Livro 7 – Capítulo XXIX História Eclesiástica

De como se rebateu Paulo e este foi excomungado

IIIIIIIVVVIVIIVIIIIXXXIXIIXIIIXIVXVXVIXVIIIXIXXXXXIXXIIXXIIIXXIVXXVXXVIXXVIIXXVIIIXXIXXXXIXXXII
← Anterior Próximo →

1. Nos tempos deste, havendo-se reunido um último concilio544 de numerosíssimos bispos,

surpreendido in flagranti e já por todos condenado abertamente por heterodoxia, o líder da

541 Eusébio começa a falar de pessoas e fatos que considera contemporâneos seus: aquelas porque morreram depois

de seu nascimento; destes porque também ocorriam depois de seu nascimento. E o único ponto de referência para

fixar aproximadamente a data deste.

542 Eusébio toma por anos os onze meses do pontificado de Sixto II (martirizado em 6 de agosto de 258), isto leva a

várias incongruências cronológicas.

543 Isto parece indicar que em Antioquia existia uma espécie de concilio permanente, com sessões mais ou menos

intermitentes, até a definitiva, que terminou com a deposição de Paulo de Samosata.

544 Conforme indicado em 28:2, deve-se entender isto como uma última sessão do concilio que já durava alguns

anos.

heresia de Antioquia foi excomungado da Igreja católica que está sob o céu.

2. Quem mais fez para acabar com sua dissimulação e deixá-lo convicto foi Malquion, homem

muito eloqüente e diretor da classe de retórica nas escolas gregas de Antioquia; e não só isto, mas

também considerado digno do presbiterado da comunidade local, pela excelentíssima

legitimidade de sua fé em Cristo. Este havia empreendido contra ele, com taquígrafos que iam

registrando, uma investigação - que sabemos que se conservou até nossos dias -, pelo que entre

todos somente ele foi capaz de surpreender in flagranti aquele homem, apesar de sua

dissimulação e engano.

XXX545

1. Então os pastores ali reunidos com o mesmo fim escrevem de comum acordo uma só carta

dirigida pessoalmente a Dionísio, bispo de Roma, e a Máximo, da de Alexandria, e a transmitem

a todas as províncias, pondo a claro para todos seu próprio zelo e a perversa heterodoxia de

Paulo, assim como os argumentos e perguntas que haviam brandido contra ele, e expondo ainda

com detalhe toda a vida e conduta daquele homem. Talvez seja bom citar nesta obra, para fazer

memória, as seguintes palavras suas:

2. "A Dionísio, a Máximo, a todos nossos colegas no ministério por todo o mundo habitado:

bispos, presbíteros e diáconos, e a toda a Igreja católica que está sob o céu, Heleno, Himeneo,

Teófilo, Teotecno, Máximo, Proclo, Nicomas, Eliano, Paulo, Bolano, Protógenes, Hieraco,

Eutiquio, Teodoro, Malquion, Lúcio e todos os demais que conosco habitam as cidades e

povoações vizinhas, bispos, presbíteros, diáconos e as igrejas de Deus: aos amados irmãos, saúde

no Senhor".

3. Pouco depois disto, acrescenta o seguinte:

"Escrevíamos e ao mesmo tempo exortávamos a muitos, inclusive a bispos de longe, a vir e curar

este mortífero ensinamento, assim como também aos benditos Dionísio o de Alexandria e

Firmiliano de Capadócia. Destes, o primeiro escreveu uma carta a Antioquia, não considerando o

autor do erro digno nem de uma saudação, pelo que não lhe escreveu pessoalmente, mas a toda a

comunidade; desta carta anexamos uma cópia.

4. Firmiliano, por outro lado, que inclusive veio duas vezes, condenou certamente as inovações

daquele - como sabemos e atestamos os que estavam presentes e o sabem também muitos outros

-, mas como Paulo prometera mudar, ele, crendo e esperando que o assunto se arranjaria

oportunamente

sem desdouro para a doutrina, o foi deferindo, enganado pelo homem que negava a seu próprio

Deus e Senhor e não observava a fé que anteriormente ele mesmo possuía.

