Livro 7 – Capítulo XXV História Eclesiástica

Sobre o Apocalipse de João

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXIXIIXIIIXIVXVXVIXVIIIXIXXXXXIXXIIXXIIIXXIVXXVXXVIXXVIIXXVIIIXXIXXXXIXXXII
← Anterior Próximo →

1. Logo continuando, pouco mais abaixo, diz o seguinte sobre o Apocalipse de João:

"Assim pois, alguns dos nossos antecessores rechaçaram como espúrio e desacreditaram por

completo o livro, examinando capítulo por capítulo e declarando que era ininteligível e ilógico,

e seu título enganoso.

2. Dizem mesmo que não é de João e que tampouco é Apocalipse522, estando como está bem velado

com o grosso manto da ignorância, e que o autor deste escrito não só não foi nenhum dos

apóstolos, mas que nem sequer nenhum santo ou membro da Igreja em absoluto, mas Cerinto523, o

mesmo que instituiu a heresia cerintiana e que quis dar credibilidade a sua própria invenção com

um nome digno de fé.

3. Na verdade, a doutrina que ele ensina é esta: o reino de Cristo será terreno; e como ele era um

amante de seu corpo e inteiramente carnal, sonhava que consistiria no mesmo que ele desejava:

fartura do ventre e do que está abaixo do ventre, ou seja: de comidas, de bebidas, de uniões carnais e

de tudo aquilo com que lhe parecia que se procurariam estas coisas de uma forma mais bem

sonante: festas, sacrifícios e imolação de vítimas.

4. Eu, de minha parte, não poderia me atrever a rechaçar o livro, pois são muitos os irmãos que o

tomam a sério, mas ainda admitindo que o pensamento que encerra excede minha própria

inteligência, suponho que o sentido de cada passagem está em certo modo encoberto e é bastante

admirável, porque, mesmo que não o compreenda, ainda assim suspeito ao menos que nas

palavras se encerra alguma intenção mais profunda.

5. Não meço isto nem o julgo com minha própria razão, mas, ainda outorgando a superioridade à fé,

cheguei à conclusão de que isto está demasiado alto para ser concebido por mim. E eu não

reprovo o que não compreendi, antes até o admiro mais, porque nem sequer o vi."

6. Depois disto e depois de examinar todo o livro do Apocalipse e demonstrar que é impossível

entendê-lo segundo seu sentido óbvio, continua dizendo: "Depois de concluir toda sua - por assim

dizer - profecia, o profeta declara bem-aventurados os que a guardam e também, é verdade, a si

mesmo: Bem-aventurado - diz, efetivamente - o que guarda as palavras da profecia deste livro,

e eu, João, que estou vendo e escutando estas coisas524.

7. Portanto, não contradirei que ele se chamava João e que este livro é de João. Porque inclusive

estou de acordo de que é obra de um homem santo e inspirado por Deus. Mas eu não poderia

concordar facilmente em que este fosse o apóstolo, o filho de Zebedeu e irmão de Tiago, de quem é

522 Isto é, "Revelação".

523 Daqui até o final do parágrafo já foi citado em III:XXVIII:4-5.

524 Ap 22:7-8. Ao contrário do que diz Dionísio, a frase "e eu, João..." não pertence à oração anterior, mas começa

uma nova.

o Evangelho intitulado de João e a Carta católica.

8. De fato, pelo caráter de um e de outro, pelo estilo e pela chamada disposição geral do livro,

conjeturo que não é o mesmo, já que o evangelista em nenhuma parte escreve seu nome nem

prega a si mesmo: nem no Evangelho nem na Carta."

9. Logo, um pouco mais abaixo, outra vez diz assim:

"Mas João de nenhuma maneira, nem em primeira nem em terceira pessoa. Porém, o que escreveu

o Apocalipse, imediatamente se põe adiante, já no começo: Revelação de Jesus Cristo, que foi

dada para mostrar prontamente a seus servos, e que foi revelada enviada por meio de seu anjo a

seu servo João, o qual deu testemunho da palavra de Deus e de seu testemunho: tudo o que viu525.

10. Logo escreve também uma carta: João às sete igrejas que estão na Ásia. Graça e paz a vós

outros526. Mas o evangelista nem no cabeçalho de sua Carta católica escreveu seu nome, mas

começou sem mais pelo próprio mistério da revelação divina: O que era desde o princípio, o que

temos ouvido, que vimos com nossos próprios olhos527. Por motivo desta revelação, efetivamente,

o Senhor chamou bem-aventurado a Pedro quando disse:

Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, pois nem a carne nem o sangue to revelaram, mas

meu Pai celestial528.

11. Mas ocorre que nem na segunda nem na terceira Carta que se consideram de João, ainda que

breves, aparece João por seu nome, mas de uma forma anônima achamos escrito: o

presbítero529. Por outro lado, este outro não achou suficiente nomear-se uma vez só e seguir a

explicação, mas repete novamente: Eu, João, vosso irmão e co-partícipe na tribulação, no reino

e na paciência de Jesus, estive na ilha chamada Patmos por causa da palavra de Deus e do

testemunho de Jesus530. E ainda, mesmo perto do final, diz o seguinte: bem-aventurado o que

guarda as palavras da profecia deste livro, e eu, João, o que está vendo e ouvindo estas

coisas531.

