. Ali Eusébio recebia a todos, e como um pai e médico, com todo tipo de

providências e de cuidados, restaurava os maltratados pelo longo assédio.

12. De tais pastores foi digna a igreja de Laodicéia, onde os dois se sucederam depois que emigraram

para lá desde a cidade de Alexandria, com a ajuda da providência divina, ao terminar a

mencionada guerra.

13. Na verdade não são muitas as obras compostas por Anatólio, mas chegaram a nós as suficientes

para poder perceber através delas sua eloqüência e sua grande erudição. Nelas apresenta sobretudo

suas opiniões acerca da Páscoa, das quais quiçá seja necessário mencionar na presente obra o

seguinte: Extrato dos Cânones de Anatólio sobre a Páscoa.

14. "Toma pois no primeiro ano o novilúnio do primeiro mês, que é o começo do período de

dezenove anos, o 26 de Famenoz segundo os egípcios, o 22 de Distro, segundo os meses dos

macedônios e, como diriam os romanos, o undécimo antes das calendas de abril.

15. O sol encontra-se no mencionado dia 26 de Famenoz, não apenas entrado no primeiro segmento,

mas no quarto dia de sua passagem por ele. Costuma-se chamar este segmento o primeiro

dodecatemórion, equinócio, começo dos meses, cabeça do ciclo e largada do curso dos planetas.

O que o precede é o último dos meses, o duodécimo seguinte, último dodecatemórion e final do

curso dos planetas. Por isso dizemos que erram muito e gravemente os que situam nele o primeiro

mês, e em conseqüência, tomam o décimo quarto dia como o dia da Páscoa.

16. Não é esta nossa doutrina; mas os judeus antigos já a conheciam, inclusive de antes de Cristo, e a

guardavam com todo esmero. Pode-se saber pelo que disseram Fílon, Josefo e Museo, e não

somente estes, mas também os que são mais antigos, os dois Agatóbulos, conhecidos como os

mestres de Aristóbulo, o famoso, que foi dos Setenta que traduziram para Ptolomeu Filadelfo e

para o pai deste as sagradas e divinas Escrituras559 dos hebreus e dedicou aos próprios reis livros

de exegese da lei de Moisés.

17. Estes, ao resolverem os problemas do Êxodo, dizem que todos devem sacrificar a Páscoa por

igual, depois do equinócio de primavera, em meados do primeiro mês, e isto se encontra quando

o sol atravessa o primeiro segmento da elíptica solar ou - como alguns deles a nomeiam - do

zodíaco. Por sua parte, Aristóbulo acrescenta que na festa da Páscoa não somente o sol, mas

também a lua, deve forçosamente atravessar o segmento equinocial,

18. porque, sendo os dois segmentos equinociais - um da primavera e outro do outono -,

diametralmente opostos entre si, e dado que o dia da festa pascal é o décimo quarto do mês, à

tarde, a lua tomará a posição diametralmente oposta com respeito ao sol, como efetivamente se

pode ver nos plenilúnios; e então o sol estará no segmento equinocial da primavera, e a lua,

forçosamente, no segmento equinocial do outono.

19. Sei que estes homens disseram também muitas outras coisas, ora verossímeis, ora avançadas,

conforme rigorosas demonstrações, por meio das quais tentavam estabelecer que a festa da

Páscoa e dos ázimos deveria a todo custo ser celebrada depois do equinócio. Mas eu passo por

alto pedir tais materiais de demonstração a aqueles para os quais o véu que cobria a lei de Moisés

foi retirado e adiante já podem contemplar sempre com o rosto descoberto a Cristo e os

ensinamentos e os sofrimentos de Cristo560. Agora bem, que entre os hebreus o primeiro mês cai

em torno do equinócio, dão a entender até os ensinamentos do livro de Enoque."

20. E ele mesmo deixou também umas Introduções aritméticas em dez livros inteiros, e outras

provas de seu estudo assíduo e grande experiência das coisas divinas.

559 Trata-se de Ptolomeu Filométor e não de Ptolomeu Filadelfo.

560 2 Co 3:15-18.

21. O bispo de Cesaréia da Palestina, Teotecno, foi o primeiro que lhe impôs as mãos para o

episcopado, buscando de antemão procurar para sua igreja um sucessor seu para depois da morte.

E, efetivamente, por breve espaço de tempo ambos presidiram a mesma igreja, mas tendo sido

chamado a Antioquia pelo concilio reunido contra Paulo, ao passar pela cidade de Laodicéia, os

irmãos dali retiveram-no em seu poder, por ter morrido Eusébio.

