Livro 3 Flávio Josefo
Capítulo 32 Flávio Josefo
,
"OS PRINCIPAIS HABITANTES DE TIBERÍADES IMPLORAM A CLEMÊNCIA DE
VESPASIANO E ELE PERDOA-LHES EM ATENÇÃO AO REI AGRIPA. JESUS, FILHO
DE TOBIAS, FOGE DE TIBERÍADES PARA TARIQUÉIA. VESPASIANO É RECEBIDO
EM TIBERÍADES E EM SEGUIDA CERCA TARIQUÉIA.",
"279. Essa má ação deu tanto motivo de temor aos habitantes de
Tiberíades, que, governados por Agripa, seu rei, eles se foram lançar aos pés de
Vespasiano, para rogar-lhe que tivesse compaixão deles e que não atribuísse a
toda a cidade o crime de alguns; mas perdoasse a um povo que sempre fora
afeiçoado aos romanos e se contentasse em castigar os revoltosos que lhes
haviam impedido abrir-lhe as portas. Vespasiano, comovido com suas palavras
e pelo receio que Agripa sentia por aquela cidade, determinou perdoá-los,
embora se sentisse muito ofendido por lhe terem tomado aqueles cavalos.
Assim, garantiu ao povo que não lhe faria mal algum; quando Jesus e seus
revoltosos viram que não havia mais segurança para eles, fugiram para
Tariquéia.
280. Vespasiano mandou no dia seguinte Trajano com a cavalaria para
apoderar-se da fortaleza e averiguar se todo o povo tinha mesmo os sentimentos
que aqueles homens lhe haviam manifestado. Tendo constatado que de fato era
assim mesmo, relataram-no a Vespasiano, o qual marchou para a cidade com
todo o exército. Os habitantes compareceram à sua presença, com grandes
aclamações, chamando-o de benfeitor e salvador. Suas tropas avançavam
lentamente porque as portas eram muito estreitas; mandou então derrubar um
pedaço do muro, da parte do sul e proibiu ao mesmo tempo, em atenção a
Agripa, que se fizesse qualquer mal aos habitantes. Confirmou ao príncipe a
graça que lhe havia concedido, de não mandar derrubar o restante dos muros,
ante a palavra que lhe deu, de que a cidade permaneceria tranqüila; não houve
cuidados que o príncipe não tomasse, para aliviar os males, que a divisão em
que se encontrava lhe tinham causado.
Vespasiano partiu de Tiberíades para ir acampar perto de Tariquéia e
fortificou o acampamento com um muro, porque achou que o cerco daquela
cidade iria durar muito tempo, pois os revoltosos lá se haviam reunido,
confiantes em sua força e na que lhes dá o lago de Genesaré. A cidade é como
Tiberíades, construída sobre uma montanha; nos lugares onde não é defendida
pelo lago, Josefo a fizera rodear por uma muralha muito forte cujo perímetro
não era menor que o de Tiberíades. Desde o começo da revolta, para lá havia
feito levar todo o dinheiro e todas as provisões possíveis e a tinha posto assim
em condições de gozar de grandes vantagens. Os sitiados tinham ainda, a mais,
sobre o lago, várias barcas armadas, que lhes podiam servir em combates nas
águas e, para nelas se salvarem, se a luta em terra não lhes fosse favorável.
Jesus e os de seu partido, sem se intimidarem nem com numerosas forças
dos romanos nem com sua disciplina, deram um furioso assalto contra os que
fortificavam o acampamento, afugentaram os trabalhadores, derrubaram uma
parte do muro, antes que eles pudessem impedi-lo e só se retiraram quando
viram os inimigos reunidos em tão grande número que não lhes poderiam
resistir. Os romanos perseguiram-nos até o lago, onde, entrando nas barcas,
colocaram-se fora do alcance dos dardos e das flechas. Lançaram as âncoras ao
largo e todas as barcas ficaram em ordem de batalha, apertadas umas contra
as outras, parecendo que, de sobre as águas, queriam combater contra os
romanos, que estavam em terra. Vespasiano soube que naquele mesmo tempo
haviam aparecido muitos judeus, em um lugar perto da cidade; então, para lá
mandou seu filho, com seiscentos cavaleiros, escolhidos entre os melhores de
suas tropas.",