Livro 7 – Capítulo XXIV História Eclesiástica

De Népos e seu cisma

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1. Além de tudo isto, escreveu também os dois livros Sobre as promessas, cujo tema era Népos,

bispo dos do Egito, que ensinava que as promessas feitas aos santos nas divinas Escrituras

devem ser interpretadas mais ao modo judeu, e supunha que haveria um milênio de delícias

corpóreas sobre esta terra seca.

2. Em todo caso, acreditando reforçar sua própria suposição com o Apocalipse de João, compôs sobre

ele uma obra que intitulou Refutação dos alegoristas.

3. Contra esta obra ergue-se Dionísio em seus livros Sobre as promessas. No primeiro expõe seu

próprio pensamento sobre a doutrina, e no segundo discute acerca do Apocalipse de João. Nele

faz menção a Népos no começo, e escreve o seguinte sobre ele:

4. "Mas como quer que aleguem certo livro de Népos no qual se apóiam mais do que deveriam,

como se demonstrasse irrefutavelmente que o reinado de Cristo será sobre a terra, em muitas

outras coisas aprovo Népos e o amo: por sua fé, por sua laboriosidade, por seu estudo sério das

Escrituras e por sua numerosa produção de hinos, com os quais muitos irmãos vêm se

reconfortando até hoje, e meu respeito pelo homem é absoluto, ainda mais estando já morto.

Porém, como a verdade me é mais querida e mais estimada do que todas as coisas, deve-se louvá-

lo e estar de acordo com ele, sem reservas, se diz algo retamente, mas também, se em algo não

parece correto o que escreveu, deve-se examiná-lo e corrigi-lo.

5. Para com alguém que está presente e que se explica por palavra, poderia ser suficiente uma

conversação oral, que a base de perguntas e respostas vai persuadindo e reduzindo os

contendores; mas havendo no meio um escrito, e muito persuasivo segundo alguns, e contando de

outra parte com alguns mestres que, em nada estimando a Lei e os Profetas, deixando de seguir os

Evangelhos e desprezando as Cartas dos apóstolos, proclamam sem mais o ensinamento deste

livro como um grande e oculto mistério, e não permitem a nossos irmãos mais simples ter

pensamentos elevados e magníficos sobre a manifestação gloriosa e realmente divina de nosso

Senhor, nem de nossa ressurreição dentre os mortos nem de nossa reunião e configuração com

Ele, mas os persuadem a esperar coisas mínimas e mortais, como são as presentes, no reino de

Deus, é necessário que também nós discutamos com nosso irmão Népos como se estivesse

presente."

6. Ao dito acrescenta, depois de outras coisas, o seguinte:

"Assim pois, achando-me em Arsinoé, onde, como sabes, há muito prevalece esta doutrina, até o

ponto de que ocorreram cismas e apostasias de igrejas inteiras, convoquei os presbíteros e mestres

dos irmãos das aldeias, e estando presentes também os irmãos que queriam, exortei-os a realizar

em público o exame da doutrina.

7. Ao me apresentarem este livro como arma e muro inatacável, estive com eles três dias em sessão

519 Ap 17:8-11.

520 Galieno, em oposição a Valeriano.

521 Galieno cumpria o sétimo ano de seu império ao fim do ano 260, tempo longo para um imperador daquela época.

Para Dionísio há outro motivo para comentá-lo: o fim da perseguição. A Páscoa de 262 anunciava-se especialmente

alegre.

contínua, da aurora ao anoitecer, tentando emendar o que estava escrito.

8. Pude então admirar sobremaneira o equilíbrio, o amor à verdade, a facilidade de compreensão e a

inteligência dos irmãos quando, por ordem e com moderação, desenvolvíamos as perguntas, as

objeções e os pontos de coincidência; por um lado, tínhamos nos recusado a nos aterrarmos

obstinada e insistentemente às decisões tomadas uma só vez, ainda que isto não nos parecesse

justo; e por outro, também não evitávamos as objeções, mas na medida do possível tentávamos

abordar os temas propostos e dominá-los; e tampouco nos envergonhávamos de mudar de idéia

e concordar se a razão o exigisse, antes, com a melhor consciência, sem disfarces e com o

coração aberto a Deus, aceitávamos o que ficasse estabelecido pelas argumentações e pelos

ensinamentos das Santas Escrituras.

9. E por último, o líder e introdutor desta doutrina, o chamado Coracion, confessou e atestou para

que todos os irmãos presentes ouvissem que não mais se entregaria a isto, nem discutiria sobre

isto, nem o recordaria nem ensinaria, pois estava suficientemente convencido pelos argumentos

opostos. E dos outros irmãos, uns se alegravam do colóquio, assim como da condescendência e

disposição comum para com todos..."

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