22. Mas tendo partido desta vida também Anatólio, nomeia-se Estevão, último bispo daquela igreja

antes da perseguição. Admirado por muitos em razão de suas doutrinas filosóficas e de toda sua

cultura grega, não tinha, porém, as mesmas disposições a respeito da fé divina, como demonstrou o

transcurso da perseguição, que pôs a descoberto o homem solapado, covarde e pouco viril, mais

que o verdadeiro filósofo.

23. Mas não por isso iria a igreja arruinar-se; antes o próprio Deus e salvador de todos a

restabeleceu, fazendo que imediatamente se proclamasse bispo daquela igreja a Teodoto, um

homem que com suas próprias obras tornava realidade o que seu nome e o de bispo significam561.

Efetivamente, em primeiro lugar destacava-se na ciência que cura os corpos; mas na terapêutica

das almas não teve igual, por seu amor aos homens, sua nobreza, sua compaixão e seu zelo em

ser útil aos que necessitavam dele. Também havia se exercitado muito no que tange aos

ensinamentos divinos.

Assim era Teodoto.

24. Em Cesaréia da Palestina, Teotecno, que havia exercido com toda solicitude seu episcopado, é

sucedido por Agapio, de quem sabemos que lutou muito, despendendo a mais generosa

providência na proteção do povo e cuidando de todos com mão abundante, especialmente dos

pobres.

25. Em seu tempo conhecemos a Panfilo, homem muito distinto, verdadeiro filósofo por sua própria

vida e considerado digno do presbiterado da comunidade local. Não seria um tema pequeno

mostrar quem era e de onde procedia, mas cada aspecto de sua vida e da escola que ele constituiu,

assim como seus combates em diferentes confissões quando da perseguição e a coroa do martírio

que se cingiu ao fim de tudo, explicamos com pormenores em obra especial sobre ele562.

26. Pois bem, este foi o mais admirável de todos os daqui. Mesmo assim, entre os mais próximos a

nosso tempo sabemos de homens de mui rara qualidade: Pierio, um presbítero de Alexandria, e

Melicio, bispo das igrejas do Ponto.

27. O primeiro se fez notar por uma vida inteiramente pobre e por seus conhecimentos filosóficos,

tendo-se exercitado extraordinariamente em especulações e comentários acerca das coisas divinas

e em homílias públicas na igreja. E Melicio (o mel de Ática chamavam-no as pessoas instruídas)

era como alguém o descreveu: o mais perfeito por sua doutrina. É impossível admirar-se como

merece o vigor de sua retórica, mas podia-se dizer que ele o tinha por natureza. E quanto à perícia

no restante e à vasta erudição, quem poderia superar sua excelência?

28. Antes que o provasses uma só vez, dirias que era o homem mais hábil e mais firme em todas as

ciências da razão. Além disso, sua vida virtuosa estava também à altura. Nós o observamos

durante sete anos completos quando, por ocasião da perseguição, andou fugitivo de uma lado para

outro pelas regiões da Palestina.

29. Na igreja de Jerusalém, depois de Himeneo - o bispo mencionado pouco acima -, recebe o

ministério Zabdas. Morto este não muito depois, recebe em sucessão o trono apostólico, ali

conservado ainda até hoje, Hermon, último bispo até a perseguição de nossos tempos.

30. E em Alexandria é Teonas que sucede a Máximo, que exerceu o episcopado depois da morte de

Dionísio por dezoito anos. Em seu tempo era célebre em Alexandria Aquilas, considerado digno

do presbiterado junto com Pierio. Estava encarregado da escola da fé sagrada563 e deu provas de

uma obra filosófica de mui rara qualidade, não inferior à de ninguém, e de uma conduta

genuinamente evangélica.

31. E depois de Teonas, que serviu durante dezenove anos, recebe em sucessão o episcopado dos

561 Teodoto = dom de Deus; bispo (episcopos) = o que cuida de.

562 A Vida de Panfilo, escrita em 311-313 e perdida.

563 Sem dúvida a escola catequética.

alexandrinos Pedro, que também se distinguiu muito especialmente durante doze anos inteiros.

Tendo empregado os três primeiros anos anteriores à perseguição, não completos, em governar a

igreja, pelo resto de sua vida entregou-se a uma ascese muito mais vigorosa, e sem ocultar-se,

velava pelo proveito comum das igrejas, e assim foi como no nono ano da perseguição foi

decapitado e adornou-se com a coroa do martírio.

32. Depois de haver descrito nestes livros o tema das sucessões, desde o nascimento de nosso

Salvador até a destruição dos oratórios, o que abarca uns trezentos e cinco anos, em continuação

vamos deixar por escrito, para que o saibam aqueles que vierem depois de nós, quantos e de que

índole foram os combates dos que em nossos dias portaram-se virilmente na defesa da religião.

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