Livro 8 – Capítulo IX História Eclesiástica

Dos mártires de Tebaida

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1. Mas os ultrajes e dores que suportaram os mártires de Tebaida ultrapassam toda descrição.

Laceravam-lhes todo seu corpo empregando conchas em vez de garfos, até que perdessem a

vida; atavam as mulheres por um pé e as suspendiam no ar com umas máquinas, com a cabeça

para baixo e o corpo inteiramente desnudo e a descoberto, oferecendo a todos os observadores o

espetáculo mais vergonhoso, o mais cruel e mais desumano de todos.

2. Outros, por sua vez, morriam amarrados a árvores e ramos: puxando com umas máquinas

juntavam os ramos mais robustos e estendiam até cada um deles as pernas dos mártires, e

deixavam que os ramos voltassem a sua posição natural. Assim haviam inventado o

esquartejamento instantâneo daqueles contra quem empreendiam tais coisas.

3. E tudo isto se perpetrava já não por uns poucos dias ou por uma breve temporada, mas por um

longo espaço de anos inteiros, morrendo às vezes mais de dez pessoas, às vezes mais de vinte; em

outras ocasiões, não menos de trinta, e alguma vez até cerca de sessenta; e ainda houve uma vez que

em um só dia deu-se morte a cem homens, certamente com seus filhinhos e suas mulheres,

condenados a vários e sucessivos castigos.

4. E nós mesmos, achando-nos no lugar dos fatos, vimos muitos sofrerem em massa e num só dia,

uns a decapitação, e outros o suplício do fogo, até o ferro perder o fio de tanto matar e partir-se

em pedaços por puro desgaste, enquanto os próprios assassinos se revezavam entre si pelo

cansaço.

5. Então podíamos contemplar o ímpeto admirável e a força e fervor realmente divinos dos que creram

e seguem crendo no Cristo de Deus. Efetivamente, ainda se estava ditando sentença contra os

primeiros e já de outras partes saltavam para o tribunal ante o juiz outros que se confessavam

cristãos, sem preocupar-se em absoluto com os terríveis e multiformes gêneros de tortura, mas sim

proclamando impassíveis, com toda liberdade, a religião do Deus do universo e recebendo a

suprema sentença de morte com alegria, regozijo e bom humor, ao ponto de cantar salmos, hinos e

ações de graças ao Deus do universo até exalar o último alento.

6. Admiráveis foram também estes, em verdade, mas mais admiráveis foram especialmente aqueles

que, brilhando por sua riqueza e seu nome, por sua glória, sua eloqüência e filosofia, mesmo

assim, tudo isto preteriram à verdadeira religião e à fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.

7. Assim era Filoromo, encarregado de certa magistratura importante da administração imperial de

Alexandria, que por sua dignidade e cargo romanos, cada dia administrava justiça com escolta de

soldados. E assim era Fileas, bispo da igreja de Tmuis, varão ilustre por seus cargos e funções

públicas desempenhadas em sua pátria, não menos que por seus conhecimentos de filosofia.

8. Estes homens, ainda que um grande número de parentes e de amigos, assim como outros

magistrados ativos lhes suplicassem, e apesar de que o próprio juiz lhes exortasse a que tivessem

compaixão de si mesmos e olhassem por seus filhos e mulheres, de modo algum se deixaram

levar por tão fortes argumentos para escolher o amor à vida e desprezar as leis sobre a confissão e

a negação de nosso Salvador, mas, resistindo a todas as ameaças e insolências do juiz com varonil

e filosófica razão, mais ainda, com ânimo pleno de piedade e amor de Deus, foram ambos

decapitados.

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