Livro 8 – Capítulo I História Eclesiástica

Da situação anterior à perseguição de nossos dias

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[Prólogo]
   Depois de haver escrito em sete livros inteiros a sucessão dos apóstolos, cremos que é um de
   nossos mais necessários deveres transmitir, neste oitavo livro, para conhecimento também dos
   que virão depois de nós, os acontecimentos de nosso próprio tempo564, pois merecem uma
   exposição escrita bem pensada. E nosso relato terá seu começo a partir deste ponto.


1. É uma tarefa gigantesca explicar como merecido quais e quão grandes foram, antes da

perseguição de nosso tempo, a glória e a liberdade de que gozou entre todos os homens, gregos

e bárbaros, a doutrina da piedade para com o Deus de todas as coisas, anunciada ao mundo por

meio de Cristo.

2. Ainda assim, prova disto poderia ser a acolhida dos soberanos para com os nossos565, a quem

inclusive entregavam o governo das províncias, dispensando-os da angústia de ter que

sacrificar, pela muita amizade que reservavam a nossa doutrina.

3. Que necessidade há de falar dos que estavam nos palácios imperiais e dos supremos

magistrados? Estes consentiam que seus familiares - esposas, filhos e criados - agissem

abertamente, com toda liberdade, com sua palavra e sua conduta, no referente à doutrina divina,

quase permitindo-lhes inclusive gloriar-se da liberdade de sua fé. Consideravam-nos

especialmente dignos de aceitação, mais ainda do que seus companheiros de serviço.

4. Assim era o famoso Doroteo, o melhor disposto e mais fiel de todos para com eles e por isto o

mais distinguido com honras, mais até do que os que ocupavam cargos e governos. E com ele o

célebre Gorgonio e quantos foram considerados dignos da mesma honra que eles, por razão da

palavra de Deus.

5. Era visível também de que favor todos os procuradores e governadores julgavam dignos os

dirigentes de cada igreja! E quem poderia descrever aquelas concentrações de milhares de

homens e aquelas multidões das reuniões em cada cidade, igual às célebres concorrências aos

oratórios? Por esta causa precisamente, já não contentes de modo algum com os antigos

edifícios, levantaram desde as fundações igrejas de grande amplidão por todas as cidades.

6. Com o tempo isto avançava e cobrava cada dia maior vulto e grandeza, sem que inveja alguma

o impedisse e sem que um mau demônio fosse capaz de fazê-lo malograr nem criar obstáculos

com conjuros de homens, tanto a mão celestial de Deus protegia e custodiava seu próprio povo,

porque em realidade o merecia.

7. Mas desde que nossa conduta mudou, passando de uma maior liberdade ao orgulho e à

negligência, e uns começaram a invejar e injuriar aos outros, faltando pouco para que fizéssemos

a guerra mutuamente com as armas mesmo, e os chefes dilaceravam os chefes com as lanças das

palavras, os povos se sublevavam contra os povos e uma hipocrisia e dissimulação sem nome

alcançavam o mais alto grau de malícia, então o juízo de Deus, com parcimônia, como gosta de

fazer, quando ainda se reuniam as assembléias, suave e moderadamente suscitava sua visita,

começando a perseguição pelos irmãos que militavam no exército.

8. E nós, como se estivéssemos insensíveis, não nos preocupamos sobre como tornar-nos benévola e

propícia a divindade, mas como alguns ateus, que pensam que nossos assuntos escapam a todo

cuidado e inspeção, íamos acumulando maldades sobre maldades, e os que pareciam ser nossos

pastores rechaçavam a norma da religião, inflamando-se em mútuas rivalidades, e não faziam

mais do que aumentar as rixas, as ameaças, a rivalidade e a inimizade e ódio recíprocos,

reclamando encarniçadamente para si o objeto de sua ambição como se fosse o poder absoluto.

Então sim, então foi quando, segundo diz Jeremias: obscureceu o Senhor em sua cólera a filha de

Sion e precipitou do céu para baixo a glória de Israel, sem recordar-se do estrado de seus pés no

dia de sua ira; antes, o Senhor submergiu nas profundezas todas as belezas de Israel e destruiu

564 Isto é, a grande perseguição, executada por Diocleciano.

565 Por recurso retórico Eusébio exagera a boa vontade dos imperadores, esquece o que antes disse sobre Aureliano e

seus predecessores. Depois da morte de Aureliano a Igreja tinha paz, mas nada mais.

todas suas valas566;

9. E segundo o profetizado nos Salmos, destruiu o testamento de seu servo e com a ruína das igrejas

profanou seu santuário, destruiu todas suas valas e plantou a covardia em suas fortalezas. E

todos os caminhantes saqueavam ao passar as multidões do povo, e como se isto fosse pouco,

converteu-se em ofensa para seus vizinhos. Porque exaltou a destra de seus inimigos e desviou o

fio de sua espada e não o sustentou na guerra, mas até despojou-o de sua pureza, derrubou ao

solo seu trono, encurtou os dias de seu tempo, e por último cobriu-o de ignomínia567.

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