1. Depois de Nero e Domiciano, conta uma tradição que, sob o imperador cuja época estamos
agora investigando242, voltaram a ocorrer perseguições contra nós, parcialmente e por cidades,
devido a levantes populares. Nesta época, sobre Simeão, o filho de Clopas, do qual já dissemos que
foi o segundo bispo da igreja de Jerusalém, sabemos que terminou sua vida no martírio.
236 Esta declaração de Clemente não tem respaldo na Bíblia.
237 Segundo 1 Co 7:8 Paulo não estava casado. A afirmação de Clemente baseia-se numa leitura de Fp 4:3 diferente
do texto aceito.
238 Vide II:XXV:5.
239 Jo 13:25; 21:20.
240 Ex 28:36-38.
241 At 21:8-9.
242 Ou seja, Trajano.
2. Testemunha disto é aquele mesmo Hegesipo, de quem já utilizamos diferentes passagens. Ao
falar de alguns hereges, acrescenta claramente que por esse tempo, efetivamente, o mencionado
Simeão teve que sofrer uma acusação e que durante muitos dias foi maltratado de muitas
maneiras por ser cristão, e que depois de deixar admiradíssimos o juiz e os que o
acompanhavam, alcançou um final semelhante à paixão do Senhor.
3. Mas nada melhor do que ouvir o próprio escritor, que relata isto mesmo textualmente como
segue:
"A partir disto, evidentemente alguns hereges acusam Simão243, o filho de Clopas, por ser
descendente de Davi e cristão, e assim sofre martírio na idade de cento e vinte anos, sob o
imperador Trajano e o governador Ático."
4. O mesmo autor diz que inclusive os próprios carrascos foram presos quando se procuraram os
descendentes da tribo real dos judeus, já que também eles o eram. Com um pouco de cálculo
pode-se dizer que também Simeão viu e ouviu pessoalmente o Senhor, baseando-se na longa
duração de sua vida e na menção que o texto dos evangelhos faz de Maria de Clopas244, de quem
já se demonstrou que Simeão era filho.
5. O mesmo escritor diz que também outros descendentes de um dos chamados irmãos do Salvador,
de nome Judas, sobreviveram até este mesmo reinado, depois de ter dado testemunho de sua fé em
Cristo sob Domiciano, como já referimos anteriormente245. Escreve o seguinte:
6. "Vêm pois, e põe-se à frente de toda a Igreja como mártires e como membros da família do
Salvador. Quando em toda a Igreja se fez paz profunda, vivem ainda até o tempo do imperador
Trajano, até que o filho do tio do Salvador, o anteriormente chamado Simão246, filho de Clopas,
foi denunciado e acusado igualmente pelas seitas, também pela mesma razão, sob o governador
consular Ático. Durante muitos dias torturaram-no e deu testemunho, de maneira que todos,
inclusive o governador, ficaram muito admirados de como continuava resistindo apesar de seus
cento e vinte anos247 E mandaram crucificá-lo."
7. Depois disto o mesmo autor, explicando o referente aos tempos indicados, acrescenta que
efetivamente, até aquelas datas a Igreja permanecia virgem, pura e incorrupta, como se até esse
momento os que se propunham corromper a sã regra da pregação do Salvador, se é que existiam,
ocultavam-se em escuras trevas.
8. Mas quando o coro sagrado dos apóstolos alcançou de diferentes maneiras o final da vida e
desapareceu aquela geração dos que foram dignos de escutar com seus próprios ouvidos a divina
Sabedoria, então teve início a confabulação do erro ímpio por meio do engano de mestres de
falsa doutrina, os quais, não restando nenhum apóstolo, daí em diante já a descoberto, tentaram opor
à pregação da verdade a pregação da falsamente chamada gnosis248.