12. Portanto, que é João que escreve isto, temos que crê-lo pois ele o diz; mas não está claro quem

seja este, pois não diz, como em muitas passagens do Evangelho, que ele é o discípulo amado

pelo Senhor, o que se reclinou sobre seu peito, o irmão de Tiago, a testemunha ocular e ouvinte

direto do Senhor.

13. Porque teria dito algo do que acabamos de indicar se quisesse dar-se a conhecer claramente. E

mesmo assim, nada disto, antes se disse irmão e companheiro nosso, testemunha de Jesus e feliz

por haver contemplado e ouvido as revelações.

14. Eu creio que houve muitos com o mesmo nome do apóstolo João, os quais, por amor a ele e por

admirá-lo e escutá-lo e por querer ser amados como ele pelo Senhor, afeiçoaram-se a esse

mesmo nome, da mesma forma que entre os filhos dos fiéis abundam os nomes de Paulo e

Pedro.

15. Assim pois, nos Atos dos apóstolos há também outro João, de sobrenome Marcos,532 a quem

Barnabé e Paulo tomaram consigo e sobre o qual chega a dizer: E tinham também a João como

servidor533. Pois bem, se foi este o autor, eu não diria, porque não está escrito que chegou com

eles à Ásia, mas diz: Navegando desde Pafos, Paulo e seus companheiros chegaram a Perges

da Panfília, enquanto que João se separou deles e voltou a Jerusalém534.

16. Eu creio que foi outro dos que viveram na Ásia. Diz-se que em Éfeso havia dois sepulcros e que

cada um dos dois era atribuído a João535.

525 Ap 1:1-2.

526 Ap 1:4.

527 1 Jo 1:1.

528 Mt 16:17.

529 2 Jo l;3 Jo 1.

530 Ap 1:9.

531 Ap 22:7-8.

532 At 12:25.

533 At 13:5.

534 At 13:13.

535 Vide III:XXXIX:6.

17. E pelos pensamentos, pelas palavras e por sua ordenação, compreende-se naturalmente que um

é pessoa diferente do outro. Efetivamente o Evangelho e a Carta concordam entre si.

18. E ambos começam igual. Aquele diz: No princípio era o Verbo536; e aquele diz: e o Verbo se fez

carne e plantou sua tenda entre nós e contemplamos sua glória, glória como do unigênito do

Pai537; e esta as mesmas palavras um pouco mudadas: o que temos ouvido, o que temos visto

com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida, e

a vida se manifestou...538.

19. Porque isto é o que põe como prelúdio, apontando, segundo o que demonstrou em seguida, aos

que andavam dizendo que o Senhor não tinha vindo na carne, pelo que teve também o cuidado de

acrescentar: E o que vimos atestamos, e vos anunciamos a vida eterna, a que estava no Pai e

manifestou-se-nos. O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros539.

20. Mantém-se fiel a si mesmo e não se aparta daquilo a que se propôs, mas tudo vai explicando

com os mesmos princípios e as mesmas expressões, algumas das quais vamos recordar

brevemente:

21. Quem se aplique a ler encontrará em um e na outra muitas vezes as expressões: 'a vida', 'a luz',

'afastamento das trevas'; e continuamente: 'a verdade', 'a graça', 'a alegria', 'a carne e o sangue do

Senhor', 'o juízo', 'o perdão dos pecados', 'o amor de Deus para conosco, o mandamento de

amarmos uns aos outros' e que 'há que se guardar todos os mandamentos'; a refutação do mundo,

do diabo e do anticristo, a promessa do Espírito Santo, a adoção como filhos por parte de Deus, a

fé, que nos é exigida absolutamente; o Pai e o Filho, por todas as partes. E em uma palavra: é

evidente que quem se atém a todas suas características vê que tanto o Evangelho como a Carta

apresentam uma mesma e única coloração.

22. Por outro lado, o Apocalipse é muito diferente e alheio a estes escritos. Não está ligado a nenhum

deles nem lhes tem afinidade, e quase, por assim dizer, nem uma sílaba tem em comum com eles.

23. Porque assim é que nem a Carta (deixemos já o Evangelho) tem a menor menção ou o menor

pensamento sobre o Apocalipse, nem o Apocalipse sobre a Carta, enquanto que Paulo deixa

entrever em suas Cartas algo sobre suas revelações, ainda que não as tenha consignado por si

mesmas540.

24. Mas inclusive pelo estilo é possível ainda reconhecer a diferença do Evangelho e da Carta com

respeito ao Apocalipse.

25. Aqueles, efetivamente, não somente estão escritos sem faltas contra a língua grega, mas inclusive

com a máxima eloqüência por sua dicção, seus raciocínios e a construção de suas expressões. Pelo

menos estão muito longe de que se encontre neles algum vocábulo bárbaro, um solecismo, ou de

modo geral, um vulgarismo, pois seu autor, segundo parece, possuía os dois saberes, por haver o

Senhor lhe outorgado ambos graciosamente: o do conhecimento e o da linguagem.

26. Quanto ao outro, não lhe negarei que viu revelações e que recebeu conhecimento e profecia; não

creio porém que seu estilo e sua língua sejam exatamente gregas, antes utiliza idiotismos

bárbaros e em algumas partes inclusive comete solecismos. Não é preciso agora dar uma

seleção,

27. já que tampouco disse isto por zombaria (que ninguém pense isso) mas unicamente para

estabelecer a desigualdade destes escritos."

← Voltar ao índice