1. Depois disto, quando a peste interrompeu a guerra e a festa se aproximava, novamente entrou em
comunicação por carta com os irmãos, indicando-lhes os padecimentos desta calamidade com
estas palavras:
2. "Certamente aos demais homens513 não parecerá tempo de festas a presente ocasião. Para eles, nem
este nem outro o é; não me refiro aos tempos de luto, mas nem sequer dos que se poderiam crer
sumamente alegres. Atualmente, ao menos, é certo que tudo são lamentações, tudo prantos, e os
gemidos ressoam em toda a cidade por causa da multidão dos mortos e dos que cada dia
continuam morrendo;
3. porque, como está escrito dos primogênitos do Egito, assim também agora levantou-se um grande
clamor, pois não há casa onde não haja um morto514; e oxalá não fosse mais do que um, porque em
verdade são muitas e terríveis as coisas que sucederam inclusive antes disto.
4. Primeiramente nos expulsaram, e somos os únicos que, apesar de sermos perseguidos por todos e
estarmos condenados a morrer, celebramos a festa, inclusive então, e cada lugar de tribulação de
cada um se converterá em paragem de assembléia festiva: campo, deserto, nave, albergue, cárcere.
Mas a mais esplendorosa de todas as festas foi celebrada pelos mártires perfeitos, premiados com
511 Nm 14:22-23.
512 Gn 2:10-13. Aqui identifica o Giom com o Nilo.
513 Os não cristãos.
514 Ex 12:30.
o festim do céu.
5. E depois disto lançaram-se encima a guerra e a fome, que sofremos junto com os pagãos:
suportamos todos os maus-tratos que nos deram, mas entramos à parte no que eles faziam e
padeciam entre si, e mais uma vez gozamos da paz de Cristo, que só a nós foi dada.
6. Tínhamos conseguido, tanto eles quanto nós, um brevíssimo intervalo quando irrompeu esta
enfermidade, coisa mais temível para eles do que todo temor, e portanto mais cruel do que
qualquer calamidade, e como escreve um particular escritor seu, 'única coisa que sobrepujou toda
previsão'515. Mas não é assim para nós, pois foi um exercício e uma prova em nada inferiores às
demais. Efetivamente, em nada nos perdoou, ainda que tenha ceifado muitos entre os pagãos."
7. E em continuação acrescenta o que segue:
"Em todo caso, a maioria de nossos irmãos, por excesso de seu amor e de seu afeto fraterno,
esquecendo-se de si mesmos e unidos uns com os outros, visitavam os enfermos sem precaução,
serviam-nos com abundância, cuidavam-nos em Cristo e até morriam contentíssimos com eles,
contagiados pelo mal dos outros, atraindo sobre si a enfermidade do próximo e assumindo
voluntariamente suas dores. E muitos que curaram e fortaleceram outros, morreram,
transferindo para si mesmos a morte daqueles e convertendo então em realidade o dito popular,
que sempre parecia ser de mera cortesia: 'Despedindo-se deles humildes servidores'.
8. Em todo caso, os melhores de nossos irmãos partiram da vida desde modo, presbíteros - alguns -,
diáconos e laicos, todos muito louvados, já que este tipo de morte, pela grande piedade e fé
robusta que envolve, em nada parece ser inferior mesmo ao martírio.
9. E assim tomavam com as palmas das mãos e em seus seios os corpos dos santos, limpavam-lhes
os olhos, fechavam suas bocas e, agarrando-se a eles e abraçando-os, depois de lavá-los e envolvê-
los em sudários, levavam-nos sobre os ombros e os enterravam. Pouco depois eles mesmos
recebiam os mesmos cuidados, pois sempre os que ficavam seguiam os passos dos que os
precederam.
10. Já entre os pagãos foi o contrário: até afastavam os que começavam a adoecer e repeliam até aos
mais queridos, e lançavam os moribundos para as ruas e cadáveres insepultos ao lixo, tentando
evitar o contágio e a companhia da morte, tarefa nada fácil até para os que usavam mais engenho
em esquivá-la."
11. E depois desta carta, quando a cidade já estava em paz, enviou ainda uma carta festiva aos irmãos
do Egito, e logo voltou a escrever outras. Conservam-se dele também uma Sobre o sábado e outra
Sobre o exercício.
12. Comunicando-se uma vez mais por carta com Hermamon e os irmãos do Egito, explica muitas
coisas sobre a perversidade de Décio e de seus sucessores, e menciona a paz dos tempos de
Galieno.