Livro 7 – Capítulo XXII História Eclesiástica

Da doença que sobreveio em Alexandria

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXIXIIXIIIXIVXVXVIXVIIIXIXXXXXIXXIIXXIIIXXIVXXVXXVIXXVIIXXVIIIXXIXXXXIXXXII
← Anterior Próximo →

1. Depois disto, quando a peste interrompeu a guerra e a festa se aproximava, novamente entrou em

comunicação por carta com os irmãos, indicando-lhes os padecimentos desta calamidade com

estas palavras:

2. "Certamente aos demais homens513 não parecerá tempo de festas a presente ocasião. Para eles, nem

este nem outro o é; não me refiro aos tempos de luto, mas nem sequer dos que se poderiam crer

sumamente alegres. Atualmente, ao menos, é certo que tudo são lamentações, tudo prantos, e os

gemidos ressoam em toda a cidade por causa da multidão dos mortos e dos que cada dia

continuam morrendo;

3. porque, como está escrito dos primogênitos do Egito, assim também agora levantou-se um grande

clamor, pois não há casa onde não haja um morto514; e oxalá não fosse mais do que um, porque em

verdade são muitas e terríveis as coisas que sucederam inclusive antes disto.

4. Primeiramente nos expulsaram, e somos os únicos que, apesar de sermos perseguidos por todos e

estarmos condenados a morrer, celebramos a festa, inclusive então, e cada lugar de tribulação de

cada um se converterá em paragem de assembléia festiva: campo, deserto, nave, albergue, cárcere.

Mas a mais esplendorosa de todas as festas foi celebrada pelos mártires perfeitos, premiados com

511 Nm 14:22-23.

512 Gn 2:10-13. Aqui identifica o Giom com o Nilo.

513 Os não cristãos.

514 Ex 12:30.

o festim do céu.

5. E depois disto lançaram-se encima a guerra e a fome, que sofremos junto com os pagãos:

suportamos todos os maus-tratos que nos deram, mas entramos à parte no que eles faziam e

padeciam entre si, e mais uma vez gozamos da paz de Cristo, que só a nós foi dada.

6. Tínhamos conseguido, tanto eles quanto nós, um brevíssimo intervalo quando irrompeu esta

enfermidade, coisa mais temível para eles do que todo temor, e portanto mais cruel do que

qualquer calamidade, e como escreve um particular escritor seu, 'única coisa que sobrepujou toda

previsão'515. Mas não é assim para nós, pois foi um exercício e uma prova em nada inferiores às

demais. Efetivamente, em nada nos perdoou, ainda que tenha ceifado muitos entre os pagãos."

7. E em continuação acrescenta o que segue:

"Em todo caso, a maioria de nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno,

esquecendo-se de si mesmos e unidos uns com os outros, visitavam os enfermos sem precaução,

serviam-nos com abundância, cuidavam-nos em Cristo e até morriam contentíssimos com eles,

contagiados pelo mal dos outros, atraindo sobre si a enfermidade do próximo e assumindo

voluntariamente suas dores. E muitos que curaram e fortaleceram outros, morreram,

transferindo para si mesmos a morte daqueles e convertendo então em realidade o dito popular,

que sempre parecia ser de mera cortesia: 'Despedindo-se deles humildes servidores'.

8. Em todo caso, os melhores de nossos irmãos partiram da vida desde modo, presbíteros - alguns -,

diáconos e laicos, todos muito louvados, já que este tipo de morte, pela grande piedade e fé

robusta que envolve, em nada parece ser inferior mesmo ao martírio.

9. E assim tomavam com as palmas das mãos e em seus seios os corpos dos santos, limpavam-lhes

os olhos, fechavam suas bocas e, agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e envolvê-

los em sudários, levavam-nos sobre os ombros e os enterravam. Pouco depois eles mesmos

recebiam os mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os passos dos que os

precederam.

10. Já entre os pagãos foi o contrário: até afastavam os que começavam a adoecer e repeliam até aos

mais queridos, e lançavam os moribundos para as ruas e cadáveres insepultos ao lixo, tentando

evitar o contágio e a companhia da morte, tarefa nada fácil até para os que usavam mais engenho

em esquivá-la."

11. E depois desta carta, quando a cidade já estava em paz, enviou ainda uma carta festiva aos irmãos

do Egito, e logo voltou a escrever outras. Conservam-se dele também uma Sobre o sábado e outra

Sobre o exercício.

12. Comunicando-se uma vez mais por carta com Hermamon e os irmãos do Egito, explica muitas

coisas sobre a perversidade de Décio e de seus sucessores, e menciona a paz dos tempos de

Galieno.

← Voltar ao índice