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Livro 3 Flávio Josefo

Capítulo 25 Flávio Josefo

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,
"JOSEFO DETERMINA ENTREGAR-SE AOS ROMANOS E OS QUE ESTAVAM COM
ELE, NAQUELA CAVERNA, FAZEM-LHE VEEMENTES CENSURAS E EXORTAM-NO
A TOMAR A MESMA RESOLUÇÃO QUE ELES, ISTO É, MATAR-SE.
PALAVRAS QUE LHES DIRIGE PARA DISSUADI-LOS DESSE INTENTO.",
"267. josefo, depois dessa oração, prometeu entregar-se a Nicanor;
imediatamente os que estavam com ele, naquela caverna, rodearam-no de todos
os lados, exclamando: Onde está o amor pelas nossas leis? Onde estão aquelas
almas generosas, aqueles verdadeiros judeus, nos quais Deus, ao criar,
infundiu tão grande desprezo pela morte? Josefo, tendes tanto amor à vida, que
para conservá-la vos determinastes entregar, tornando-vos escravo? Ousareis
ainda ver a luz do dia, depois de ter perdido a liberdade? Esquecestes tão
depressa tantas exortações que nos fizestes, para nos levar a sacrificar tudo
para defendê-la? A opinião que tínhamos de vossa coragem e de vossa
prudência, quando combatíeis contra os romanos, estava mal fundada, se
esperais agora encontrar entre eles vossa salvação. E se ela corresponder ao
juízo que dela fazíamos, como podeis dever vossa vida àqueles que então
consideráveis como vossos mortais inimigos; se sua boa sorte vos fez esquecer
vossos primeiros sentimentos, nós não os perdemos, como vós. Conservamos
sempre o mesmo amor pelas nossas santas leis e pela glória de nossa pátria e
vos oferecemos para conservá-los, nossos braços e nossas espadas. Se sois
bastante generoso para vos matardes a vós mesmos, conservareis, morrendo, a
qualidade de chefe dos judeus, do contrário, não deixareis de morrer, pois
recebereis a morte de nossas próprias mãos, mas vós morrereis como um
covarde e como um traidor.
Depois destas palavras puxaram das espadas ameaçadoramente, para
matá-lo, se ele se entregasse aos romanos. Josefo, então, temendo faltar ao que
devia a Deus, se morresse antes de ter comunicado aos seus compatriotas
todas aquelas coisas que ele mesmo lhe havia manifestado, recorreu à razão,
que julgou ser a mais própria para persuadi-los, e falou-lhes deste modo:
268. De onde vem essa vontade que sentis de vos matar a vós mesmos e
em querer separar corpo da alma, dividindo o que a natureza tão fortemente
uniu? Se alguém imagina que eu mudei de idéia, os romanos sabem-no se é
verdade a afirmação, de que nada é mais glorioso do que morrer na guerra, mas
pelas leis da guerra e pelas mãos dos vencedores. Estou ainda de acordo em
que não deveria criar dificuldade em me matar do mesmo modo que rogar aos
romanos que me matem; mas, ainda que sejamos seus inimigos, eles nos
querem conservar a vida, com quanto mais forte razão somos nós levados a
conservá-la e em nada haveria mais loucura do que em nos tratarmos mais
cruelmente do que queremos que eles nos tratem? É certamente uma bela coisa
morrer pela liberdade, contanto que seja combatendo para defendê-la, caindo
sob as armas daqueles que nô-la querem arrebatar. Mas essas circunstâncias
cessam agora, pois os combates terminaram e os romanos não nos querem tirar
a vida. Quando nada nos obriga a buscar a morte, não há menos covardia em
dá-la a si mesmo do que temê-la e fugir dela, quando o dever e a honra nos
obrigam a tal nos expormos. Que nos impede entregarmo-nos aos romanos, se
não o temor da morte? E que vantagem há, então, em se escolher uma certa
para se evitar uma incerta? Se se disser que é para se evitar a escravidão, eu
pergunto, se o estado em que nos encontramos pode passar como um estado
livre; e se se acrescentar que é um ato de coragem, matar-se a si mesmo, eu
