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Livro 3 Flávio Josefo

Capítulo 6 Flávio Josefo

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,
"SOBRE A DISCIPLINA DOS ROMANOS NA GUERRA.",
"242. Não se pode admirar a prudência dos romanos, que os leva a tornar
seus criados, não somente aptos para servi-los, mas também para tudo o mais,
inclusive tomar as armas e combater. Se considerarmos sua disciplina e seu
proceder em todas as coisas que se referem à guerra, não havemos de duvidar
de que somente ao valor, e não à sorte, eles devem o império do mundo. Não
esperam, para esse exercitar, que a guerra ou a necessidade a isso os obrigue;
fazem-no em plena paz e, como se tivessem nascido com as armas na mão,
jamais deixam de se servir delas. Tomar-se-iam tais exercícios por verdadeiros
combates, tanto se lhes parecem; assim, não nos devemos admirar de que eles
são capazes de enfrentar os inimigos com tão invencível coragem. Jamais
rompem a ordem, o medo nunca os faz perder o juízo e o cansaço não os abate.
Dessa forma, como não encontram inimigos em que todas essas qualidades se
reúnam, sempre saem vitoriosos; e o que acabo de dizer nos mostra que
podemos chamar os seus exercícios de verdadeiros combates, onde não se
derrama sangue, e seus combates de exercícios sangrentos. Em qualquer lugar
onde fazem guerra, não podem ser surpreendidos por um repentino ataque dos
inimigos, porque, antes de serem atacados, eles fortificam o acampamento, não
de qualquer modo, nem ligeiramente, mas de uma forma quadrangular e se a
terra é desigual, eles a aplainam, pois levam sempre consigo um grande
número de feridos e de outros operários para que nada lhes falte do que é
necessário para a fortifi-cação. O interior do seu acampamento é dividido em
quarteirões, onde se fazem os alojamentos dos oficiais e dos soldados. O
exterior parece-se com muralhas de uma cidade, porque eles erguem torres
eqüidistantes em cujos intervalos colocam máquinas para atirar pedras e
dardos. O acampamento tem quatro partes, bastante largas, a fim de que os
homens e os cavalos possam entrar e sair facilmente. O interior está dividido
em ruas, no meio das quais estão os alojamentos dos chefes, um pretório feito à
maneira de um pequeno Templo, um mercado, oficinas de operários e tribunais
onde os principais oficiais julgam as questões que surgem. Assim, tomar-se-ia o
acampamento por uma cidade, feita no momento, tão grande é o número dos
que ali trabalham; sua longa experiência os põe nessa situação, mais do que se
poderia acreditar. Quando necessário, rodeiam-no de uma defesa, em trin-
cheira, de quatro côvados de largura e outro tanto de profundidade. Os
soldados, com suas armas sempre perto, vivem juntos, em boa ordem e de
perfeito entendimento. Vão por esquadras ao bosque, ao rio, aos campos,
buscar forragem e tomam as refeições juntos, não lhes sendo permitido comer
separadamente. O som da trom-beta indica-lhes a hora de dormir, de despertar,
de entrar em guarda, coisas todas tão bem reguladas, que tudo se faz com
ordem. Os soldados pela manhã vão cumprimentar seus comandantes, estes
vão saudar os tribunos e os tribunos e os oficiais vão juntos cumprimentar o
comandante supremo. Dão-se-lhes a senha e todas as ordens necessárias para
transmiti-las aos subalternos, para que todos conheçam a maneira como
combater, quer seja necessário em escaramuças, ou retirar-se ao acam-
pamento. Quando se vai levantar o acampamento, o primeiro som de trombeta
manda desmanchar as tendas e preparar-se para a partida. Quando a trombeta
toca uma segunda vez, eles carregam a bagagem, e esperam para partir, um
terceiro sinal, como se faria numa corrida de cavalos; incendeiam o
acampamento, porque é muito fácil fazer outro, mas também para impedir que
os inimigos dele se possam servir. Quando a trombeta toca a terceira vez todos
marcham e para que conservem as fileiras, não se permite a ninguém, ficar
atrás. Um arauto, então, que está do lado direito do general, pergunta-lhes por
três vezes se estão prontos para combater; eles respondem também por três
vezes, em voz alta, num tom que demonstra alegria, que estão todos prontos.
