1. Por este tempo vivia ainda na Ásia o mesmo a quem Jesus amou, o apóstolo e evangelista João, e
ali continuava regendo as igrejas depois de regressar do desterro na ilha, depois da morte de
Domiciano.
2. Que João permanecia em vida por este tempo é suficientemente confirmado por duas testemunhas.
Estas, representantes da ortodoxia da Igreja, são bem dignas de fé, tratando-se de homens como
Irineu e Clemente de Alexandria.
3. O primeiro deles, Irineu, escreve textualmente em alguma parte do livro II de sua obra Contra as
heresias como segue:
"E todos os presbíteros que na Ásia estão relacionados com João, o discípulo do Senhor, dão
testemunho de que João o transmitiu, porque ainda viveu com eles até os tempos de Trajano."
4. E no livro III da mesma obra manifesta o mesmo com estas palavras: "Mas também a igreja de
Éfeso, por ter sido fundada por Paulo e porque nela viveu João até os tempos de Trajano, é um
testemunho veraz da tradição dos apóstolos."
5. Por sua parte, Clemente assinala o mesmo tempo, e em sua obra que intitulou Quem é o rico que se
salvai Acrescenta uma narrativa valiosíssima para os que gostam de escutar coisas belas e
proveitosas. Toma pois, e lê o que ali escreveu:
6. "Escuta uma historieta, que não é uma historieta, mas uma tradição existente sobre o apóstolo
João, transmitida e guardada na memória. Efetivamente, depois que morreu o tirano, João
mudou-se da ilha de Patmos a Éfeso. Daqui costumava partir, quando o chamavam, até as regiões
pagãs vizinhas, com o fim de, em alguns lugares, estabelecer bispos; em outros, erguer igrejas
inteiras, e em outros ainda, ordenar a algum dos que haviam sido designados pelo Espírito.
7. Veio pois a uma cidade não muito distante e cujo nome alguns inclusive mencionam. Depois de
consolar os irmãos em tudo o mais, tendo visto um jovem de grande estatura, de aspecto elegante
e de alma vivaz, fixou seu olhar no rosto do bispo instituído sobre a comunidade e disse: 'Eu te
confio este com toda a atenção, na presença da igreja e com Cristo como testemunha.' O bispo
aceitou o jovem, prometendo-lhe tudo, mas João insistia no mesmo e apelando para as mesmas
testemunhas.
8. Logo regressou a Éfeso, e o presbítero219 levou para casa o jovem que lhe havia sido confiado e ali
o manteve, rodeou-o de afeto e por fim batizou-o. Depois disto afrouxou um pouco sua grande
solicitude e vigilância, pensando que havia imposto a salvaguarda perfeita: o selo do Senhor.
9. Mas certos rapazes de sua idade, malandros, dissolutos e tendentes ao mal, perverteram-no. Sua
liberdade era prematura. Primeiramente atraíram-no por meio de suntuosos banquetes; depois
levaram-no consigo, inclusive de noite, quando saíam para o roubo, e por fim exigiram-lhe
participar com eles de maldades maiores.
10. O jovem foi se acostumando a isto sem perceber, e desviando-se do caminho reto, como cavalo de
boca dura, brioso e que rejeita o freio, por seu vigor natural foi-se precipitando com mais força
ao abismo.
11. Acabou perdendo a esperança na salvação divina. Desde então não planejava coisas pequenas,
mas, tendo já cometido grandes crimes, já que estava perdido de uma vez por todas, considerava
justo correr o mesmo risco dos demais. Assim foi que, juntando-se aos mesmos e formando um
219 O mesmo referido acima como bispo.
bando de salteadores, era ele seu líder resoluto, o mais violento, o mais homicida, o mais temível
de todos.
12. Depois de algum tempo surgiu certa necessidade e voltaram a chamar João. Este, depois de ter
resolvido os assuntos pelos quais tinha vindo, disse: 'Bem, bispo, devolve-me o depósito que eu e
Cristo te confiamos na presença da igreja que presides e que é testemunha.'
13. O bispo a princípio ficou estupefato, acreditando ser vítima de calúnia sobre algum dinheiro que ele
não havia recebido: não podia crer no que não tinha nem podia deixar de crer em João. Quando
este lhe disse: 'O jovem é o que te peço, e a alma do irmão', o ancião prorrompeu em profundos
soluços e, marejado de lágrimas, disse: 'este está morto'. Como? Morto de quê? 'Está morto para
Deus - disse -, pois afastou-se transformado num perverso, um perdido, e para o cúmulo, um
salteador, e agora ocupa o monte que está frente à igreja, com uma quadrilha de sua mesma
índole.'
14. Rasgou o apóstolo sua roupa e, golpeando a cabeça, com grande lamento exclamou: 'Bom
guardião deixei para a alma do irmão! Mas tragam já um cavalo e alguém que me guie no
caminho.' E dali, tal como estava, saiu da igreja e foi-se.
15. Chegou ao lugar. Os sentinelas dos bandidos deitaram-lhe as mãos, mas ele não fugia nem
suplicava, mas aos gritos dizia: 'Para isso vim, levem-me ao vosso chefe.'
16. Este, entretanto, aguardava armado como estava, mas ao reconhecer João naquele que se
aproximava, fugiu cheio de vergonha. João o perseguia com todas suas forças, esquecido de sua
idade e gritando:
17. 'Por que foges de mim, filho, de mim, teu pai, desarmado e velho? Tem piedade de mim, filho, não
tema. Ainda tens esperança de vida. Darei conta por ti a Cristo, e se for necessário, com gosto
sofrerei por ti a morte, como o Senhor a sofreu por nós. Por tua vida eu darei em troca a minha
própria. Pára! Tenha fé! Foi Cristo que me enviou!'"
18. O jovem, ao ouvi-lo, primeiramente deteve-se, com os olhos baixos; em seguida largou as
armas, e tremendo, abraçou-se a ele. Seus lamentos eram já um discurso de defesa, e suas
lágrimas serviam-lhe de segundo batismo. Apenas ocultava a mão direita.
19. Mas João foi-lhe fiador, jurando que havia alcançado o perdão para ele por parte do Salvador, caiu
de joelhos, suplicante, e beijou a mesma mão direita considerando-a já purificada pelo
arrependimento. Reconduziu-o à igreja, orou com súplicas abundantes, acompanhou-o em sua
luta com jejuns prolongados e foi cativando seu espírito com os variados atrativos de sua
palavra, e segundo dizem, não saiu dali até tê-lo consolidado na igreja, depois de ter dado grande
exemplo de verdadeiro arrependimento e grandes sinais de regeneração, como troféu de uma
ressurreição visível.