Livro 3 Flávio Josefo
Capítulo 33 Flávio Josefo
,
"TITO DECIDE, COM SEISCENTOS CAVALEIROS, ATACAR UM NÚMERO MUITO
GRANDE DE JUDEUS QUE SAÍRA DE TARIQUÉIA. DISCURSO QUE ELE FAZ AOS
SEUS, PARA ANIMÁ-LOS AO COMBATE.",
"281. O grande número de inimigos obrigou Tito a mandar dizer a
Vespasiano que tinha necessidade de mais soldados, para atacá-los. Mas, antes
que o reforço tivesse chegado, vendo que aquela grande multidão havia
atemorizado os seus, embora a maior parte mostrasse que não os temia, assim
falou-lhes, de um lugar alto, de onde todos podiam ouvi-lo: Romanos! É por
nomeá-los que eu começo, porque esse nome tão glorioso basta para pôr diante
de vossos olhos as ações heróicas dos vossos antepassados ilustres; falarei em
seguida daqueles contra os quais deveis combater. No que depende de vós, que
nação em toda a terra ousou resistir-nos e contra a qual não fomos sempre
vencedores? Quanto aos judeus, é preciso convir que, ainda que eles tenham
sempre sucumbido sob a força de nossas armas, jamais se deram por vencidos.
Que motivo haveria, então de termos menos coragem na prosperidade, do que
eles na adversidade? Mas noto com alegria em vossos rostos vossa
generosidade, mas temo que o grande número de inimigos atemorize a alguns
de vós. É isso que me obriga a vos exortar a vos lembrardes quem sois e quem
são eles. Embora seja verdade que os judeus são corajosos e desprezam a
morte, eles têm tão pouca disciplina e conhecimento da guerra, que por maior
que seja seu número, são mais uma multidão confusa, do que um exército.
Todos sabem, ao contrário, que nada se pode acrescentar à nossa disciplina e à
nossa experiência. Por que, entre todas as nações do mundo, nós somos os
únicos que continuamos, durante a paz, a fazer todos os exercícios da guerra,
se não para não temermos atacar os que são muito mais numerosos do que
nós? De que nos serviriam nossos contínuos exercícios, se não nos tornassem
muito mais temíveis do que aqueles que não têm experiência alguma?
Considerai também que combateis armados, contra homens quase sem armas,
com cavalaria contra infantaria e com excelentes chefes contra tropas, que
podemos dizer, não os têm. Pensai que tantas vantagens que tendes sobre eles
lhes devem diminuir o número e em vosso espírito aumentar o vosso. Por mais
valentes que sejam os inimigos que temos de combater, embora sejam em
número muito maior, não deixaremos de vencê-los, quando os atacarmos com
coragem, porque podemos mais facilmente conservar a ordem e socorrer-nos a
nós mesmos, ao passo que a grande quantidade de tropas, recebe, o mais das
vezes, muito mais prejuízo pela confusão que traz, do que pelas armas inimigas.
A ousadia, o desespero, o furor em que consiste a principal força dos judeus,
pode sem dúvida servir muito quando ajudado pela sorte, mas o menor
insucesso apaga essa grande chama e a torna inútil e desprezível. Ao contrário,
o proceder, a firmeza e a coragem que nos fazem levar tão além a felicidade de
nossas armas não nos deixam, quando essa felicidade nos abandona. Que
vergonha para nós demonstrar menos coragem, em confirmar nossas
conquistas e sustentar nossa glória, do que os judeus para defender sua
liberdade e sua pátria? E depois de termos dominado toda a terra, poderíamos
tolerar que esse povo tivesse por mais tempo a ousadia de nos resistir? Que
temos nós a temer, quando mesmo nos sentíssemos muito fracos? Nosso
auxílio está tão perto que restauraria o combate. Mas sozinhos teríamos a
honra dessa vitória, se sem esperarmos o auxílio que meu pai nos mandará,
sem permitir que eles tomem parte na luta, nós os combatêssemos. Trata-se
hoje do juízo que se deve fazer de meu pai, de mim e de vós; dele, para saber se
merece a alta reputação que tantos grandes feitos lhe granjearam; de mim, para
se conhecer se sou digno de ser seu filho e de vós, para se ver se eu devo me
julgar feliz por vos comandar. Como meu pai está acostumado a vencer sempre,
com que olhos poderia ele me contemplar se eu fosse vencido? Poderíeis vós
tolerar a vergonha de não serdes vitoriosos, vendo que vosso chefe despreza os
maiores perigos para vos abrir o caminho da vitória? Segui-me, então, com
firme confiança de que Deus nos ajudará no combate e não duvideis de que
venceremos muito mais facilmente os inimigos, aproximando-nos deles, do que
atacando-os apenas de longe.",