Livro 3 – Capítulo XXIII História Eclesiástica

Relato sobre o apóstolo João

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1. Por este tempo vivia ainda na Ásia o mesmo a quem Jesus amou, o apóstolo e evangelista João, e

ali continuava regendo as igrejas depois de regressar do desterro na ilha, depois da morte de

Domiciano.

2. Que João permanecia em vida por este tempo é suficientemente confirmado por duas testemunhas.

Estas, representantes da ortodoxia da Igreja, são bem dignas de fé, tratando-se de homens como

Irineu e Clemente de Alexandria.

3. O primeiro deles, Irineu, escreve textualmente em alguma parte do livro II de sua obra Contra as

heresias como segue:

"E todos os presbíteros que na Ásia estão relacionados com João, o discípulo do Senhor, dão

testemunho de que João o transmitiu, porque ainda viveu com eles até os tempos de Trajano."

4. E no livro III da mesma obra manifesta o mesmo com estas palavras: "Mas também a igreja de

Éfeso, por ter sido fundada por Paulo e porque nela viveu João até os tempos de Trajano, é um

testemunho veraz da tradição dos apóstolos."

5. Por sua parte, Clemente assinala o mesmo tempo, e em sua obra que intitulou Quem é o rico que se

salvai Acrescenta uma narrativa valiosíssima para os que gostam de escutar coisas belas e

proveitosas. Toma pois, e lê o que ali escreveu:

6. "Escuta uma historieta, que não é uma historieta, mas uma tradição existente sobre o apóstolo

João, transmitida e guardada na memória. Efetivamente, depois que morreu o tirano, João

mudou-se da ilha de Patmos a Éfeso. Daqui costumava partir, quando o chamavam, até as regiões

pagãs vizinhas, com o fim de, em alguns lugares, estabelecer bispos; em outros, erguer igrejas

inteiras, e em outros ainda, ordenar a algum dos que haviam sido designados pelo Espírito.

7. Veio pois a uma cidade não muito distante e cujo nome alguns inclusive mencionam. Depois de

consolar os irmãos em tudo o mais, tendo visto um jovem de grande estatura, de aspecto elegante

e de alma vivaz, fixou seu olhar no rosto do bispo instituído sobre a comunidade e disse: 'Eu te

confio este com toda a atenção, na presença da igreja e com Cristo como testemunha.' O bispo

aceitou o jovem, prometendo-lhe tudo, mas João insistia no mesmo e apelando para as mesmas

testemunhas.

8. Logo regressou a Éfeso, e o presbítero219 levou para casa o jovem que lhe havia sido confiado e ali

o manteve, rodeou-o de afeto e por fim batizou-o. Depois disto afrouxou um pouco sua grande

solicitude e vigilância, pensando que havia imposto a salvaguarda perfeita: o selo do Senhor.

9. Mas certos rapazes de sua idade, malandros, dissolutos e tendentes ao mal, perverteram-no. Sua

liberdade era prematura. Primeiramente atraíram-no por meio de suntuosos banquetes; depois

levaram-no consigo, inclusive de noite, quando saíam para o roubo, e por fim exigiram-lhe

participar com eles de maldades maiores.

10. O jovem foi se acostumando a isto sem perceber, e desviando-se do caminho reto, como cavalo de

boca dura, brioso e que rejeita o freio, por seu vigor natural foi-se precipitando com mais força

ao abismo.

11. Acabou perdendo a esperança na salvação divina. Desde então não planejava coisas pequenas,

mas, tendo já cometido grandes crimes, já que estava perdido de uma vez por todas, considerava

justo correr o mesmo risco dos demais. Assim foi que, juntando-se aos mesmos e formando um

219 O mesmo referido acima como bispo.

bando de salteadores, era ele seu líder resoluto, o mais violento, o mais homicida, o mais temível

de todos.

12. Depois de algum tempo surgiu certa necessidade e voltaram a chamar João. Este, depois de ter

resolvido os assuntos pelos quais tinha vindo, disse: 'Bem, bispo, devolve-me o depósito que eu e

Cristo te confiamos na presença da igreja que presides e que é testemunha.'

13. O bispo a princípio ficou estupefato, acreditando ser vítima de calúnia sobre algum dinheiro que ele

não havia recebido: não podia crer no que não tinha nem podia deixar de crer em João. Quando

este lhe disse: 'O jovem é o que te peço, e a alma do irmão', o ancião prorrompeu em profundos

soluços e, marejado de lágrimas, disse: 'este está morto'. Como? Morto de quê? 'Está morto para

Deus - disse -, pois afastou-se transformado num perverso, um perdido, e para o cúmulo, um

salteador, e agora ocupa o monte que está frente à igreja, com uma quadrilha de sua mesma

índole.'

14. Rasgou o apóstolo sua roupa e, golpeando a cabeça, com grande lamento exclamou: 'Bom

guardião deixei para a alma do irmão! Mas tragam já um cavalo e alguém que me guie no

caminho.' E dali, tal como estava, saiu da igreja e foi-se.

15. Chegou ao lugar. Os sentinelas dos bandidos deitaram-lhe as mãos, mas ele não fugia nem

suplicava, mas aos gritos dizia: 'Para isso vim, levem-me ao vosso chefe.'

16. Este, entretanto, aguardava armado como estava, mas ao reconhecer João naquele que se

aproximava, fugiu cheio de vergonha. João o perseguia com todas suas forças, esquecido de sua

idade e gritando:

17. 'Por que foges de mim, filho, de mim, teu pai, desarmado e velho? Tem piedade de mim, filho, não

tema. Ainda tens esperança de vida. Darei conta por ti a Cristo, e se for necessário, com gosto

sofrerei por ti a morte, como o Senhor a sofreu por nós. Por tua vida eu darei em troca a minha

própria. Pára! Tenha fé! Foi Cristo que me enviou!'"

18. O jovem, ao ouvi-lo, primeiramente deteve-se, com os olhos baixos; em seguida largou as

armas, e tremendo, abraçou-se a ele. Seus lamentos eram já um discurso de defesa, e suas

lágrimas serviam-lhe de segundo batismo. Apenas ocultava a mão direita.

19. Mas João foi-lhe fiador, jurando que havia alcançado o perdão para ele por parte do Salvador, caiu

de joelhos, suplicante, e beijou a mesma mão direita considerando-a já purificada pelo

arrependimento. Reconduziu-o à igreja, orou com súplicas abundantes, acompanhou-o em sua

luta com jejuns prolongados e foi cativando seu espírito com os variados atrativos de sua

palavra, e segundo dizem, não saiu dali até tê-lo consolidado na igreja, depois de ter dado grande

exemplo de verdadeiro arrependimento e grandes sinais de regeneração, como troféu de uma

ressurreição visível.

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