Livro 3 Flávio Josefo
Capítulo 36 Flávio Josefo
,
"COMBATE NAVAL, ONDE VESPASIANO DERROTA, NO LAGO DE GENESARÉ, A TODOS OS
QUE HAVIAM ESCAPADO DE TARIQUÉIA.",
"284. Os navios que Vespasiano mandara construir ficaram prontos, foram
postos no lago e ele embarcou com tantos soldados quantos necessários para a
empresa que intentava, contra os que haviam fugido para o lago. Então não
lhes restanteu mais esperança de salvação. Eles não ousavam vir por terra,
porque lá tudo lhes era contrário; só podiam, com extrema desvantagem,
combater sobre as águas, porque suas barcas, que eram próprias para assaltos
e pirataria, eram muito fracas para resistir aos navios e tendo poucos homens
em cada uma delas, não ousavam atacar os romanos. Por isso, o mais que
podiam fazer, era navegar em redor deles, atirando-lhes pedras, de longe e
algumas vezes, mesmo, de perto; mas quer de um modo quer de outro,
causavam-lhes pouco mal, recebendo ao contrário, graves perdas e prejuízos.
Aquelas pedras só faziam barulho contra as armas dos romanos e quando se
aproximavam eram atirados à água, e suas barcas reviradas. Os romanos
matavam a golpes de dardos os que lhes estavam ao alcance das armas e a
golpes de espada, os que estavam nas barcas. Aprisionaram ainda outros com
barca e tudo, quando rodeados por mais de uma embarcação; matavam a
golpes de flechas, ou faziam afundar com as barcas, os que procuravam salvar-
se; cortavam a cabeça ou as mãos, aos que, no auge do desespero a eles
vinham nadando. Assim aqueles infelizes iam perecendo um por um, de
maneiras diferentes, até que, inteiramente derrotados e querendo fugir para a
terra, foram mortos no lago, a flechadas, e os outros, que estavam perto da
terra, bem como os que já tinham desembarcado não tiveram melhor sorte, de
tal modo, que nem um só escapou com vida, naquela horrível matança. O lago
estava todo vermelho de tanto sangue, suas margens, cheias de náufragos e
ambos cobertos de cadáveres.
Poucos dias depois, aqueles corpos inchados e lívidos corromperam o ar
de tal modo, com seu mau cheiro, que toda aquela região ficou contaminada. O
espetáculo era tão horrível que não somente causava espanto aos judeus, mas
obrigava os romanos a se lastimarem também, embora eles mesmos fossem os
culpados de tudo. Tal o desenlace do combate naval, que pereceram nele e na
cidade cerca de seis mil e quinhentos homens.
Vespasiano, depois desses dois feitos, subiu a Tariquéia, ao seu tribunal,
para deliberar com os principais do seu exército, se haveria de tratar menos
favoravelmente do que aos habitantes, os estrangeiros que tinham sido causa
da guerra ou se lhes perdoaria também, conservando-lhes a vida. Todos foram
de opinião que os matassem, porque jamais ficariam em paz, se continuassem
em liberdade, mas obrigariam a fazer novas guerras, àqueles com os quais
convivessem. Vespasiano não duvidava de que eles eram indignos de perdão e
de que se lho concedesse, não se insurgiriam contra os que lhes haviam salvado
a vida; mas estava hesitante de como fazê-los morrer, porque se os fizesse
executar em Tariquéia, seus habitantes veriam com grande dor, derramar-se o
sangue daqueles pelos quais haviam intercedido e não queria dar tal desgosto
aos que se haviam entregue ao seu domínio, ante a promessa de tratá-los bem.
Julgou, entretanto, não se dever opor aos sentimentos de tantos oficiais, que
afirmavam não haver rigor de que se não devesse usar contra os judeus e que
era necessário preferir o útil ao honesto numa ocasião em que, como naquela,
não se podia satisfazer a ambos. Assim, permitiu aos estrangeiros que se
retirassem pelo único caminho que leva a Tiberíades; e como se acredita
facilmente naquilo que se deseja, eles partiram sem temer, nem que se tentasse
contra sua vida, nem que se lhes tirasse o dinheiro. Os romanos, para impedir
que algum escapasse, levaram-nos a Tiberíades e os encerraram na cidade.
Vespasiano chegou logo depois e mandou colocá-los no lugar dos exercícios
públicos. Ali fez matar todos os velhos e os incapazes de pegar em armas, em
número de mil e duzentos; mandou a Nero seis mil homens fortes e robustos
para trabalhar no istmo da Moréia. O povo foi feito escravo; foram vendidos
trinta mil e quatrocentos deles; o restante foi dado a Agripa, para fazer o que
quisesse dos que eram do seu reino. Os outros eram da Traconítida, da
Galaunita, de Hipom e vários de Gadara, dos quais a maior parte eram
revoltosos e fugitivos, que não podendo viver em paz, tinham insuflado a
guerra. Haviam sido aprisionados no dia oito de setembro.",
"