Livro 3 Flávio Josefo
Capítulo 15 Flávio Josefo
,
"OS ROMANOS DERRUBAM OS MUROS DA CIDADE COM OS ARÍETES;
DESCRIÇÃO DOS EFEITOS DESSA MÁQUINA. OS JUDEUS INCENDEIAM AS
MÁQUINAS E OS TRABALHOS DOS ROMANOS.",
"254. Tão longo assédio e as incursões contínuas dos sitiados faziam com
que Vespasiano se considerasse, ele mesmo, como sitiado; suas plataformas
haviam sido concluídas até à altura das muralhas e ele resolveu servir-se do
aríete. Essa terrível arma é feita como um poste, semelhante a um mastro de
navio de altura e grossura enormes, cuja ponta superior é armada com uma
cabeça de ferro proporcional ao restante e semelhante à de um carneiro, o que
lhe valeu o nome, porque bate nas muralhas como o carneiro ataca também
com a cabeça os seus adversários. Esse mastro é suspenso e balançado por
meio de grossos cabos, como o braço de uma balança, sobre um outro grande
poste apoiado sobre a terra e sustentado de ambos os lados por escoras muito
fortes e bem ligadas. Assim o aríete, balan-çando-se no ar, levantado e abaixado
com violência por um grande número de homens, bate com a cabeça,
fortemente, sobre um muro que se quer derrubar, e toda resistência possível
cede-lhe à violência dos golpes repetidos.
255. A impaciência de Vespasiano em tomar a praça, por causa do
prejuízo que a duração do cerco estava trazendo aos seus negócios, e pela
oportunidade que dava aos judeus de se prepararem, como eles faziam com
todas as suas posses, para resistir à guerra, fizeram-no decidir-se a se entregar
àquele derradeiro esforço; os romanos começaram por aproximar ainda mais as
máquinas que atiram dardos, flechas, pedras e avançar os arqueiros e os
fundibulários, a fim de impedir que os judeus subissem às muralhas para
defendê-las. Mandaram em seguida avançar o aríete coberto de telhas e de
peles, para conservá-lo e escondê-lo. Logo com os primeiros golpes, derrubou a
muralha e os habitantes da cidade soltaram um grande grito, como se já os
inimigos tivessem tomado a praça.
Mas como Josefo tinha previsto que os muros não poderiam resistir por
muito tempo aos ímpetos de uma máquina tão poderosa, cogitou um meio de
lhe diminuir o efeito. Mandou encher de palha uma grande quantidade de sacos
que eram descidos com cordas do alto do muro, ao lugar onde o aríete batia;
assim os golpes que d=ava não faziam estragos, perdiam a força, encontrando
um anteparo mole que lhe anulava a pancada.
Esse estratagema retardou muito o trabalho dos romanos, porque de
qualquer lado que eles voltassem o aríete, encontravam sacos cheios de palha,
que lhe inutilizavam os golpes. Por fim, cortaram com foices amarradas a
longas varas as cordas onde os sacos estavam presos. Assim, o aríete continuou
a fazer o seu ofício e o muro que tinha sido construído há pouco tempo não
resistiu mais; Josefo e os seus então recorreram ao fogo. Reuniram em três
lugares diversos todo o material combustível, misturaram-lhe betume, piche,
enxofre, puseram-lhe fogo, e queimaram assim em menos de uma hora todas as
máquinas e todas as obras que haviam custado aos romanos tempo e trabalho,
embora tudo fizessem para impedi-lo; nuvens de fogo que vinham de todos os
lados tornavam o incêndio tão grande que quem se aproximasse corria risco de
perecer nas chamas, e via-se com espanto até a que excesso de furor o
desespero dos judeus era capaz de levá-los.",