1. Toma pois, e lê o que apresenta no livro VI de suas Histórias com estas palavras:
"Naquele tempo os impostores e os que levantavam tais calúnias contra Deus pervertiam o
povo miserável, de forma que nem percebiam nem davam crédito a tais prodígios bem claros
que anunciavam de antemão a iminente desolação; antes, como se aturdidos por um raio e
como se não tivessem olhos nem alma, faziam ouvidos surdos às mensagens de Deus.
2. Estas foram: um astro que se deteve sobre a cidade, semelhante a uma espada de dois gumes, e um
cometa que durou todo um ano. Outra vez foi quando, antes da insurreição e dos distúrbios que
levaram à guerra, estando o povo reunido para celebrar a festa dos ázimos, no oitavo dia do mês
de Jantico, à nona hora da noite, brilhou sobre o altar e o templo uma luz tão grande que poder-se-
ia pensar que era dia, e isto durou uma meia hora. Aos ignorantes poderia parecer um bom sinal,
mas os escribas interpretaram-no corretamente antes que os fatos ocorressem.
3. E na mesma festa, uma vaca que o sumo sacerdote conduzia ao sacrifício pariu um cordeiro no
meio do templo.
4. E a porta oriental do interior, que era de bronze e muito pesada, e que havia sido fechada ao
anoitecer com dificuldade por vinte homens que a trancaram solidamente com ferrolhos presos com
ferro, além de ter gonzos profundos, abriu-se sozinha à sexta hora da noite.
5. E passada a festa, não muito depois, no vigésimo primeiro dia de Artemisio, apareceu um fantasma
demoníaco de tamanho incrível. E o que se passará a dizer poderia parecer mentira se não tivesse
sido contado pelos mesmos que o viram e se os sofrimentos que se seguiram não fossem dignos
destes sinais. De fato, antes do pôr-do-sol, apareceram pelo ar em redor de toda a região carros e
falanges armadas que se lançavam através das nuvens e rodeavam as cidades.
6. E na festa chamada Pentecostes, à noite, entrando os sacerdotes no templo, como de costume,
para exercer suas funções, dizem que primeiramente perceberam movimento e ruído de golpes, e
logo um grito em uníssono: Saiamos daqui!
7. E o que é mais terrível: um homem chamado Jesus, filho de Ananías, homem simples, camponês,
quatro anos antes da guerra, quando a cidade desfrutava da maior paz e do máximo esplendor,
veio à festa, pois era costume que todos erigissem tendas em honra a Deus197, e de repente
começou a gritar pelo templo: Voz do oriente! Voz do ocidente! Voz dos quatro ventos! Voz
sobre Jerusalém e sobre o templo! Voz dos recém-casados e casadas! Voz sobre todo o povo! Dia e
noite gritava isto por todas as vielas.
8. Mas alguns cidadãos notáveis, irritados pelo mau agouro, prenderam o homem e maltrataram-
no, enchendo-o de feridas. Mas ele, que não falava em proveito próprio nem por conta própria,
197 Era portanto a festa dos Tabernáculos (Setembro-Outubro).
continuava gritando aos presentes o mesmo que antes.
9. Pensando então os chefes que a agitação daquele homem era algo demoníaco, conduziram-no
ante o procurador romano198. Ali, dilacerado com açoites até os ossos, não suplicou nem
derramou uma lágrima, mas, tornando sua voz tão chorosa quanto possível, a cada ferida
respondia: Ai, ai de Jerusalém!"
10. Comenta o mesmo Josefo outro fato mais extraordinário. Diz que nas escrituras sagradas
encontrou-se um oráculo com este conteúdo: que naquele tempo alguém saído de seu país
regeria o mundo. O próprio Josefo concluiu que o oráculo tinha sido cumprido em
Vespasiano199.
11. Mas este não governou a todo o mundo, mas somente à parte submetida aos romanos. Seria pois
mais justo referi-lo a Cristo, a quem o Pai havia dito: Pede-me e te darei nações como herança
e os confins da terra como tua possessão200. Pois bem, por este mesmo tempo chegara a toda a
terra a voz dos santos apóstolos e aos confins do mundo suas palavras201.