5. Mas agora Firmiliano estava já a ponto de chegar a Antioquia e havia chegado concretamente até

Tarso, pois havia experimentado a maldade negadora de Deus daquele homem; mas no

intervalo, estando nós outros reunidos chamando-o e esperando que chegasse, alcançou-o a

morte."

6. E depois de outras coisas, novamente descrevem a vida e a conduta de Paulo nos seguintes

termos:

"Desde o ponto em que se afastou da regra e passou a ensinamentos falsos e bastardos, não se

devem julgar as ações do que está fora546;

7. nem sequer pelo fato de que, sendo primeiramente pobre e mendigo e não havendo recebido de

seus pais riqueza nenhuma nem havendo-a adquirido mediante um ofício ou qualquer ocupação,

agora chegou a uma excessiva opulência proveniente de suas ilegalidades, de seus roubos

sacrílegos e do que pede e suga dos irmãos, defraudando os que foram vítimas de injustiça e

prometendo ajuda por um salário: em realidade, enganando também estes e tirando proveito sem

razão da facilidade com que dão os que estão em apuros apenas para se libertarem do incômodo, já

que ele considera a religião como fonte de lucros547;

545 Este capítulo, assim como o XVII, não figura no índice e carece de título.

546 1 Co 5:12.

547 1 Tm 6:5.

8. tampouco porque tem pensamentos altivos e se orgulha de estar investido com dignidades

mundanas, preferindo que o chamem ducenário do que bispo, avançando jactancioso pela praça

e lendo e ditando cartas enquanto passeia em público, escoltado por guardas muito numerosos, uns

precedendo-o e outros seguindo-o; o resultado é que a própria fé se vê desprezada e odiada por

causa de sua ostentação e do orgulho de seu coração;

9. e tampouco se devem julgar os jogos de prestidigitação que organizava nas reuniões eclesiásticas

aspirando a glória, deslumbrando a imaginação e ferindo com estas coisas as almas dos mais

simplórios. Fez preparar para si uma tribuna e um trono elevado - não como discípulo de Cristo

-, e igual aos príncipes do mundo, tinha-e assim o chamava- seu secretum548; com a mão golpeava

a coxa e com os pés batia na tribuna. E aos que não o aprovavam nem agitavam os lenços, como

nos teatros, nem lançavam gritos nem se levantavam de um salto junto com seus sequazes, homens e

mulheres que nesta desordem o ouviam, e, portanto, aos que o escutavam com gravidade e em

boa ordem, como na casa de Deus, a estes desprezava e insultava. E aos intérpretes da doutrina

que partiram desta vida ele insultava em público grosseiramente, enquanto que de si mesmo falava

com grande ênfase, não como um bispo, mas como um sofista e um charlatão.

10. Fez também que cessassem os salmos em honra de nosso Senhor Jesus Cristo, porque dizia que

eram modernos e obra de homens bastante modernos; em troca, preparou umas mulheres para

que em sua honra salmodiassem em meio a igreja no grande dia de Páscoa. É de estremecer-se

ouvindo-as! E que coisas deixava que os bispos e presbíteros tratassem em suas homílias ao povo

dos campos e cidades limítrofes, seus aduladores!

11. Porque ele não quer confessar conosco que o Filho de Deus desceu do céu (isto para expor de

antemão algo do que escreveremos, e que não o diremos como simples afirmação, mas que será

demonstrado com muitas passagens dos documentos que vos enviamos, e sobretudo aquele em

que se diz que Jesus Cristo é de baixo); mas aqueles, quando lhe cantam salmos e o louvam ante o

povo, afirmam que seu ímpio mestre desceu como anjo do céu. E ele não só não impede isto, mas

até, em sua soberba, acha-se presente quando o dizem.

12. Quanto às mulheres subintroductas - como as chamam os antioquenhos -, as dele e as dos

presbíteros e diáconos de seu séquito, aos quais ajuda a ocultar este e os demais pecados

incuráveis, já de plena consciência e com provas convincentes para tê-los a sua mercê e para que,

temendo por si mesmos, não se atrevam a acusá-lo das injustiças que comete por palavra e por

obra - e mais, inclusive tornou-os ricos, pelo que o querem e admiram os que se perdem por tais

coisas... -, por que haveríamos de escrever isto?