Muitas vezes antecipam-se ao arauto, mostrando com seus clamores,
levantando os braços, que querem lutar. Marcham em seguida, na mesma
ordem, como se tivessem o inimigo pela frente, sem jamais desmanchar as
fileiras. Os soldados de infantaria são defendidos por capacetes e couraças;
cada qual usa duas espadas, e a que está do lado esquerdo, é muito mais
comprida que a outra, pois a que eles têm do lado direito, só tem um palmo de
comprimento e seria mais um punhal do que uma espada. Soldados escolhidos
que acompanham o chefe levam dardos e tarjas; todos os outros têm dardos e
longos escudos, e trazem, numa espécie de cesto, uma serra, um podão, um
machado, um picão, uma foice, uma corrente, pedaços longos de couro e pão
para três dias, de sorte que não estão menos carregados que os cavalos. Os da
cavalaria trazem uma longa espada do lado direito, uma lança, um escudo
preso de lado ao cavalo e uma aljava com três dardos ou mais, cuja ponta é
muito larga, e que não são menos longos que os da infantaria. Suas couraças e
capacetes são semelhantes aos da infantaria. Os escolhidos para acompanhar o
chefe estão armados como os outros; é por sorte que as tropas ocupam a
dianteira, isto é, marcham na frente.
Vimos, pois, a maneira de acampar e as diversas armas dos romanos.
Nada fazem em seus combates sem premeditar, mas suas ações são sempre o
resultado de outras deliberações. Assim, se cometerem faltas poderão remediá-
las facilmente; e embora essas coisas sejam maduramente preparadas,
preferem que seus efeitos não correspondam à expectativa a dever seus felizes
resultados à sorte, porque as vantagens que daí se tiram somente levam a agir
inconsi-deradamente; ao passo que a infelicidade, que se segue a uma
resolução sabiamente tomada, serve para se prever o que pode no futuro fazer
evitar outras semelhantes. Ainda mais, que não se pode pretender a honra do
que sucede fortuitamente; e, ao contrário, nas desgraças que acontecem contra
toda expectativa, tem-se pelo menos a consolação de nada ter deixado do que a
prudência aconselhava.
Esses contínuos exercícios militares não somente fortalecem o corpo dos
soldados, mas também reforçam-lhes a coragem; o temor do castigo torna-os
exatos em todos os deveres, pois as leis ordenam penas capitais, não somente
para a deserção, mas também para as mínimas negligências. Por mais severas
que sejam as leis, os oficiais que as fazem observar o são ainda mais; mas, as
honras com que recompensam o mérito são tão grandes, que os que sofrem os
mais rudes castigos não ousam se queixar. Essa maravilhosa obediência fez
com que nada seja mais belo na paz, nem mais temível na guerra, do que o
exército romano. Tão grande número de homens, porém, assemelha-se a um só
corpo, que se move todo ao mesmo tempo, pois as tropas que o compõem estão
admiravelmente bem organizadas. Seus ouvidos estão atentos às ordens, seus
olhos, abertos aos sinais, e suas mãos, preparadas para a execução do que lhes
é mandado; são valentes e infatigáveis na luta; uma vez empenhados num
combate, não recuam, nem há número de inimigos, nem rios, nem florestas,
nem montanhas que lhes possam impedir a marcha para a vitória, nem mesmo
a adversidade, porque eles não se julgam dignos do nome de romanos, se
também sobre ela não triunfarem. Não nos admiremos, portanto, de que exérci-
tos, que executam de maneira heróica conselhos tão sabiamente tomados,
tenham levado longe suas conquistas. Esse soberbo império tem por limites o
Eufrates do lado do oriente, o oceano do lado do ocidente, a África do lado do
sul e o Reno e o Danúbio do lado do norte, e podemos dizer, sem bajulação, por
maior que seja a extensão de tantos reinos e províncias, o coração desse povo,
que sua prudência, unida ao valor, tornaram senhor do mundo, é ainda maior.
Meu fim, no que acabo de dizer, não é tanto tecer elogios aos romanos,
mas consolar àqueles que eles venceram e fazer os outros perder o desejo de se
revoltar contra eles. Talvez também estas palavras sirvam para aqueles que,
apreciando a boa disciplina, como ela merece, não estão particularmente
informados da que os romanos observam na guerra.",