afirmo, ao contrário, que é uma covardia, como imitar um piloto tímido que,
pelo temor da tempestade, afundasse, ele mesmo, seu navio, antes de correr
risco de perecer, e por fim, que é combater o sentimento de todos os animais e
por uma impiedade sacrílega ofender a Deus mesmo, o qual criando-os, deu a
todos um instinto contrário. Pois vemos que eles se matam a si mesmos,
voluntariamente; mas a natureza não lhes inspira como uma lei inviolável o
desejo de viver? Essa razão não faz também que consideremos como nossos
inimigos e castiguemos como tais os que tentam contra nossa vida? Como a
recebemos de Deus, podemos crer que Ele tolere, sem se ofender, que os
homens ousem desprezar o dom que lhes fez? E como é dele que recebemos o
ser, ousaríamos querer deixar de existir a não ser segundo lhe apraz e Ele
determina? E verdade que nossos corpos são mortais, porque são feitos de uma
matéria frágil e corruptível; mas nossas almas são imortais e participam de
algum modo da natureza de Deus. Assim não podemos sem impiedade tirar aos
homens essa graça, que eles dEle recebem como um depósito que lhes quis
confiar. E se alguém quiser fazê-lo, poder-se-á iludir em ocultar aos olhos de
Deus a ofensa que lhe faz? Todos estão de acordo em que é justo castigar um
escravo que foge de seu senhor, embora esse senhor seja mau e nós julgaremos
poder sem crime abandonar a Deus que não somente é nosso senhor mas um
senhor soberanamente bom? Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre a
posteridade daqueles, que depois de ter chamado para junto de si, entregaram
em suas mãos, a vida, que, segundo as leis da natureza, Ele lhes deu e que
suas almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes e voltar, no correr
dos séculos, a animar corpos que sejam puros como elas* e que ao contrário, as
almas dos ímpios, que por uma loucura criminosa dão a morte a si mesmos são
precipitadas nas trevas do inferno; e que Deus, o Pai de todos os homens, vinga
as ofensas dos pais nos filhos? Foi por isso que o nosso sapientíssimo
legislador, conhecendo o horror de tal crime, determinou que os corpos dos que
se matam, voluntariamente, fiquem sem sepultura até o pôr-do-sol, embora
seja permitido enterrar antes os que foram mortos na guerra; e há mesmo
nações que cortam as mãos dos assassinos que se mataram a si mesmos,
porque julgam justo separá-las de seus corpos, como estão separados seus
corpos de suas almas. Deixemo-nos, pois, persuadir pela razão. Por maiores
que sejam as nossas desgraças, todos os homens a elas estão sujeitos; mas não
acrescentemos ainda a tudo a desgraça de ofender a Deus, nosso Criador, com
uma ação que atrairia sobre nós a sua indignação e a sua ira. Se queremos
viver, não temamos não poder fazê-lo com honra, depois de ter demonstrado
com tantos feitos nosso valor e nossa virtude. Se nos obstinarmos em querer
morrer, morramos gloriosamente, recebendo a morte das mãos daqueles de
quem seremos prisioneiros de guerra. Não quero me tornar inimigo de mim
mesmo, faltando, por uma indesculpável traição à fidelidade, que devo a mim
mesmo, nem ser mais imprudente do que aqueles que se tornam
voluntariamente inimigos, fazendo, para tirar a minha vida, o que fazem para
salvar a sua. Desejo, entretanto, que os romanos não faltem à palavra e eu não
somente morrerei com coragem, mas com prazer, se depois de me terem dado
sua palavra, eles me tirarem a vida, porque nada tanto me poderia consolar por
nossas perdas, como ver que, com essa vergonhosa perfídia, eles obscureceriam
o brilho de sua vitória.
* Parece, segundo estas palavras, que Josefo acreditava na metempsicose.",