13. Ainda assim, sabemos, queridos, que o bispo e o clero inteiro devem ser para a multidão um

exemplo549 de toda obra boa550, e não ignoramos tampouco quantos caíram por ter introduzido para

si mulheres, enquanto outros tornaram-se suspeitosos, tanto que, mesmo concedendo-lhe que nada

fazia de indecoroso, não obstante era necessário ao menos precaver-se contra a suspeita que nasce

de um tal assunto, para não escandalizar ninguém e evitar que outros o tentem.

14. Porque, como poderia repreender e advertir outro para que não coabite mais sob o mesmo teto

com uma mulher e se guarde de cair, como está escrito551, um que já afastou uma de si, mas que

tem consigo duas em plena juventude e de boa aparência, e que, se vai para outro lugar, para lá as

leva consigo, e isto com desperdício de luxo?

15. Por causa disto choram todos e se lamentam dentro de si mesmos, mas é tanto o temor à tirania e

poder dele que ninguém se atreve a uma acusação.

16. Mas, como já dissemos, disto poderíamos corrigir um homem que tivesse ao menos um

pensamento católico e se contasse entre nós, mas de um que traiu o mistério552 e se pavoneia da

abominável heresia de Artemas (por que, de fato, não seria necessário manifestar quem é seu pai?)

cremos que não se pode pedir contas de tudo isto."

548 Despacho interior do pretório, onde os juízes ditavam sentenças.

549 1 Tm 4:12; Tt 2:7.

550 2 Tm 2:21; 3:17.

551 1 Co 10:12.

552 1 Tm 3:16.

17. Logo, ao final da carta, acrescentam:

"Por conseguinte, ao seguir opondo-se a Deus e não ceder, vimo-nos forçados a excomungá-lo e a

estabelecer em seu lugar para a Igreja católica - segundo providência de Deus, estamos

convencidos - outro bispo, Domno, o filho do bem-aventurado Demetriano - este havia

presidido antes daquele, de forma notável, esta mesma igreja -, varão adornado com todas as

qualidades que convém a um bispo. E isto vos manifestamos para que lhe escrevais e recebais

dele as cartas de comunhão. Quanto ao outro, que escreva a Artemas e que tenham comunhão com

ele os que pensem como Artemas553."

18. Assim pois, caído Paulo do episcopado e da ortodoxia de sua fé, sucedeu-o Domno, como foi

dito, no ministério da igreja de Antioquia.

19. Mesmo assim, como Paulo não quisesse de modo algum sair do edifício da igreja, o imperador

Aureliano, a quem se solicitou, decidiu muito oportunamente o que deveria ser feito, pois ordenou

que se outorgasse a casa àqueles com quem estivessem em correspondência epistolar os bispos da

doutrina da Itália e da cidade de Roma. Assim é que o homem antes mencionado, para extrema

vergonha sua, foi expulso da igreja pelo poder mundano.

20. Assim era para conosco Aureliano, pelo menos por então. Mas, já avançado seu império, mudou de

pensamento sobre nós e se deixava excitar por certos conselhos para que suscitasse uma

perseguição contra nós. Eram muitos os rumores sobre este ponto em todos os ambientes.

21. Mas, quando estava a ponto de fazê-lo e, por assim dizer, já assinava os decretos contra nós, a

justiça divina o alcançou, retendo-o no ato como que amarrando-lhe os braços554. Com isto

permitiu a todos ver claramente que nunca os poderes desta vida teriam facilidade contra as igrejas

de Cristo se a mão que nos protege, por juízo divino e celeste, para nossa instrução e conversão,

não permitisse555 que isto se levasse a cabo nos tempos que ela julga bons.

22. Assim pois, a Aureliano, que exerceu o poder durante seis anos, sucede Probo, e a este, que o

deteve mais ou menos os mesmos anos, Caro, junto com seus filhos Carino e Numeriano. E

tendo estes por sua vez durado outros três anos incompletos, o poder absoluto passa a

Diocleciano e aos que foram introduzidos depois dele por adoção, sob os quais levou-se a

cabo a perseguição de nosso tempo e nela a destruição das igrejas.

23. Agora bem, muito pouco tempo antes disto, Félix sucede no ministério ao bispo de Roma

Dionísio, que nele havia passado nove anos.

← Voltar ao índice